O contributo para o pensamento de que os museus estão realmente necessitados dado pelo Dr. Pedro Manuel Cardoso despertou-me a escrita.
As colecções que habitualmente se guardam nos museus resultam do reconhecimento do respectivo valor patrimonial (memorial, estético ou outro). Durante muito tempo esse valor foi relativamente consensual, tornando-se difícil dizer se isso se devia ao facto de o mundo mudar lentamente ou de a mundividência estar condicionada por um padrão. É necessário recordar, no entanto, que ao juízo que faz do objecto comum um objecto patrimonial correspondem já formas de representação.
Na minha opinião, a reconstituição da realidade é uma ilusão porque o ser humano não conhece senão formas de representação do real, as quais podem ser mais ou menos amplamente aceites, adquirindo eventualmente um estatuto de realidade.
Numa época em que, pelo menos no Ocidente, a liberdade individual parece ser o vector dominante da cultura, torna-se difícil decidir quais as formas de representação do real que deveriam ter um lugar no museu.
A dificuldade em definir um objecto de percepção e conhecimento de forma estável no tempo reside sempre na natureza altamente subjectiva deste processo. O ideal parece ser, como sempre em situações deste tipo, atingir horizontes intersubjectivos que correspondam a ultrapassagens, ainda que provisórias, do sujeito de conhecimento.
Um caso típico em que isto sucede é precisamente no domínio da reflexão estética que se ocupa, entre outras coisas, de definir essa fatia do real a que nós, ocidentais, damos o nome de arte. Verdadeiramente a arte não pode ser definida senão a partir da intuição: podemos identificar uma obra de arte mas não possuímos critérios fixos a priori para distinguir uma obra de arte de outra que o não seja. Assim, temos que partir de uma base extremamente subjectiva, complexa, mas, nem por isso, menos primária, no que toca à precedência das emoções face à respectiva consciência e desta face ao juízo crítico. A formulação do juízo crítico é um processo que se eleva dessa realidade e a ela regressa constantemente com o objectivo, pelo menos, de relatar a história do gosto. É claro que nem tudo no chamado gosto é redutível a categorias temporais, pelo menos se, tal como até aqui, o idealismo de tradição kantiana continuar a constituir a base daquilo que acreditamos ser arte e que é o pressuposto de todas as histórias da arte. No entanto, elas não podem abarcar toda a realidade artística porque aceitámos que uma parte da mesma é metafísica. Ao mesmo tempo, o seu discurso julga os objectos, hierarquiza-os, coloca-os em relação uns com os outros – porque os critica naquilo que é matéria criticável: a sua aparência.
Tanto a história da arte como os museus contam histórias, fazem sentido com os objectos que mostram, segregam a sua própria realidade. Contentarmo-nos com as histórias que herdámos é medíocre e querermos que os outros não tenham senão a nossa história para escutar é pouco tolerante.
Acredito que o museu de arte não pode dispensar o acesso a alguma informação de ordem histórica. No entanto, o seu papel mais importante reside na capacidade de provocar impressões e ajudar à formação do juízo crítico e à consciência de que o gosto corresponde a representações partilhadas em dado tempo e espectro social. A interacção emocional, mais espontânea que a arte permite tem sido explorada, aliás, em outros museus que não de arte, quer na relação que se estabelece entre visitante-objecto-arquitectura, quer através da intervenção esporádica de artistas.
O museu de arte tem de compreender, por outro lado, que o trabalho com indivíduos só se pode fazer individualmente e que não há máquinas que possam substituir, no essencial, o ser humano. Desde logo se compreende também que o museu de arte será uma triste coisa se se limitar a transpor o que vem escrito nas histórias da arte.
A realidade pouco agradável que conhecemos é bem diferente destes ideais e a relação com aquilo a que chamamos arte – que deveria ser uma fonte de bem-estar para o visitante – traduz-se, quando muito, pela recepção de informação de índole eminentemente discursiva e não por um complexo enriquecedor de aspectos afectivos e racionais que proporcione a satisfação íntima que ainda acredito fazer parte das necessidades do ser humano.
Pedro Redol
17/08/2007
ASSUNTO: Museologia: Poderá o "Objecto Museológico " ser definido numa acepção diferente da de Património ("bens culturais" ou "objectos patrimoniais")? Qual a vantagem em fazer essa distinção para a Museologia?.
Perante os actuais resultados da Ciência, não seria chegado o momento de se reverem (ou pelo menos se construir um melhor consenso sobre) os conceitos de " suporte", "dado/data", "documento", "informação ", "conhecimento" e "saber". E em consequência formular o conceito de "objecto museológico " numa acepção diferente e distinta da de Património ("bens culturais" ou "objecto patrimonial")?
Estes dois assuntos tocam nos alicerces daquilo a que chamamos Museologia e Património, e têm profundas implicações a jusante no modo como definimos os "objectivos" do trabalho prático nos Museus. Ensaiámos esse exercício teórico no âmbito do Museu da Gestualidade e no trabalho (e no Léxico de Conceitos) apresentado em 2004. Mas sentimos que estamos ainda muito no início.
Nessa nossa proposta escrevemos:
(….) Portanto, os objectos (ou património) efectivamente talvez não possam deixar somente de equivaler ao programa de instruções (feito de caracteres e sinais químico-eléctricos) que os restituem à minha representação deles. A evidência desta diferença não poderá deixar de se traduzir, para a museologia, na adopção de uma separação conceptual entre objecto real ou natural (património) e o objecto que o cérebro representa acerca dele (objecto representado). Razão pela qual faria sentido alargar a noção de objecto e de Património às suas noções algorítmicas (no sentido de Kolmogorov), como propusemos anteriormente. Mas com essa consciência seríamos obrigados a modificar a noção de objecto. O " objecto museológico" passaria a ser "a representação do objecto real ou do património", portanto, o "objecto representado" e não o "objecto real ou natural ". Não a coisa, mas sim a representação da coisa. Passando doravante a poder incluir, simultaneamente, a materialidade (matéria e energia), os actos de fala ( oralidade), os actos de escrita (textualidade), os actos do corpo (gestualidade) e todas as codificações conduzidas pela acção, anteriormente referidas. Enfim, as coisas e os comportamentos; a materialidade e a acção. Por esse motivo, ao invés do paradigma tradicional, talvez o que deva passar a ser musealizado, e aquilo que deva ser motivo de colecção, sejam mais os factos do que os objectos. Mas este novo conceito de "objecto museológico" — doravante percepcionado e concebido como uma "representação do objecto real ou natural" — traria outras consequências para o trabalho museológico. Cuja principal implicação metodológica seria, de modo diferente do procedimento tradicional, passar a ser necessário guiar o trabalho de constituição de "colecções" pelas seguintes etapas:
i) Primeiro, transformar a reconstituição da realidade no fundamento do trabalho museológico.
ii) Segundo, executar essa reconstituição a partir de uma selecção de factos e acções adequados ao significado e à especificidade sociocultural de cada tipo de realidade a musealizar (como no exemplo que apresentámos sobre o Desporto na Figura 16).
iii) Terceiro, serem esses factos e essas acções a definirem quais os objectos, e as colecções, que melhor os testemunhariam (como no exemplo que apresentámos sobre o salto em altura na Figuras 17, 18 e 19).
O que aconteceria à Museologia se a finalidade do trabalho museológico tudo fizesse, doravante, para cumprir este programa, passando a coleccionar esses "objectos representacionais" referidos a cada um dos "objectos patrimoniais"? Este caminho não poderia proporcionar, porventura, um melhor contributo? O trabalho da Museologia, assim, não evitaria melhor os factores de entropia e da deterioração? Não é chegado o momento de restituir ao Património as suas quatro substâncias (materialidade-textualidade-oralidade-gestualidade) que, tenhamos a coragem de aceitar, têem faltado a quase todos os projectos e programas museológicos? Não é chegado o momento de almejar a uma Museologia Plena, ou a uma museologia do património pleno, onde poderiam coabitar simultaneamente a memória dos artefactos e do agir humano? (….)
16/08/2007
Pedro Manuel Cardoso
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