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Re: [Archport] Materiais arqueológicos - património ou lixo?

To :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Subject :   Re: [Archport] Materiais arqueológicos - património ou lixo?
From :   Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com>
Date :   Fri, 13 Oct 2017 00:57:45 +0100

Arqueólogos exigem condições adequadas para salvaguarda do património subaquático

Diário de Notícias, 12/10/2017


Os arqueólogos reunidos em Lisboa, relativamente ao "importantíssimo espólio à guarda do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática" (CNANS), exigem que a tutela tome medidas "para a criação/reposição de todas as condições" adequadas à conservação deste património.

Cerca de 60 arqueólogos, de diferentes tutelas, da área autárquica às empresas privadas, passando por universidades e a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), debateram na quarta-feira, em Lisboa, o destino dos espólios arqueológicos, provenientes das diversas escavações, o seu estudo e inventariação.

O futuro do CNANS foi outro tópico do debate, tendo sido "aprovada por larga maioria, sem votos contra, uma proposta apresentada pela arqueóloga Jacinta Bugalhão", disse hoje à agência Lusa o catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, José d'Encarnação, que moderou o encontro.

Na moção propõe-se "a comunicação às entidades competentes do Ministério da Cultura de um veemente voto de repúdio pelo seu desempenho", no processo relativo ao CNANS, exigindo a "tomada de medidas imediatas para a criação/reposição de todas as condições que garantam a adequada conservação, estudo e fruição pública do acervo em causa, parcela ímpar do património cultural português".

Consideram os arqueólogos "alarmantes" as notícias vindas a público recentemente sobre "a situação de risco em que se encontra o importantíssimo espólio à guarda do CNANS/DGPC, motivada pela conjugação de uma escandalosa insuficiência de meios humanos, técnicos e financeiros ao dispor daquela unidade, com uma gestão incompetente e negligente do processo relativo às suas instalações".

Em setembro, a DGPC anunciou que o CNANS e o seu património seriam instalados, no próximo ano, num edifício em Xabregas, em Lisboa, depois da realização de obras, estimadas em 1,4 milhões de euros, permitindo a saída deste acervo de um armazém no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), em Loures, onde se encontra desde 2010.

O ministro da Cultura já afirmou que esta solução "preserva e valoriza o património arqueológico, através de um investimento financeiro que dotará o CNANS de instalações de excelência".

O epigrafista afirmou ainda à Lusa que "foi deveras acutilante a intervenção de Alexandre Monteiro [arqueólogo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa], relativa à passividade das entidades governamentais perante o continuado saque de mui significativa e avultada riqueza arqueológica proveniente de naufrágios de navios portugueses, levado a efeito por empresas expressamente formadas para a caça ao tesouro".

José d'Encarnação realçou que "a reflexão feita serviu, de modo especial, para se tomar consciência das dificuldades por que se está a passar no que concerne à devida salvaguarda dos espólios retirados das intervenções arqueológicas, porquanto faltam reservas em condições adequadas para o efeito".

Os arqueólogos sugeriam, disse, que, "mediante certificação, a obter, por exemplo, através da Rede Portuguesa de Museus, as autarquias possam vir a constituir depósitos do material proveniente do seu território, uma vez que as Direções Regionais de Cultura não vão ter condições de tudo recolher".

O epigrafista realçou que "tem sido notável, por exemplo, o trabalho levado a efeito em Coimbra, por Eugénia Cunha, no departamento de Antropologia Forense, no que concerne aos depósitos osteológicos, cujo interesse científico se salientou no encontro, pelas relevantes conclusões que a Antropologia Física ora permite alcançar no âmbito do estudo da população em determinada época".

O debate foi organizado pela Secção de Arqueologia da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) e pelo Centro de Arqueologia de Lisboa, sob o tema "Depósitos arqueológicos: património ou lixo?", e teve lugar na SGL.


https://www.dn.pt/lusa/interior/arqueologos-exigem-condicoes-adequadas-para-salvaguarda-do-patrimonio-subaquatico-8838946.html

Em 12 de outubro de 2017 23:27, José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt> escreveu:

         Como foi anunciado, realizou-se ontem, dia 11, durante todo o dia, na Sociedade de Geografia de Lisboa, o fórum de discussão subordinado à questão: Depósitos arqueológicos - património ou lixo?, cujo programa se anexa e que foi integralmente cumprido.

Estiveram presentes no Auditório Adriano Moreira, em média, 60 arqueólogos das mais variadas procedências.

Pode considerar-se que a reflexão feita serviu, de modo especial, para se tomar consciência das dificuldades por que se está a passar no que concerne à devida salvaguarda dos espólios retirados das intervenções arqueológicas, porquanto faltam reservas em condições adequadas para o efeito, tendo-se preconizado que, mediante certificação, a obter, por exemplo, através da Rede Portuguesa de Museus, as autarquias possam vir a constituir depósitos do material proveniente do seu território, uma vez que as Direcções Regionais de Cultura não vão ter condições de tudo recolher.

As intervenções foram, todas elas, no sentido de mostrar exemplos concretos do modus faciendi que já está a ser praticado em algumas instituições, mas que rapidamente corre o risco de ser insuficiente, dado o enorme acervo de espólio que está diariamente a ser recolhido.

De notar que, em relação ao grave problema que se está a colocar em relação ao espólio proveniente da Arqueologia subaquática, prestes a sair das provisórias instalações no MARL, foi posta à discussão e aprovada por larga maioria (sem votos contra) a seguinte proposta apresentada pela arqueóloga Jacinta Bugalhão:

 

"Considerando as alarmantes notícias vindas a público recentemente sobre a situação de risco em que se encontra o importantíssimo espólio à guarda do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática/Direcção-Geral do Património Cultural, motivada pela conjugação de uma escandalosa insuficiência de meios humanos, técnicos e financeiros ao dispor daquela unidade, com uma gestão incompetente e negligente do processo relativo às suas instalações;

Propõe-se a comunicação às entidades competentes do Ministério da Cultura de um veemente voto de repúdio pelo seu desempenho neste processo, acompanhado da exigência da tomada de medidas imediatas para a criação/reposição de todas as condições que garantam a adequada conservação, estudo e fruição pública do acervo em causa, parcela ímpar do Património Cultural Português."

                                                                                                                                                                                          

Se tem sido notável, por exemplo, o trabalho levado a efeito em Coimbra, pela Doutora Eugénia Cunha, no Departamento de Antropologia Forense, no que concerne aos depósitos osteológicos, cujo interesse científico se salientou, pelas relevantes conclusões que a Antropologia Física ora permite alcançar no âmbito do estudo da população em determinada época, foi deveras acutilante a intervenção de Alexandre Monteiro relativa à passividade das entidades públicas (leia-se: governamentais) perante o continuado saque de mui significativa e avultada riqueza arqueológica proveniente de naufrágios de navios portugueses levado a efeito por empresas expressamente formadas para a caça ao tesouro.

 

                                                                                                                      José d’Encarnação


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