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[Museum] O museu dos Coches e o novo riquismo

To :   museum <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] O museu dos Coches e o novo riquismo
From :   marioruisr@sapo.pt
Date :   Mon, 30 Mar 2009 18:40:53 +0100





Jornal de Negócios
Publicado 30 Março 2009  12:00

Opinião


Helena  Garrido
O museu dos Coches e o novo riquismo

Helenagarrido@negocios.pt

A proposta de construção de um novo museu dos Coches é mais um exemplo de um novo riquismo assente em betão que nos persegue. Desta vez há pelo menos algumas vozes sensatas a apelar que se gaste o dinheiro em organização e não em betão.

A proposta de construção de um novo museu dos Coches é mais um exemplo de um novo riquíssimo assente em betão que nos persegue. Desta vez há pelo menos algumas vozes sensatas a apelar que se gaste o dinheiro em organização e não em betão.

Há dinheiro? Vamos construir mais um edifício. Parece ser o único raciocínio que as lideranças políticas portuguesas conhecem. E que é mais uma vez esgrimido por quem defende a construção de um novo museu dos Coches. Uma orientação geral que aplicam em tudo, sem que se tenha aprendido com os erros do passado. Hoje temos hospitais a mais e saúde a menos, estradas a mais e manutenção a menos, casas a mais e pessoas a menos...

Na anterior campanha para as legislativas, uma das modas foi "os choques". Um deles foi o "choque de gestão" para apontar para a necessidade de organização. Todos ganhávamos com a reanimação pública desse "choque". A desorganização, a falta de integração e a ausência de manutenção do que já temos é, actualmente, uma das falhas mais gritantes. Temos tudo, não mantemos nada.

Pequenos exemplos do quotidiano. Os relógios de Lisboa estão na maioria dos casos parados. A Carris comprou aqueles extraordinários equipamentos que nas grandes cidades desenvolvidas da Europa servem para dizer quanto tempo falta para chegar o autocarro. Em Portugal só servem para dizer o que já diziam: qual o autocarro que ali pára.

Os museus não têm dinheiro para se manterem, renovarem e modernizarem. Mas queremos construir um novo Museu que vai retirar ao actual uma parte do seu valor intangível: estar situado no antigo Picadeiro Real. Porque, pasme-se, há dinheiro, há um projecto e não se constrói um novo museu desde 1975.

No jornal Público de ontem encontramos pelo menos alguma sensatez pelas vozes do director do Museu Nacional de Arqueologia Luís Raposo e da historiadora de Arte Raquel Henriques da Silva. Porque não, dizem, usar esses recursos para concretizar a integração dos museus, com a criação de circuitos integrados? E a isso é possível acrescentar muito mais, como recuperar os museus existentes, dar-lhes modernidade com as novas tecnologias.

Na entrevista que o Negócios publicou sexta-feira com o ministro da Cultura é impressionante que se fale tanto em dinheiro sem que se diga exactamente o que se faria com ele. Quando tomou posse, José António Pinto Ribeiro disse que era possível fazer mais com o mesmo dinheiro. Hoje, infelizmente, já não pensa assim. Mais, nada fez que concretizar esse seu objectivo. E na verdade tinha toda a razão. Pequenos pormenores podem aumentar - em linguagem económica - o consumo de bens culturais e reforçar a vantagem de Portugal no percurso do turismo cultural, actualmente em franco crescimento.

Sem qualquer estudo, é desde logo possível antecipar muito mais ganhos com a criação de um circuito integrado de visitas a museus, do que com a construção de um novo Museu. Sem qualquer estudo, é desde logo possível antecipar maiores ganhos com horários para os museus mais ajustados à vida das pessoas, portugueses e turistas. Sem qualquer estudo é ainda possível antecipar mais ganhos para todo um conjunto de actividades culturais caso se pensasse no conforto das pessoas e na defesa e manutenção do que é antigo e tradicional - um activo que poucos povos têm.

Precisamos de dinheiro sim, mas não em geral para construir coisas novas. Precisamos de dinheiro para manter e organizar o que temos. O novo riquismo não nos traz desenvolvimento, apenas se traduz em mais endividamento.



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