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[Archport] Re:Trabalho Digno


•   To: archport@lserv.ci.uc.pt
•   Subject: [Archport] Re:Trabalho Digno
•   From: LuisaPinedaCabello@sapo.pt
•   Date: Fri, 29 Sep 2006 12:15:05 +0100

Venho por este meio responder ao colega André Gregório, o qual pareceu ficar
bastante incomodado com a defesa que alguns colaboradores e a minha própria
pessoa fizemos à empresa Archeocelis.

Devo também pedir desculpas se no meu anterior e-mail feri a sensibilidade de
alguém, mais fiquei indignada com a forma que alguns colegas tiveram para
abordar os problemas.

Em primeiro lugar devo afirmar que na actualidade, alguns outros colegas e eu
nos encontramos a trabalhar para empresa Archeocelis com contrato. Sim,
daqueles com segurança social, subsidio de ferias, subsidio de almoço....em
fim, daqueles. A verdade é que esta situação não abrange a totalidade dos
trabalhadores, mais acredito que com o tempo, outras pessoas irão
incorporando-se ao quadro de pessoal da empresa. Devo também informar que a
Archeocelis possui instalações no Montijo, com instalações para tratamento
do espólio e elaboração de relatórios.

Posso assegurar aos colegas que sugeriram certa coacção para efectuar estas
afirmações que, antes do que arqueóloga, considero-me pessoa, e nem a minha
ética pessoal nem a minha consciência, deixariam fazer declarações que
realmente não sentisse. Já agora informo que nem todas as pessoas que
defenderam a empresa são na actualidade colaboradores desta entidade. Será
que não são dignas de respeito as pessoas que em vez de criticar defendem?
Está mal visto?

Possuo seis anos de experiência profissional, três dos quais passados em
Espanha. Colega André Gregório, já fui tão explorada! Já recebi pagamentos
com cheques que venciam a 180 dias, já trabalhei a mais sem ser paga para
"poupar" horas caso chovesse e não pudéssemos trabalhar, só que quando
chovia também se trabalhava....já fiquei a arder em pagamentos.... Por isso,
não me levem a mal, se no meu caso particular, tive a sorte de encontrar uma
entidade que me permite viver fazendo o que mais gosto. Não é "graxa", é
justiça.

Tem-se falado muito aqui sobre a criação de uma entidade que defenda os
direitos profissionais do arqueólogo. Por experiência própria (na Espanha
estive sempre inscrita no Colégio de Arqueólogos, depois, visto a
inutilidade, deixei de pagar as quotas). Desde aqui aplaudo esta iniciativa e
me uno a ela, mas salvaguardando uma pequena questão, esta entidade deve ser
realmente competente, e ter capacidade efectiva de actuação. Considero
importante que uma questão a ser regulada de forma urgente sejam os
honorários mínimos que um arqueólogo ou um técnico devem receber, tendo em
atenção questões como experiência, tipo de trabalho (acompanhamento,
prospecção, escavação), deslocação.......

Permitam-me fazer mais algumas reflexões. Quando entrei no curso de
Arqueologia, sabia que nunca na vida seria milionária, nem sequer imaginava
que algum dia trabalhasse efectivamente. Tenho trabalhado sim senhor, mas como
já disse fui muito explorada. Lamentavelmente nesta parte do mundo que nos
tocou viver, e incluo não só Portugal, mas também a Espanha, a arqueologia
não é considerada um bem de primeira necessidade, e desta forma um licenciado
em arqueologia nunca virá a receber o mesmo que um engenheiro ou um economista
qualquer, mesmo que os três tenham gasto as pestanas a estudar. Como gostaria
ser alemã, ou inglesa, países onde está situação já foi superada há
muito tempo!!

Não, neste lado do mundo os governos de diferentes ideologias vão-se
sucedendo, mais nenhum deles tem verbas para, por exemplo, pagar a arqueólogos
para estudar os caixotes e caixotes de espólio arqueológico que se acumulam
nos museus (mais uma sugestão, que tal deixar de escavar por uns tempos e
começar a estudar e publicar os dados das escavações já realizadas ??). Já
para não falar de projectos para os quais não há dinheiro.......tudo isto
porque a arqueologia é considerada um luxo, não é necessária. Que se pode
dizer de governos que tem os seus próprios funcionários a recibos verdes!!!

Que nos resta então? Entrar numa empresa privada. Mas, é aqui que está o
problema. Existem empresas a surgir por todos os cantos e assim funciona a lei
básica do mercado: demasiada oferta para pouca procura. Os preços descem
vertiginosamente Ora, agora, um exemplo; se uma empresa apresenta-se
orçamentos inferiores a 2000 euros, quanto receberia por sua vez o
arqueólogo? E mais uma, se uma construtora demora seis meses a pagar a uma
empresa de arqueologia, como faz esta entidade para pagar entretanto aos
técnicos? A solução a estes exemplos e bem simples e bem triste, há que
descer o ordenado ao arqueólogo ou ao técnico.

Por isso, a situação é bem mais complexa do que até o momento tem-se
mostrado. A solução, ao meu ver e como já disse, passa por criar um
organismo que regule os honorários mínimos de prestação de serviços,
embora ache isto muito difícil, uma vez que supõe que algumas empresas teriam
que aceitar valores muito superiores aos que costumam apresentar nas suas
propostas. Mais não é impossível, só é preciso reunir-nos e dialogar nos
locais adequados.

Comecemos a tratar dos problemas como pessoas educadas, analisando as
situações em profundidade e não apontando o dedo a empresas em e-mail
anónimos e por fascículos. Por último, junto-me ao comentário da colega
Maria Araújo aos anónimos: Trabalhem e deixem trabalhar!

Com os melhores cumprimentos,

Luísa Cabello.





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