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[Museum] Manifesto pelos Museus

To :   "museum" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Manifesto pelos Museus
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Sun, 9 Sep 2007 20:03:17 +0100

Pedro Manuel Cardoso referiu-se anteontem ao "Manifesto pelos Museus", assinalando que passam agora 15 anos sobre a sua elaboração e divulgação e afirmando a importância que esse documento teve/tem. Pareceu-nos que seria interessante divulgá-lo na Museum, para comparar o que aí se propunha com o que foi feito durante o tempo que passou. Fomos encontrá-lo em:
http://www.minom-icom.org/textos2.htm#MANIFESTO%20PELOS%20MUSEUS (que é o site do MINOM), donde o trancrevemos, com a devida vénia.
 

MANIFESTO PELOS MUSEUS

APOM

 

Os museus portugueses, quer da Administração Central, quer das Autarquias, quer de outras tutelas, atravessam uma profunda crise. Não existe uma Lei-Quadro dos Museus, tanto mais necessária quanto a Lei de Bases do Património Cultural é omissa no que respeita aos museus. Não existe uma política museológica nacional, nem sequer uma revisão crítica do actual ordenamento das colecções. No entanto, não pára a proliferação de unidades museológicas ou de pseudo-museus, alastrando a construção de edifícios sem programa, sem colecções, sem quadro de pessoal especializado, sem orçamento, sem plano de actividades, mas com o rótulo de museus e muitas vezes apoiados com verbas comunitárias.

É certo que nos últimos anos se deram alguns passos positivos no sentido do levantamento da realidade existente, da discussão e troca de experiências museológicas em encontros e colóquios diversificados, da promoção de exposições qualificadas, do inventário das colecções e da sua disponibilização pública, da organização em rede dos museus e da formação e graduação académicas. Mas continua a faltar uma reflexão social mais abrangente acerca do estado actual dos museus portugueses e não se tomaram, nem se vislumbram no horizonte, quaisquer decisões estratégicas sobre o seu futuro e o seu papel na sociedade portuguesa. O Conselho Consultivo do Instituto Português de Museus, que poderia ter um papel neste domínio, não tem funcionado. E faltam igualmente ligações estruturantes com a política educativa do Ministério da Educação e com as grandes linhas de desenvolvimento do Turismo no território nacional.

Chega-se ao ponto de não existir sequer uma articulação visível entre as unidades museológicas dependentes do próprio Ministério da Cultura ou por este financiadas. Com efeito, se no plano organizativo e por um lado, o Instituto Português de Museus (IPM), com a estrutura de projecto Rede Portuguesa de Museus (RPM), vem procurando disciplinar a criação de museus, definindo normas e facultando formação para que os museus tenham uma nova imagem e novas práticas de funcionamento, por outro lado, o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) mantém os Palácios e Monumentos ainda fora dessa Rede. E no plano financeiro é gritante a escassez das verbas atribuídas aos museus do IPM, comparativamente às de todos os restantes organismos com valências museológicas dependentes do MC, entre os quais museus ou centros museológicos que politicamente foi entendido patrocinar e subvencionar, fora do quadro orgânico regular do mesmo ministério.

Verifica-se assim que as medidas preconizadas pela RPM, sendo necessárias e bem intencionadas no plano teórico, se revelam em grande medida inconsequentes, porque esbarram com os magnos problemas que afectam profundamente a qualidade da actividade museal. Entre estes problemas citam-se, a título meramente exemplificativo, o vazio normativo e estratégico acima indicado, a desvalorização das carreiras dos profissionais dos museus e as dificuldades práticas da implementação de muitas delas, a carência nas instituições museológicas de pessoal com formação adequada (situação agravada pelo escandaloso despovoamento dos museus em recursos humanos, a que se tem assistido em ritmo crescente), ou ainda as já crónicas e cada vez mais insuportáveis limitações orçamentais de funcionamento corrente e de investimento.

Daqui decorre o paradoxo de verificarmos que, enquanto os restantes países da Comunidade Europeia confiam nos museus como chaves para abrir portas de desenvolvimento cultural e económico, em Portugal assistimos ao abandono destas instituições de Memória, Cultura e Património, assim como das suas indústrias, que tão necessárias e urgentes seriam ao desenvolvimento e progresso das diferentes regiões do País.

O Plano Operacional da Cultura (POC), tão cheio de boas intenções declaradas e que suscitou tantas expectativas, tem-se vindo a revelar, afinal, uma imensa decepção. A requalificação dos museus, ali inicialmente prevista como linha de força fundamental, tem sido manifestamente preterida em favor de outros projectos, sacrificando assim uma oportunidade única, neste início de século, para dar uma nova visibilidade mediática e um renovado papel social e cultural aos museus portugueses.

Os recursos humanos e financeiros não satisfazem as necessidades reais imprescindíveis para uma mudança do panorama museológico nacional. A prática de cortes orçamentais e de pessoal prova que, para os governantes, nos últimos quinze anos pelo menos, nunca os Museus constituíram uma prioridade, sendo talvez assimilados a depósitos mortos onde não existem grandes investimentos a fazer. Esta atitude anacrónica torna Portugal ainda mais distante da Europa Comunitária, que tem investido de uma forma visível na multiplicação de unidades museológicas de grande impacto cultural e económico ? e tem delas feito verdadeiros agentes construtores da Cidade. Nesses países europeus, e na América do Norte, os edifícios e as colecções criaram um fenómeno mediático e social que atrai permanentemente multidões de visitantes aos locais onde se ergueram ou renovaram os museus. Para estes países há um entendimento da cultura e dos museus como factor de desenvolvimento dos povos e de bem-estar dos cidadãos. Também neste domínio se pode infelizmente concluir que Portugal, estando na Europa, dela não se aproxima com a velocidade requerida, ou até mesmo mais se afasta, com o passar do tempo.

Perante este desolador panorama, os subscritores deste Manifesto pelos Museus defendem a adopção, por parte das futuras entidades governativas, de uma política orientada por medidas emblemáticas e estruturantes, que deveriam ter como prioridade os seguintes PONTOS PROGRAMÁTICOS:

 

1.      Criação do CONSELHO SUPERIOR DE MUSEUS (CSM), à semelhança dos dispositivos homólogos existentes para as Bibliotecas e os Arquivos, que se deve constituir em órgão de coordenação da POLÍTICA MUSEOLÓGICA NACIONAL.

2.      Colmatação do vazio normativo actualmente existente, fazendo publicar, depois de amplo debate nacional, uma LEI-QUADRO DOS MUSEUS, na qual se definam as competências e atribuições dos órgãos de coordenação museológica a nível nacional.

3.      Reestruturação do IPM, integrando nele os palácios e os monumentos musealizados, e consolidando a actual estrutura de projecto RPM, à qual deve ser conferida, em íntima relação com o CSM, a função de creditação dos museus e fiscalização do cumprimento da respectiva Lei-Quadro, a todos os níveis da Administração;

4.      Consideração, como grandes linhas estratégicas de intervenção museológica, da acção pedagógica dos museus e da sua valorização como pólos de desenvolvimento cultural, científico, identitário e turístico.

5.      Suspensão de novos projectos de museus à escala ou por iniciativa política nacional, sem que estejam garantidas as condições de requalificação dos museus já existentes nesse mesmo plano.

6.      Adopção, como projecto emblemático nacional, do princípio da Construção da Cidade Através dos Museus, instalando em Lisboa, no Terreiro do Paço e após a saída dos Ministérios, de duas grandes unidades museológicas, ligadas à Arte e à História, capazes de transformarem o local num Lugar de Memória da Identidade Portuguesa e num centro cultural activo, para o qual que sejam chamados a contribuir quer os acervos e saberes de todos os museus portugueses relevantes, quer as demais instituições patrimoniais e de criação artística.

 

ANTÓNIO NABAIS (Presidente da APOM ? Director do Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, telemóvel: 917221314)

CLÁUDIO TORRES (Director do Campo Arqueológico de Mértola, telef.  286612443

FERNANDO ANTÓNIO BAPTISTA PEREIRA (Director do Museu do Convento de Jesus de Setúbal )

JOÃO CARLOS BRIGOLA (Professor da Universidade de Évora)

JOSÉ DE MONTERROSO TEIXEIRA (Director do Museu da Fundação Ricardo Espírito Santo, telef. 21\8814600)

LUÍS RAPOSO (Director do Museu Nacional de Arqueologia, telefone 213620000)

MADALENA BRAZ TEIXEIRA (Presidente da Assembleia Geral da APOM ? Directora do Museu Nacional do Traje, telef. 217590318)

 

Março 2002

 

 Este Manifesto pelos Museus é o resultado da reflexão sobre o estado actual dos museus em Portugal que os signatários deste texto,  a convite da  APOM (Associação Portuguesa de Museologia),  produziram.


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