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[Archport] Fw: Fernando Bragança Gil

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>
Subject :   [Archport] Fw: Fernando Bragança Gil
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Tue, 27 Jan 2009 14:34:50 -0000

    Para os que, porventura, estejam menos atentos, permita-se-me que introduza uma pequenina observação, em jeito de comentário tanto às primeiras linhas do texto infra como ao escrito de V. Oliveira Jorge: Fernando Bragança Gil foi um grande vulto da Museologia em Portugal e, como universitário, merece ser recordado na História de Portugal. Daí que, desde o primeiro momento em que se soube do seu passamento, tanto as listas museum como a histport tenham prestado a F. Bragança Gil a devida homenagem. Não me pareceu que, por a Arqueologia não ter sido (creio) um dos seus domínios de actividade (embora muitos amigos tivesse entre os arqueólogos), que devesse integrar na archport o in memoriam que, em tempo oportuno, lhe dediquei. Se pequei por omissão, peço desculpa!
   
                                                                                                    José d'Encarnação
 
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----- Original Message -----
Sent: Tuesday, January 27, 2009 1:30 PM
Subject: [Archport] Fernando Bragança Gil

Soube do falecimento deste grande Amigo da Arqueologia portuguesa pela mensagem remetida para este mesmo Fórum pelo nosso colega Victor S. Gonçalves.

Evoco, tal como este meu Amigo, o companheiro entusiasta e o investigador desinteressado, que pôs ao serviço de muitos arqueólogos, que então davam os primeiros passos científicos, os seus conhecimentos de Física Nuclear, como Catedrático dos mais ilustres que era, desde 1973, da Faculdade de Ciências, e Director do Centro de Física Nuclear do INIC, o velho Instituto Nacional de Investigação Científica, de boa memória.  

Conheci Bragança Gil era ainda aluno do 3º ano do Curso de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, pouco tempo antes do terrível incêndio que destruiu quase por completo o interior do velho edifício do antigo Colégio dos Nobres, em Março de 1978.

Apresentei-me um dia ao Professor, dizendo-lhe que estava interessado na análise de algumas peças calcolíticas de cobre, do povoado pré-histórico de Leceia, cujo estudo então iniciava. Recebeu-me de braços abertos, cheio de contentamento, declarando-me que há muito procurava conhecer arqueólogos para encetar programa de análises sistemáticas de objectos metálicos pré-históricos, na sequência do que, décadas atrás, foi levado a cabo em Portugal através de célebre programa alemão, então recorrendo a análises destrutivas. Assim surgiu o primeiro trabalho publicado logo em 1979, em Português e em Portugal, sobre análises de artefactos de cobre por métodos não destrutivos, na Revista Setúbal Arqueológica (cujas peças foram fotografadas pelo Fernando Barriga, actual Director do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa e então jovem Assistente de Mineralogia). Este trabalho viria  a ser co-assinado por Gaspar Barreira, que, entre outras coisas, era o braço direito de Bragança Gil para a concepção e manutenção do complexo equipamento laboratorial utilizado.

Recordo os fins de tarde que passei nas instalações do Centro de Física Nuclear, ainda como aluno, na preparação daquele trabalho pioneiro, onde me senti sempre ?em casa? e tratado como igual, com extrema cordialidade e amizade, e é com gosto que verifico ter o sucesso desta primeira experiência incitado Bragança Gil a envolver-se noutras, estabelecendo proveitosos contactos, sempre de forma impecável, com muitos outros  arqueólogos.

 Mais tarde, como Director do Museu de Ciência, cuja direcção continuou a assegurar já depois de atingido o limite de idade oficialmente estabelecido, encontrei-o muitas vezes, na ?Alsaciana? ou na ?Cister? onde almoçava, sempre em companhia de sua Mulher, vindo a pé de sua casa, na Av. Álvares Cabral. Depois de substituído naquelas funções, no ocaso da vida, senti que nele pulsava, ainda e sempre, a genuína curiosidade do investigador, inquirindo-me, com genuíno interesse, sobre as investigações próprias e as dos arqueólogos com quem trabalhara.

De Bragança Gil, que fugiu sempre a cargos, a honrarias ou a sinecuras, fica a memória, para todos os que dele se abeiraram, de um homem simples, empenhado e rigoroso, afinal qualidades que devem ser parte integrante da personalidade de qualquer pessoa que aspire a uma carreira científica digna desse nome.

 

João Luís Cardoso

 


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