Património,
Cultura e Desenvolvimento
Sustentável a propósito do legado de Ingmar
Bergman.
Em 4 de Setembro de 2007, num dos
mais lidos jornais da manhã podia ler-se: “O Governo Sueco vai doar 2,2 milhões de euros à
Fundação Ingmar Bergman para que seja preservada a obra do realizador que
faleceu em Julho passado” (....) “O primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt,
considera a obra de Ingmar Bergman uma «importante parte da herança cultural
do país»” (Metro, 2007:11).
“Uma importante parte da herança
cultural do país”…Exactamente no mesmo sentido do “conceito de património cultural”
consignado no Artigo 2.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro: “…que constituam parcelas estruturantes da identidade
e da memória colectiva portuguesa”. E ainda em consonância com o
“Programa Nacional de Acção para o
Crescimento e o Emprego 2005-2008” quando refere que um dos três
“factores diferenciadores de
referência” para o Desenvolvimento de Portugal é a “língua” como “oportunidade para colocar Portugal no centro de uma
rede económica de criação de valor associada á matriz linguística e
cultural” (Diário da República n.º 228, I Série – B, de 28 de
Novembro de 2005, pág. 6822).
Portanto até aqui tudo está em
consonância. A Cultura e o Património são considerados vectores estruturantes
do Desenvolvimento dos países,
e da própria Sociedade encarada em termos globais.
A questão que esta mensagem lança
para o debate é a seguinte: ― Então, se a Cultura, e consequentemente a
Política de Património e de Museologia, são assim tão fundamentais para o
Desenvolvimento, porque é que a dita Estratégia do Desenvolvimento
Sustentável está assente apenas em “três vectores” excluindo deles
a Cultura?
- A própria Estratégia do Desenvolvimento
Sustentável não é um acto cultural, construído e optado pela
intencionalidade humana, num percurso que se iniciou explicitamente no
Seminário de Founex em 1971?
- Como é possível
operacionalizar os outros “três vectores” (“Protecção e Valorização do Ambiente”,
“Coesão Social” e “Desenvolvimento Económico”) sem na
base deles todos estar o que lhes dá energia e intencionalidade, que é a
escolha cultural por este
tipo de Desenvolvimento e não outro?
- Aos ditos três
“pilares do desenvolvimento
sustentável”, que podem ser vistos na Figura 1 e na página 5407
do Diário da República, I.ª Série, n.º 159, de 20 de Agosto de 2007, não
faltará o da Cultura?
É essa lacuna e essa contradição
que encontramos na famosa Estratégia do
Desenvolvimento Sustentável de que há imensos a fazerem coro.
Não será
arriscado prescindir assim, tão facilmente, do debate?
04/09/2007
Pedro Manuel
Cardoso