Bom dia! A história que hoje lhe vou contar começa no início de uma tarde e só termina no final de uma outra. Nesse entretanto, passaram-se quase dois dias. Ao início dessa primeira tarde - era sexta-feira, a última, 24 de Abril - talvez a ansiedade de saber que já estava atrasado impediu que o primeiro pensamento fosse precisamente para aqueles em quem tinha vindo a pensar no caminho todo. Foi um paradoxo; tanto me tinha lembrado de nomes como o operário e antifascista José Vitoriano, cuja história descobri há uns anos. Refeito da inquietação do atraso – e enquanto fotografava o espaço e a entrevista que a minha colega Elisabete Rodrigues ia fazendo – deixei-me perder pela paisagem da sala. A conversa, da qual resultaria uma excelente notícia (e já lá vamos), acontecia com muitas máquinas antigas à volta. Pareceu-me ver algo que se assemelhava a um torno. Não tento arriscar nomeá-las. A imaginação fez-me, sim, tentar viajar até aos anos em que, ali mesmo, naquele complexo onde agora estava eu em 2026, trabalharam milhares de operários na indústria da cortiça. Pensei nas mãos que ali tanto terão sangrado; nas vidas certamente muito piores do que a minha; no quão, esses operários – homens, mulheres e crianças - eram explorados, impedidos de, perante o peso da injustiça, levantar a voz. Houve quem o fizesse – José Vitoriano, de quem lhe falei acima, foi um exemplo. Pagou-o com prisões sucessivas e tortura. Devo-lhe (devemos-lhe) esse respeito – e a honra perante a sua memória. O sítio onde estava – apercebo-me de que ainda não lho tinha dito – era a antiga Fábrica do Inglês, no coração de Silves. É um sítio pitoresco, com um chalet no meio e que, acredito que se lembre, foi remodelado nos finais dos anos 1990. O maior ex-libris desse renovado espaço era, então, o Museu da Cortiça, em homenagem a uma indústria que se confunde com a história de Silves. Os anos passaram e, tanto a crise económica, como imensos problemas burocráticos e judiciais, levam a que a Fábrica do Inglês esteja fechada há anos. Tudo mudará brevemente – o Museu vai reabrir, como lhe contamos aqui. Podem já não restar muitos operários dos tempos em que o setor da cortiça era o motor daquele concelho, mas a sua memória ficará mais perto de continuar a ser relembrada. Assim aconteceu comigo quando saí, já bem a meio da tarde, da Fábrica do Inglês, fui à minha vida e de tudo isto me voltei a lembrar no dia seguinte. […] |