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[Museum] Re Isabel Victor. O modelo pelo qual se comunica em Museologia.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Re Isabel Victor. O modelo pelo qual se comunica em Museologia.
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Mon, 24 Sep 2007 16:15:27 +0100

Assunto: Re Isabel Victor. O modelo pelo qual se comunica em Museologia.

A questão colocada em debate na Lista Museum por Isabel Victor é deveras interessante e pertinente.

Edward O. Wilson em 1975 apresentaria a seguinte definição de comunicação:

What is communication? (…) Biological communication is the action on the part of one organism (or cell) that alters the probability pattern of behavior in another organism (or cell) in a fashion adaptive to either one or both of the participants.(....). This concept has the advantage of being directly transportable into a mathematical statement. Our formalism recognises the following minimal set of six entities:

Individuals                                                             A             B

Acts                                                                       X¹            X2

Probabilities of acts occurring                 p(X¹)       p(X2)

Communication occurs when p(X2½ X¹) ¹ p(X2). In words, the conditional probability that act X2 will be performed by individual B given that A performed X¹ is not equal to the probability that B will perform X2 in the absence of X¹” (E. O. Wilson, 1975:194).

E acrescentaria: (....) “Communication is neither the signal by itself nor the response, it is instead the relation between the two”. (E. O. Wilson, 1975:176).

Nesta definição, a comunicação não é nem o sinal emitido pelo emissor, nem a resposta dada pelo receptor, mas sim a relação entre ambos. Ora é exactamente este aspecto que nos permite compreender a limitação imposta à comunicação museal pelos esquemas de Hooper-Greenhill e pela “Escola de Leicester”.

De acordo com o contributo de Yves Jeanneret (1999) uma informação apenas poderá ser transmitida se houver por parte do destinatário uma activação do significado do documento/objecto. E essa condição, através da qual eles se transformam em informação, não é transmissível.

Essa condição é uma relação, aqui-e-agora, que esses destinatários têm que estabelecer com os documentos/objectos. E uma relação não é transmissível. De facto poderíamos perguntar: ― Uma relação poderá ir por um fio telefónico, por carta/correio, por diskete, ou por um qualquer comprimento de onda hertziana? Como poderíamos transmitir uma coisa que ocorre apenas na condição de se estabelecer com ela uma relação? A do destinatário querer, ou conseguir, entrar em contacto com o que se transmite? Se esse encontro não se der — entre o entendimento do destinatário e o conteúdo do documento/objecto — poderemos afirmar, peremptoriamente, que a informação ocorreu? Que há ou houve comunicação museal?

Historicamente, vários modelos de interpretação do processo de comunicação foram sendo propostos (F. Saussure, 1916; H. Laswel, 1948; C. Shannon e W. Weaver, 1954/1963; W. Schramm, 1960; G. Maletzke, 1963/1970; J. Cloutier, 1965/1975; R. Petterson, 1993; etc.). Não é aqui o momento de os detalhar. O comentário que interessa aqui fazer-lhes é o mesmo que há mais de 30 anos a Escola da “Pragmática da Comunicação” (G. Bateson, P. Watzlawick, J. H. Beavin, D. Jackson e all, 1972) lhes apontou.

A pertinência a retirar para o debate conduz-nos a ter que relembrar que este “modelo estrutural” e “semiológico” de interpretação da comunicação humana foi herdeiro de uma concepção matemática da mesma. Através da qual se pretendia definir com toda a clareza possível o emissor, o receptor, o referente, o sinal e a mensagem. Relembrar que este “modelo linear da comunicação” se confunde com o nascimento da companhia de telefones e telecomunicações Bell (EUA), onde em 1949 Claude Shannon trabalhava. E que os trabalhos que dariam origem à concepção cibernética e circular da comunicação, realizados sete anos antes (1942 a 1948), por Norbert Wiener, partiriam do estudo empírico de cálculo das trajectórias de tiro dos canhões antiaéreos “DCA” na dita “Segunda Guerra Mundial”.

Aliás o termo cibernética é etimologicamente herdeiro do grego antigo “kubernan” (Grand Larousse Encyclopédique, 1961 e Nouveau Petit Robert, 1995:528) que significava “pilotar” ou “governar”. Platão utilizava-o para aprofundar o conceito de “governar”, através do exemplo da pilotagem de um navio. E, ainda em 1834, Ampère definia cibernética como “a parte da política que se ocupava dos meios para governar” (Grand Larousse Encyclopédique:1961).

Yves Winkin (1981:14-15) traça a evolução semântica da noção de comunicação chamando a atenção para que anteriormente, no latim, um outro desenvolvimento ocorrera, significando “pôr em comum”, “participar com” e “partilhar” — exactamente no sentido que Isabel Victor no-lo apresenta. Surgindo com o significado de “transmitir” apenas a partir do século XVIII. E que, em sua opinião a noção moderna de comunicação só aparecerá pela primeira vez em 1970, no Dicionário Grand Robert, quando os contributos de Wiener e Shannon foram completados com a perspectiva sistémica, introduzida pela “teoria geral dos sistemas” de L. von Bertalanfly (1950). Winkin chama a atenção (Winkin, 1981:19) para a semelhança entre o modelo de comunicação verbal proposto por R. Jacobson (1960:214) e o modelo de Shannon. Relembrando que a dimensão kinésica (gestual) e a dimensão proxémica só seriam acrescentadas nos anos 50, respectivamente com Ray Birdwhistell (1958) e Edward Hall (1955).

Ora esta decomposição matemática e estrutural da comunicação dá a ilusão de se captar o fluxo daquilo que se comunica. Mas de facto escapa-lhe o sentido, o significado e as estratégias prosódicas de afirmação e de poder dos interactuantes, que fazem das relações com os documentos (objectos e artefactos) um processo de manipulação. Fingindo ser receptores de uma tal maneira, que passam imediatamente a nunca deixarem de ter sido afinal os emissores, e vice-versa. Tornando insuficiente um modelo baseado no conceito de transmissão.

Foi esta também a opinião do Professor Adriano Duarte Rodrigues (1993): — “O estruturalismo dominante até aos anos 80 tendia a negligenciar ou, pelo menos, a preterir a dimensão não-verbal dos processos comunicacionais, privilegiando a determinação dos processos de codificação dos signos, em detrimento nomeadamente da explicação e da compreensão dos processos de descoberta do sentido das manifestações não-verbais que intervêm nas relações intersubjectivas. O privilégio atribuído ao código linguístico provocou muitas vezes uma confusão entre linguisticidade da experiência e explicação verbal, obliterando assim um dos ensinamentos mais consistentes da herança aristotélica e da escolástica, o da existência de um “verbum mentis”, de uma palavra interior, e da sua precedência em relação aos discursos pronunciados.” (Adriano Duarte Rodrigues, 1993:20).

Ora o museólogo deveria ter consciência que a partir dos anos 60 e 70 surgiria uma interpretação alternativa do processo de comunicação. Provavelmente, mais apropriada para interpretar e gerir a relação comunicativa dos objectos musealizados com os visitantes. E que a proposta de Hooper-Greenhill e da “Escola de Leicester” não consideram. Winkin chama ao modelo linear e matemático, herdeiro da concepção de Shannon, “modelo telegráfico”, por conceber a comunicação essencialmente como um processo de “transmissão” (Winkin, 1981:13). E ao outro, que se constitui como alternativa: “modelo orquestral”. “Le modèle orchestral revient en fait à voir dans la communication le phénomène social que le tout premier sens du mot rendait très bien, tant en français qu’en anglais: la mise en commun, la participation, la communion” (idem; 1981:26).

A relação que o visitante precisará de estabelecer com os objectos musealizados, para aceder à sua interpretação e ao seu significado, realizar-se-á muito mais tendo por referência a situação “orquestral” (i.e, de troca e de partilha) do que a “telegráfica” (i.e, de transmissão). Na qual não apenas contam os enunciados e as mensagens a transmitir, mas também o contexto e o processo global em como são postos a funcionar os canais de comunicação como refere Isabel Victor. Ou seja, onde também contará a expografia e o espaço museal nos quais a comunicação dos objectos ocorre. Ce n’est que dans le contexte de l’ensemble des modes de communication, lui-même rapporté au contexte de l’interaction, que la signification peut prendre forme” (Winkin, 1981:24)... “C’est en termes de niveaux de complexité, de contextes multiples et de systèmes circulaires qu’il faut concevoir la recherche en communication” (idem, 1981:25). Curiosamente, no mesmo número da revista Museum (UNESCO, 1987, n.º 153) em que Tomislav Sola publicaria o seu conhecido artigo “Concept et Nature de la Muséologie” (1987:45-49), Joshua Goldberg (1987:40-44) escreveria sobre a relação comunicativa, entre os visitantes e os objectos musealizados, de um modo conceptual mais próximo desta perspectiva “orquestral” do que a recente perspectiva de Hooper-Greenhill (1996). Com o sugestivo título “Ouvrir les yeux et les esprits”, Goldberg propunha que essa relação fosse estabelecida atendendo não apenas aos diferentes modos e ritmos dos diferentes tipos de visitantes, mas também com procedimentos intelectuais e afectivos diferenciados: “Trois principles directeurs avaient été retenus: faire prendre conscience de la pérennité du lieu; favoriser la participation directe du groupe; et faire appel autant que possible au jeu et à l’imagination” (...) cherchaient à améliorer la qualité de leurs réactions et à instaurer en même temps une relation harmonieuse entre eux, le musée et le monde extérieur” (1987:40-41).

 

A consciência do “modelo” através do qual se comunica o “objecto” ao visitante constituirá, sem dúvida, um dos factores essenciais para o museólogo conseguir desempenhar as suas funções num paradigma de trabalho que Isabel Victor referiu como sendo “um acto de comunicação.

 

É mais esta acha que poderei deitar para o debate que a Isabel Victor incendiou.

 

24/09/2007

Pedro Manuel Cardoso

 


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