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[Museum] Vontade de Museu e o orçamento participativo de Lisboa

To :   Museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Vontade de Museu e o orçamento participativo de Lisboa
From :   Pedro Pereira Leite <pedropereiraleite@ces.uc.pt>
Date :   Sun, 22 Apr 2018 11:01:46 +0100

Apesar de ter pouco tempo para a escrita nesta listas, tenho vindo a acompanhar os debates sobre a proposta do Museu da Interculturalidade em Lisboa, na sua ligação com a iniciativa do orçamento participativo de Lisboa.

Não resulta claro  nesta discussão se a proposta de Matilde de Sousa Franco para o Museu da Interculturalidade e a proposta do Memorial da Escravatura (projeto p 126 vencedor no orçamento participativo de Lisboa) é sobre a mesma questão. 

Tenho ideia que Matilde de Sousa Franco, tem desde sempre vindo a defender a ideia do tal museu da interculturalidade ou da celebração do "encontro de culturas" tal como a elite intelectual portuguesa gosta de se referir à tragédia colonial e pós-colonial portuguesa, procura, como sempre tem vindo a fazer, reunir apoios e influencias para um projeto que é digamos assim "designio de vida". 

Já o Memoria da Escravatura, no orçamento participativo, resulta duma iniciativa da sociedade civíl, nesta caso da "afro-descendentes" que se mobilizou. 

Ora entre os dois processos há uma distância epistemológica que vale a pena registar. 

No primeiro caso, o do Museu, não é mais do que uma vontade duma elite intelectual, ainda que celebrada, por narrativas simbólicas e legitimada por influentes lideres de opinião, entre os quais o peso pesado António Guterres. 

O segundo caso, o do memorial da escravatura, é também uma vontade duma elite de afro descendentes, que confronta a narrativa elitista, procurando impor uma outra narrativa, da diversidade do presente. 

Para além da diferença epistémica, que poderia ser uma razão para dialogar e avançar conjuntamente, e da diferença de  legitimidade que  as duas propostas transportam, a do orçamento participativo, por via do paradigma da democracia participativa, e a do orçamento da CML, por via da legitimidade do paradigma representativo, há ainda uma terceira questão que valeria a pena discutir. A da vontade de museu.

A vontade de museu é essa expressão duma comunidade que escolhe uma maneira de se representar. Nesta questão, a vontade de museu não só é na sua forma divergente, como no plano dos conteúdos também o é.

E temos como exemplo, para refletir, a trágica  situação do museu da escravatura em Lagos, a cidade dos Descobrimentos, como se gosta de proclamar. Vai para dez anos que na lixeira da cidade foram resgatados esqueletos dos escravos descritos por Zurara, nos idos de quatrocentos. Caso único na Europa e no Mundo. Esses escravos estão esquecidos em Coimbra, sem que os tais intelectuais de hoje lhe tenham reconhecido valor. Os mesmo intelctuais que montaram uma deplorável exposição com objetos africanos (recolhidos nas coleções locais), confundindo escravatura e africanos, como os seus (nossos) antepassadaos confundiram a humanidade com a mercadoria. 

Estará a dupla Raposo e Franco conscientes do desafio de criar uma narrativa da "diversidade" . A partir de onde, com que e com quem?








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