[Museum] O museu dos Coches e o novo riquismo
Jornal de Negócios
Publicado 30 Março 2009 12:00
Opinião
Helena Garrido
O museu dos Coches e o novo riquismo
Helenagarrido@negocios.pt
A proposta de construção de um novo museu dos Coches é mais um exemplo
de um novo riquismo assente em betão que nos persegue. Desta vez há
pelo menos algumas vozes sensatas a apelar que se gaste o dinheiro em
organização e não em betão.
A proposta de construção de um novo museu dos Coches é mais um exemplo
de um novo riquíssimo assente em betão que nos persegue. Desta vez há
pelo menos algumas vozes sensatas a apelar que se gaste o dinheiro em
organização e não em betão.
Há dinheiro? Vamos construir mais um edifício. Parece ser o único
raciocínio que as lideranças políticas portuguesas conhecem. E que é
mais uma vez esgrimido por quem defende a construção de um novo museu
dos Coches. Uma orientação geral que aplicam em tudo, sem que se tenha
aprendido com os erros do passado. Hoje temos hospitais a mais e saúde
a menos, estradas a mais e manutenção a menos, casas a mais e pessoas
a menos...
Na anterior campanha para as legislativas, uma das modas foi "os
choques". Um deles foi o "choque de gestão" para apontar para a
necessidade de organização. Todos ganhávamos com a reanimação pública
desse "choque". A desorganização, a falta de integração e a ausência
de manutenção do que já temos é, actualmente, uma das falhas mais
gritantes. Temos tudo, não mantemos nada.
Pequenos exemplos do quotidiano. Os relógios de Lisboa estão na
maioria dos casos parados. A Carris comprou aqueles extraordinários
equipamentos que nas grandes cidades desenvolvidas da Europa servem
para dizer quanto tempo falta para chegar o autocarro. Em Portugal só
servem para dizer o que já diziam: qual o autocarro que ali pára.
Os museus não têm dinheiro para se manterem, renovarem e modernizarem.
Mas queremos construir um novo Museu que vai retirar ao actual uma
parte do seu valor intangível: estar situado no antigo Picadeiro Real.
Porque, pasme-se, há dinheiro, há um projecto e não se constrói um
novo museu desde 1975.
No jornal Público de ontem encontramos pelo menos alguma sensatez
pelas vozes do director do Museu Nacional de Arqueologia Luís Raposo e
da historiadora de Arte Raquel Henriques da Silva. Porque não, dizem,
usar esses recursos para concretizar a integração dos museus, com a
criação de circuitos integrados? E a isso é possível acrescentar muito
mais, como recuperar os museus existentes, dar-lhes modernidade com as
novas tecnologias.
Na entrevista que o Negócios publicou sexta-feira com o ministro da
Cultura é impressionante que se fale tanto em dinheiro sem que se diga
exactamente o que se faria com ele. Quando tomou posse, José António
Pinto Ribeiro disse que era possível fazer mais com o mesmo dinheiro.
Hoje, infelizmente, já não pensa assim. Mais, nada fez que concretizar
esse seu objectivo. E na verdade tinha toda a razão. Pequenos
pormenores podem aumentar - em linguagem económica - o consumo de bens
culturais e reforçar a vantagem de Portugal no percurso do turismo
cultural, actualmente em franco crescimento.
Sem qualquer estudo, é desde logo possível antecipar muito mais ganhos
com a criação de um circuito integrado de visitas a museus, do que com
a construção de um novo Museu. Sem qualquer estudo, é desde logo
possível antecipar maiores ganhos com horários para os museus mais
ajustados à vida das pessoas, portugueses e turistas. Sem qualquer
estudo é ainda possível antecipar mais ganhos para todo um conjunto de
actividades culturais caso se pensasse no conforto das pessoas e na
defesa e manutenção do que é antigo e tradicional - um activo que
poucos povos têm.
Precisamos de dinheiro sim, mas não em geral para construir coisas
novas. Precisamos de dinheiro para manter e organizar o que temos. O
novo riquismo não nos traz desenvolvimento, apenas se traduz em mais
endividamento.