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Comunicado da Direcção do ICOM Portugal A
crise da Fábrica das Faianças das Caldas da Rainha. Um
riquíssimo património cultural em risco. O
actual contexto de crise económica que tem atingido o tecido empresarial,
particularmente o sector cerâmico, levando ao encerramento de inúmeras unidades
fabris por todo o pais, com especial incidência na região Oeste (Alcobaça e
Caldas da Rainha), tem repercussões não só a nível económico e social, mas
também no plano cultural, colocando em risco importantes valores patrimoniais.
É
o caso da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha,
fundada em 1884, projecto industrial inovador destinado a impulsionar o fabrico
da cerâmica portuguesa e que ficou, de
uma forma inequívoca, associada à notável obra cerâmica artística criada por
Rafael Bordalo Pinheiro, mestre que, no seguimento de
tradição já existente da zona, nos legou uma
obra ímpar, constituída por centenas de peças decorativas, com temas
naturalistas e humorísticos, que alcançaram rápida difusão pela sua popularidade
e gosto fim de século, recebendo prémios em Espanha, na Bélgica, em França,
Estados Unidos e no Brasil. Não cabe
nesta ocasião resumir tão importante obra, que aliás é conhecida amplamente, até
pela importância fundamental que teve na vida cultural portuguesa, de que se
constituiu como verdadeiro e incontornável símbolo identitário, através de
figuras como o Zé Povinho. Importa, sim, referir a indissolúvel ligação de
Rafael Bordalo Pinheiro à fábrica caldense que ele próprio criou e que, em 1905,
depois da sua morte e de uma primeira falência passageira, foi retomada e
continuada pelo filho, Manuel Gustavo
Bordalo Pinheiro, que em 1908 mandou construir outra fábrica em terreno
contíguo, resgatou os moldes do pai e deu continuidade à característica
produção. Infelizmente, nos anos anos 50/60 do século
passado, a belíssima antiga fábrica de Rafael e todas as decorações cerâmicas
dos jardins foram destruídos. Retomou-se no entanto a actividade, porque se
mantiveram moldes e colecções de peças, assim se chegando à
actualidade. Agora, tal como há um século, a obra de Rafael Bordalo Pinheiro e a sua
memória está novamente Desta vez os riscos são maiores e a conjuntura económica mais complexa.
Falta de encomendas, grande concorrência, dificuldades financeiras, dívidas que
se avolumam e a falência aproxima-se, com todo seu cortejo de prejuízos
sociais. È neste contexto que a Comissão Nacional Portuguesa do ICOM, reconhecendo
que se trata de uma problemática em que cabe em primeiro lugar aos gestores da
Fábrica e às instituições públicas, centrais e locais, encontrarem as melhores
soluções para a salvaguarda dos interesses legítimos dos trabalhadores e das
comunidades abrangidas, não pode deixar de manifestar a sua profunda preocupação
pelo património cultural envolvido, tanto ao nível de edifícios e equipamentos,
como ao nível de moldes e objectos produzidos, grande parte deles de
insubstituível valia histórica. Neste sentido, apelamos para que não se deixe dispersar acervo tão
valioso e expressamos todo o apoio a quaisquer soluções que, por via da
intervenção do Poder Local ou dos organismos centrais dos Ministério da Cultura,
permitam a manutenção das valências museológicas da Fábrica, já hoje existentes,
assim como o seu desejável reforço, dando origem a um verdadeiro museu que
recolha a história, os processos de fabrico e a produção da Fábrica de Faianças
das Caldas da Rainha, ou Fábrica Rafael Bordalo Pinheiro, como vulgarmente é
conhecida. Lisboa, em 20 de Janeiro de 2009. A Direcção da Comissão Nacional Portuguesa do
ICOM |
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