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[Museum] DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA: o caminho errado.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA: o caminho errado.
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Tue, 5 Sep 2017 15:33:15 +0100

 

As Escolhas para o(s) Instituto do Estado responsável pela Defesa da Língua Portuguesa sucedem-se há décadas de modo idêntico.

Recentemente voltou a acontecer.

Essas Escolhas causam alguma perplexidade. Não pelas Pessoas em si, nem pelos seus reconhecidos méritos, mas pelo modo como se teima em continuar a errar na Defesa da Língua Portuguesa.

Não é uma Pessoa que resolve o problema e o desafio. É o tipo de Equipa (perfil técnico, profissional, e científico) que se escolhe, juntamente com a Estratégia e os Objetivos que se definem para o êxito dessa Defesa. Ora é isso que causa perplexidade e tristeza.

Como é possível continuar a trilhar um caminho errado que tem levado a uma clara “perda-de-quota” (para usar um termo económico)? Isto é, a uma evidente diminuição da importância da Língua Portuguesa em termos percentuais na relação com as que competem com a nossa. Como é possível constatar essa evidência, e continuar-se no mesmo caminho?

A Defesa da Língua Portuguesa não se faz com juras e laudos emocionados, cheios de paixão nacionalista. Que não são mais do que uma confissão de impotência, e uma manifesta prova de que não se sabe qual é o caminho. Não será insensatez e imprudência continuar a seguir o mesmo caminho das últimas décadas? Ele não vai dar inevitavelmente à perda e ao declínio? Usar uma Medida numérica ou uma estatística quantitativa (+ ou -) é tapar o Sol com uma peneira. Porque a Medida que mostra a Realidade é a que compara percentualmente a relação de umas Línguas com as outras.

Não seria mais competente olhar para o que se passa hoje à nossa volta?

Hoje, verificamos que já foram construídas as BASES-DE-DADOS DOS SÍMBOLOS (signos) de quase todas as Línguas do Mundo (experimente-se clicar em «ASC II» na Internet ), às quais se estão a fazer corresponder os sons das BASES-DE-DADOS DE FONEMAS (pronúncia), através de uma terceira BASE-DE-DADOS: DAS RELAÇÕES ENTRE SÍMBOLOS E FONEMAS. Estas três bases-de-dados (ver: Pedro Manuel-Cardoso, 2010 “Para Onde Ides Objetos?”, ULHT, Lisboa) estão a ser testadas em vários locais do Mundo. Concretamente, nos países e culturas que decidiram um Caminho diferente na Defesa da Língua. Talvez se a Língua Portuguesa tivesse menos do que 10 mil falantes (e há muitas neste momento), e a ameaça de extinção fosse assim tão dramática, decerto que a atual preguiça técnica e o atual comodismo intelectual mudariam.

O tamanho dos circuitos integrados que contêm essas bases-de-dados chegou a uma escala em que é possível (em termos físicos e bioquímicos) a conexão com os terminais sinápticos e os circuitos neuronais (American Chemical Society, “The engineering of DNA for the long-term storage of digital information”, 17aug2015). Ou seja, em menos de meio-século vai ser possível falar em Português e o destinatário ouvir na sua Língua, através de implantes ou de uma simples pulseira no braço. Não se trata de saber falar 3 ou 5 Línguas diferentes, trata-se de ser possível falar para 200 ou 300 Línguas diferentes.

Logo, o Objetivo e a Medida-de-Sucesso não é ultrapassar as outras em número de falantes. Isso é uma meta impossível e insensata. O Caminho que se deve trilhar é o da capacidade da Língua Portuguesa conseguir comunicar com cada vez mais Línguas através deste avanço tecnológico e científico. Por um lado, ir construindo esse aumento naquelas Bases-de-Dados. Por outro lado, aumentar a capacidade da Língua Portuguesa em falar e descrever cada vez mais fenómenos e eventos que constituem o Conhecimento do Mundo e da Existência. Dar a quem escolher o Português a possibilidade de, em comparação com as outras, falar de Tudo de uma forma mais eficaz e eficiente.

Ora sendo esta a realidade que absorve hoje milhares de engenheiros informáticos, linguistas, e engenheiros bioquímicos e moleculares… é no mínimo confrangedor ver o perfil da Equipa e a Estratégia escolhida pelos Governos de Portugal.

Tal como afirmei na Mensagem de 24maio2017 (“Re: [Museum] Escrever na língua nativa”), defender a Língua Portuguesa é seguir pelo caminho da “Singularidade particular de uma Cultura – cuja Comunidade ultrapassa muito a Portuguesa. Uma rede de ligações global muito para além do território português. Logo, trata-se da construção de uma Diversidade. Aquele tipo de Objeto e de Realidade que, por ser indecomponível, permite a plena abertura a todas as Interdependências. Paradoxalmente, por causa dessa propriedade de indissolubilidade”. Ou como afirmou o atual Secretário-Geral das Nações Unidas: “A Diversidade pode juntar-nos e não separar-nos” (António Guterres, 13out2016, ONU). Isto é: “A Diversidade assumida como o cerne da mudança ideológica e política que conduz às soluções contemporâneas. A Diversidade assumida, no discurso de hoje, como a Relevância-chave do Património da Humanidade” (http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/msg16003.html).

Logo, a Defesa da Língua Portuguesa não é um assunto que se trate estrategicamente no Exterior (Ministério dos Negócios Estrangeiros), mas sim no Interior (Ministérios da Educação e do Ensino Superior). Porque é necessário mais Investimento (Orçamento do Estado) para promover a criação de muitos mais conteúdos em Português dentro da Sociedade Portuguesa.

O que xs Excelentíssimxs Embaixadorxs podem fazer? Fidelizar clientes estrangeiros a partir das Embaixadas? Convencer os autóctones dos países estrangeiros a falarem português? Promoverem roadshows e eventos literários para tentar captar falantes? Convencer as leis dos países estrangeiros a terem escolas do ensino do português, passarem programas radiofónicos em língua portuguesa?

Não será isso uma insensatez e uma falta de realismo?

Porque, por cada milhão de novos falantes de português (mesmo que se conseguisse essa utopia) nascem a cada ano que passa dez milhões de novos falantes de mandarim, hindu, inglês, castelhano. Estar-se-á à espera que o problema seja resolvido pela reprodução biológica de falantes de português?

Isso não é insensato? Esse dinheiro gasto no Exterior e nesses grupos excursionistas, não seria muito mais profícuo cá dentro?

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


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