|
Preâmbulo: Recebi a 1ª mensagem de Joana Pires (a última neste
correio) e perguntei-lhe se poderia divulgar a sua reacção. Aqui vai a resposta
que me foi proporcionada. Perdoe-me, Amiga(o), se a recebe eventualmente em
duplicado; mas o projecto Belgais, de Maria João Pires, e o que o Manifesto que
procovou a reacção (bem dolorido desabafo) de Joana Pires representa (ou deve
representar) abarca o património e a História é dele parte
integrante.
J. d'E.
----- Original Message -----
From: Joana Pires
Sent: Sunday, July 05, 2009 3:32 PM
Subject: Re: Uma Cultura para o Século XXI muito obrigada pela sua resposta! Pode divulgar o que achar bem, e, se quiser, posso escrever toda uma tese sobre este assunto. Há muito tempo que ando revoltada com isto que se passa, não só com belgais mas com toda a cultura. Com belgais o mais triste, o que mais magoa são os silêncios. Mais ainda do que as notícias falsas e de faca e alguidar que os editores obrigam os jornalistas a escrever. Não há uma política de cultura em lado nenhum, com as devidas excepções que confirmam a regra. Estou convosco para escrever o que for necessário, analisar contas, comparar com políticas realizadas no estrangeiro, tudo o que precisarem. Gostava muito de juntar a minha voz à vossa, não só pelo que tenho passado em Belgais mas pessoalmente também. Belgais é sintomático também. É um projecto tão inovador, é uma utopia provada, que incomoda muita gente, o que faz que, como não se percebe bem o que é, é porque gasta dinheiro sem fazer nada. Mas convido quem quiser a vir ver de perto o que aqui se faz, o que demora alguns dias, pois não se percebe este projecto com uma visita de jornalista apressado. Estamos a trabalhar sem nada, sem salários, sem móveis na escola, mas desafio qualquer professor a vir ver o que fazemos e se, com salários religiosamente pagos a tempo, horários das 9h às 15h15 (tb religiosamente cumpridos), direitos e tudo o mais consegue fazer nas suas escolas o que nós fazemos sem nada disso. Ninguém ainda teve coragem para fazer as contas de belgais, ou de olhar para os relatórios de gestão ou para as auditorias, senão teriam que se calar para sempre. Se analisarmos de perto, o estado deu até hoje quase dois milhões de euro a belgais nos últimos 10 anos (entre o Ministério da Educação e a União Europeia) e deste dinheiro 70% foram gastos em pessoal e o resto em bens, serviços e mercadorias. Ora se o estado leva mais de 45% de impostos às empresas no pessoal (o IRS em média 15%, mais 11% Seg social mais 20,6%, de contribuições) daí foram devolvidos 31,5%. Dos restantes 30% dos subsídios obtidos, tivemos que pagar 20% de IVA, o que faz 6%. Se somarmos tudo, quer dizer que devolvemos ao estado 37,5%, ou seja 750 mil euro. Então isto não é um bom negócio para o estado? (desculpe-me o desabafo...) O que os governos e aspirantes a eles não entenderam é que a cultura pode gerar uma actividade económica (e eles adoram esta frase, mesmo quando não sabem bem o que isso é), com todos os benefícios sociais, culturais e de educação que devem estar associados. Há tempos fazia umas contas de joelho assim, pegando ainda no aeroporto: «O novo aeroporto de Lisboa, vai custar quase 5 mil milhões de euro. Se se optasse por uma solução de metade do preço (perfeitamente possível), sobrariam 2,5 mil milhões de euro. Se dividirmos isso pelo nº de freguesias (uma divisão aleatória, claro, podia ser por outra coisa qqr) que são cerca de 4.000, dava 625 mil euro a cada freguesia. Se o estado acreditasse realmente no poder que a sociedade civil organizada tem, podia apoiar uma associação por cada freguesia com 625 mil euro o que é suficiente para se fazer um trabalho com muita qualidade e com muito impacto social, seja na área cultura, educativa ou social. E nem precisava de ir "roubar" a qqr outro ministério. » O que estes políticos de pacotilha não percebem é que não se pode avaliar um projecto com vistas curtas avaliando apenas a rendibilidade e a taxa de emprego que ele gera. Faltam outros três absolutamente fundamentais: o impacto social (que não se reduz à empregabilidade), o impacto cultural e o impacto ambiental. Continuaremos em círculos, ou melhor, numa espiral decadente se não houver respeito pela acção social, pela cultura e pelo ambiente. Já que há tanto dinheiro para gastar, porque é que não se apoiam estruturas realmente capazes de produzir cultura? Qual é a maior riqueza do Brasil? è o petróleo? São os diamantes? É a floresta? Ou será que é a cultura? O nosso presidente da república Cavaco Silva veio finalmente agora falar na cultura. Sem querer ser desmancha prazeres, o que se passa é que há um estudo feito há meses, que está na gaveta não sei porquê (já me fartei de o reclamar e inventam sempre qqr coisa) encomendado pelo Ministério da Cultura que diz que a actividade cultural (sem turismo nem multimédia - isto é, jogos de computador) representa hoje 8% do pib nacional e não 2,3% como andavam para aí a dizer. Mas o MC só tem 0,3% do orçamento de estado. Isto sim é um escândalo! Isto quer dizer que os promotores da actividade cultural estão a trabalhar sem condições, produzindo muito acima das suas capacidades, e os outros (que eu não vou dizer quem) a gastar o que a cultura produz! É tão revoltante! E no fim, o reconhecimento que levam é: só cantam, só dançam, não fazem nada. Bom, já chega de verborreia. Desculpe-me o despejo, mas contem comigo para o que quiserem. cumprimentos joana pires > ----- Original Message ----- > From: Joana Pires > To: jde@fl.uc.pt > Sent: Saturday, July 04, 2009 11:25 PM > Subject: Uma Cultura para o Século XXI > > > Boa tarde > > Ouvi hoje na Antena 1 que havia este manifesto. Procurei no google e > encontrei, mas gostava de saber se também o posso assinar. É que > não podia estar mais de acordo... > > Sempre trabalhei na área da cultura e estou neste momento a fazer uma > pós-graduação no ISCTE de Gestão Cultural. > > O panorama é cada vez mais negro e aflitivo. Realmente, à beira de > novas eleições e correndo o risco de se mudar até de governo, > nenhum partido com representação parlamentar se pronunciou > minimamente sobre o seu projecto para a cultura. É impressionante > como se fala com tanta ligeireza em investimentos de 5 mil milhões de > euro (novo aeroporto) e o Ministério da Cultura recebe, para o ano > 2009, 212 milhões. É 25 vezes menos. Se considerarmos que o novo > aeroporto vai durar 5 anos sem ter obras de renovação (e > considerando que 5 mil milhões de euro é exactamente o que vai > custar o novo aeroporto), continua a valer 5 vezes mais do que TODA A > CULTURA DO NOSSO PAÍS. > É que o ministério da cultura tem que pagar, com esses 212 milhões, > o funcionamento e obras de todos os museus e monumentos, teatros, > bibliotecas, orquestras e ainda tem que sobrar para a produção > independentes, e já agora que sobre qqr coizinha para pagar a > milhares de funcionários que levam logo 30% do orçamento, para não > falar na luz e água de todos os edifícios de mencionei. > E se formos numa de comparações, a "Presidência do Conselho de > Ministros" recebe mais (297 milhões) os "encargos gerais do > estado" (que não percebo o que é) custam 3.177 milhões, para não > falar nas finanças e administração pública que levam metade do > orçamento de estado. > > Não acho que o dinheiro seja tudo, nem que com mais dinheiro se faz > melhor, mas é sintomático que, desde 2000, a fatia do bolo tenha > vindo a diminuir até aos actuais miseráveis 0,3% do orçamento de > estado. É realmente preocupante, tanto mais num país culturalmente > muito empobrecido, com uma riqueza cultural histórica enorme e > delapidada. > > Eu vivo aqui no fim do mundo, numa região onde às vezes nem sinto > que haja um governo de tal forma estamos esquecidos para aqui, > entregues a uns caciques broncos e brutos, que acham que a cultura é > "cara e desnecessária" (sic presidente da câmara de castelo branco) > > Não o maço mais, só queria saber se posso assinar ou se já > acabaram as recolhas. > > Com os melhores cumprimentos > > > Joana Pires > Associação Belgais > (presidente da direcção) |
| Mensagem anterior por data: [Museum] Destruição de livros | Próxima mensagem por data: [Museum] 5ª. à Noite no Museu Nacional do Traje |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] Torre Turística Transportável | Próxima mensagem por assunto: [Museum] Uma vaga disponível para o Workshop "Como Divulgar Actividades Culturais" - FÁTIMA |