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[Museum] Museologia Poderá o Objecto Museológico ser definido numa acepção diferente de Património

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Museologia Poderá o Objecto Museológico ser definido numa acepção diferente de Património
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Thu, 16 Aug 2007 15:46:20 +0100

ASSUNTO: Museologia: Poderá o “Objecto Museológico” ser definido numa acepção diferente da de Património (“bens culturais” ou “objectos patrimoniais”)? Qual a vantagem em fazer essa distinção para a Museologia?.

 

Perante os actuais resultados da Ciência, não seria chegado o momento de se reverem (ou pelo menos se construir um melhor consenso sobre) os conceitos de “suporte”, “dado/data”, “documento”, “informação”, “conhecimento” e “saber”. E em consequência formular o conceito de “objecto museológico” numa acepção diferente e distinta da de Património (“bens culturais” ou “objecto patrimonial”)?

 

Estes dois assuntos tocam nos alicerces daquilo a que chamamos Museologia e Património, e têm profundas implicações a jusante no modo como definimos os “objectivos” do trabalho prático nos Museus. Ensaiámos esse exercício teórico no âmbito do Museu da Gestualidade e no trabalho (e no Léxico de Conceitos) apresentado em 2004. Mas sentimos que estamos ainda muito no início.

 

Nessa nossa proposta escrevemos:

(….) Portanto, os objectos (ou património) efectivamente talvez não possam deixar somente de equivaler ao programa de instruções (feito de caracteres e sinais químico-eléctricos) que os restituem à minha representação deles. A evidência desta diferença não poderá deixar de se traduzir, para a museologia, na adopção de uma separação conceptual entre objecto real ou natural (património) e o objecto que o cérebro representa acerca dele (objecto representado). Razão pela qual faria sentido alargar a noção de objecto e de Património às suas noções algorítmicas (no sentido de Kolmogorov), como propusemos anteriormente. Mas com essa consciência seríamos obrigados a modificar a noção de objecto. O “objecto museológico” passaria a ser “a representação do objecto real ou do património”, portanto, o “objecto representado” e não o “objecto real ou natural”. Não a coisa, mas sim a representação da coisa. Passando doravante a poder incluir, simultaneamente, a materialidade (matéria e energia), os actos de fala (oralidade), os actos de escrita (textualidade), os actos do corpo (gestualidade) e todas as codificações conduzidas pela acção, anteriormente referidas. Enfim, as coisas e os comportamentos; a materialidade e a acção. Por esse motivo, ao invés do paradigma tradicional, talvez o que deva passar a ser musealizado, e aquilo que deva ser motivo de colecção, sejam mais os factos do que os objectos. Mas este novo conceito de “objecto museológico” — doravante percepcionado e concebido como uma “representação do objecto real ou natural” — traria outras consequências para o trabalho museológico. Cuja principal implicação metodológica seria, de modo diferente do procedimento tradicional, passar a ser necessário guiar o trabalho de constituição de “colecções” pelas seguintes etapas:

i)  Primeiro, transformar a reconstituição da realidade no fundamento do trabalho museológico.

ii)  Segundo, executar essa reconstituição a partir de uma selecção de factos e acções adequados ao significado e à especificidade sociocultural de cada tipo de realidade a musealizar (como no exemplo que apresentámos sobre o Desporto na Figura 16).

iii) Terceiro, serem esses factos e essas acções a definirem quais os objectos, e as colecções, que melhor os testemunhariam (como no exemplo que apresentámos sobre o salto em altura na Figuras 17, 18 e 19).

 

O que aconteceria à Museologia se a finalidade do trabalho museológico tudo fizesse, doravante, para cumprir este programa, passando a coleccionar esses “objectos representacionais” referidos a cada um dos “objectos patrimoniais”? Este caminho não poderia proporcionar, porventura, um melhor contributo? O trabalho da Museologia, assim, não evitaria melhor os factores de entropia e da deterioração? Não é chegado o momento de restituir ao Património as suas quatro substâncias (materialidade-textualidade-oralidade-gestualidade) que, tenhamos a coragem de aceitar, têem faltado a quase todos os projectos e programas museológicos? Não é chegado o momento de almejar a uma Museologia Plena, ou a uma museologia do património pleno, onde poderiam coabitar simultaneamente a memória dos artefactos e do agir humano? (….)

 

16/08/2007

Pedro Manuel Cardoso

 


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