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Tenho em casa este poster emoldurado que é histórico: refere-se à primeira grande campanha ambiental feita no nosso país, em 1979, que tinha como lema «Salvemos o Lince e a Serra da Malcata». A campanha foi lançada pela Liga para a Protecção da Natureza, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e até pelo então Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, que deu origem, depois de muita degenerescência, ao atual Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). A campanha levou à criação de uma reserva natural parcial naquela serra do Centro do país (em 1981), livrando-a, apenas em parte, das garras das empresas de celulose, mas não evitou o desaparecimento do lince-ibérico por aquelas paragens. Os incêndios que se têm sucedido também não ajudaram. Uns anos mais tarde, já no Algarve, estive envolvida, como cidadã e como jornalista, em iniciativas que lutavam contra a expansão sem regras dos eucaliptos, do betão e das barragens pelas nossas serranias, tendo como pano de fundo a necessidade de preservar a biodiversidade, nomeadamente os poucos linces-ibéricos que ainda por aqui mal sobreviviam. Eram tempos em que ser ecologista não era ainda uma profissão (como hoje...), era antes uma missão. E em que os ecologistas eram vistos como um bando de maluquinhos que defendiam umas coisas estranhas e contrárias ao “desenvolvimento”. Jornalistas que se ocupassem de temas de ambiente, como eu, eram certamente gente perigosa. Lembro-me de uma vez, lá pelos inícios dos anos 90, ter assistido a uma conversa entre um dirigente do Núcleo do Algarve da LPN, a Liga para a Protecção da Natureza, e Carlos Tuta, então presidente da Câmara de Monchique, mas, sobretudo, presidente da então Associação de Municípios do Algarve, sobre o tema da conservação da natureza e do lince. O ecologista dizia: «na Escócia, não há nenhum monstro no Loch Ness e todos lá vão para o ver, atraindo multidões de turistas e dinheiro para a economia da região. No Algarve, temos o lince-ibérico, o felino mais ameaçado de extinção em todo o mundo, poderíamos atrair um turismo de qualidade com esse chamariz, mas só se pensa em destruir o seu habitat». Estão a imaginar a resposta que o autarca então deu?... Pois... Acabou por ser uma obra com consequências graves para a biodiversidade a trazer o lince-ibérico de volta, por mais contraditório que isto pareça ser. É que, para autorizar a construção da barragem de Odelouca, obra com impactes ambientais sérios e que gerou um movimento muito grande de contestação, que juntou todas as principais associações ecologistas nacionais e regionais, a Comissão Europeia impôs medidas compensatórias draconianas, a ser implementadas pela empresa Águas do Algarve, responsável pelo investimento. Entre essas medidas, estava a criação, na serra de Silves, perto da barragem, de um Centro especializado para a reprodução do lince-ibérico, de modo a voltar a reintroduzir a espécie na natureza. E isso aconteceu, com o apoio dos espanhóis que, sobretudo no vizinho Parque Nacional de Doñana, já tinham um trabalho de anos na recuperação do lince. Uma empresa altamente especializada ocupou-se da tarefa sensível, com o aval do ICNF. Por isso, há quatro anos, quando houve as primeiras libertações de linces criados em cativeiro na zona de Alcoutim, eu que, enquanto cidadã e enquanto jornalista, tanto lutei pela defesa destes felinos, fiz questão de ir assistir, de coração inundado de alegria. Quando o primeiro lince saiu da gaiola onde fora transportado, deu uma corrida à nossa frente, livre, parou e olhou para trás, para nós, para mim, confesso que me escorreram as lágrimas pela cara abaixo. O programa de reprodução e libertação do lince-ibérico tornou-se um caso de sucesso, celebrado a nível mundial. Só que, agora, vá-se lá saber porquê, o ICNF quer alterar as regras do jogo, como o meu colega Hugo Rodrigues aqui descreve, em pormenor. Que resultado terá tudo isto iremos ver… |