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[Museum] A crise da Fábrica das Faianças das Caldas da Rainha

To :   "MUSEUM" <Museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A crise da Fábrica das Faianças das Caldas da Rainha
From :   "ICOM Portugal" <info@icom-portugal.org>
Date :   Sun, 25 Jan 2009 17:32:09 -0000

Comunicado da Direcção do ICOM Portugal

A crise da Fábrica das Faianças das Caldas da Rainha.

Um riquíssimo património cultural em risco.

 

O actual contexto de crise económica que tem atingido o tecido empresarial, particularmente o sector cerâmico, levando ao encerramento de inúmeras unidades fabris por todo o pais, com especial incidência na região Oeste (Alcobaça e Caldas da Rainha), tem repercussões não só a nível económico e social, mas também no plano cultural, colocando em risco importantes valores patrimoniais.

É o caso da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, fundada em 1884, projecto industrial inovador destinado a impulsionar o fabrico da cerâmica portuguesa e que ficou, de uma forma inequívoca, associada à notável obra cerâmica artística criada por Rafael Bordalo Pinheiro, mestre que, no seguimento de tradição já existente da zona, nos legou uma obra ímpar, constituída por centenas de peças decorativas, com temas naturalistas e humorísticos, que alcançaram rápida difusão pela sua popularidade e gosto fim de século, recebendo prémios em Espanha, na Bélgica, em França, Estados Unidos e no Brasil.

Não cabe nesta ocasião resumir tão importante obra, que aliás é conhecida amplamente, até pela importância fundamental que teve na vida cultural portuguesa, de que se constituiu como verdadeiro e incontornável símbolo identitário, através de figuras como o Zé Povinho. Importa, sim, referir a indissolúvel ligação de Rafael Bordalo Pinheiro à fábrica caldense que ele próprio criou e que, em 1905, depois da sua morte e de uma primeira falência passageira, foi retomada e continuada pelo filho, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, que em 1908 mandou construir outra fábrica em terreno contíguo, resgatou os moldes do pai e deu continuidade à característica produção. Infelizmente, nos anos anos 50/60 do século passado, a belíssima antiga fábrica de Rafael e todas as decorações cerâmicas dos jardins foram destruídos. Retomou-se no entanto a actividade, porque se mantiveram moldes e colecções de peças, assim se chegando à actualidade.

Agora, tal como há um século, a obra de Rafael Bordalo Pinheiro e a sua memória está novamente em risco. Existe uma grave ameaça sobre o último reduto da actividade cerâmica de Bordalo: a fábrica na qual Manuel Gustavo prosseguiu a obra do pai, a Casa Museu, as peças históricas e os moldes das peças de Rafael.

Desta vez os riscos são maiores e a conjuntura económica mais complexa. Falta de encomendas, grande concorrência, dificuldades financeiras, dívidas que se avolumam e a falência aproxima-se, com todo seu cortejo de prejuízos sociais.

È neste contexto que a Comissão Nacional Portuguesa do ICOM, reconhecendo que se trata de uma problemática em que cabe em primeiro lugar aos gestores da Fábrica e às instituições públicas, centrais e locais, encontrarem as melhores soluções para a salvaguarda dos interesses legítimos dos trabalhadores e das comunidades abrangidas, não pode deixar de manifestar a sua profunda preocupação pelo património cultural envolvido, tanto ao nível de edifícios e equipamentos, como ao nível de moldes e objectos produzidos, grande parte deles de insubstituível valia histórica.

Neste sentido, apelamos para que não se deixe dispersar acervo tão valioso e expressamos todo o apoio a quaisquer soluções que, por via da intervenção do Poder Local ou dos organismos centrais dos Ministério da Cultura, permitam a manutenção das valências museológicas da Fábrica, já hoje existentes, assim como o seu desejável reforço, dando origem a um verdadeiro museu que recolha a história, os processos de fabrico e a produção da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, ou Fábrica Rafael Bordalo Pinheiro, como vulgarmente é conhecida.

Lisboa, em 20 de Janeiro de 2009.

A Direcção da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM


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