|
Na
sequência do texto abaixo e como contribuição acrescento algo que aconteceu
numa sessão em que participei como formador.
Em extremo de causa e
exactamente para explicitar o quão "romântica" tende a ser a visão pública
destes problemas coloquei como exemplo a Vénus de Milo, já que todos a conheciam
e, a seguir, coloquei a hipótese de alguém realizar escavações que
levassem ao achamento dos braços de escultura (por
hipótese), de tal modo que não se pudessem colocar dúvidas
sobre a relação entre eles e o que conhecemos.
A
noção que surgiu aos olhos de todos foi a da absoluta completude do que hoje
está no Louvre e que os braços, mesmo sendo dela, deveriam, quando muito, ficar
ao lado sobre um plinto. Sendo um exemplo de formato bastante clássico e extremo
não vale a pena relatar aqui o resto da conversa pois todos estarão a imaginar
os campos que se formaram e os argumentos utilizados mas, regressando à questão
do "património" isto só demonstra que, embora arrepie, o vaso colorido abaixo
mostrado se, por um lado, fecha imagens já consolidadas entre nós, abre
outros mundos de relação que antes nem eram sonhados.
Se uma
peça é vista como testemunho materializado de pensamentos e contextos culturais,
então a "devolução ao seu estado inicial" (coloquei aspas porque tudo isto é
muito fluido) permitiria reflexões e ligações que doutro modo não existirão. Se
se mantém e conserva o testemunho, ter-se-á defronte dos olhos uma "barra do
tempo" aposta sobre uma peça...
Enfim,
tenho a absoluta certeza que este é um dos campos de pensamento que interessa
manter vivo, mesmo sabendo que a ciência certa, neste caso será sempre bastante
incerta e agradeço a este fórum o poder dialogar sobre o
tema.
Francisco Maduro-Dias
De: museum-bounces@ci.uc.pt [mailto:museum-bounces@ci.uc.pt] Em nome de MNArqueologia/Director - Luis Raposo Enviada: quinta-feira, 19 de Novembro de 2009 11:06 Para: 'ARCHPORT'; MUSEUM Assunto: Re: [Museum] FW: [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério? A questão da
?autenticidade? do património, e especialmente do património arqueológico, é de
facto complexa. Trata-se de um tema que me
tem interessado particularmente, tanto por questões teóricas, como por questões
práticas. Às vezes bem práticas e bem angustiantes, como bem sabe quem convive
com problemas de restauro no dia-a-dia de um museu. Pessoalmente encontro-me
repetidas vezes em desacordo com colegas conservadores porque tenho da percepção
da peça arqueológica o olhar epistemológico do arqueólogo. Não é nem melhor, nem
pior do que o dos outros; é simplesmente o meu e o da disciplina em que me
situo; mas tem de ser negociado com o dos outros, porque viver em sociedade é
viver em sistema de negociação permanente. Na troca de comentários
anteriores, sob a epígrafe que continua a encimar mais este, optei
intencionalmente por não comentar a questão concreta colocada (de forma algo
infeliz como ele próprio depois reconheceu) pelo meu amigo Mas, descontados os
excessos, percebo a perplexidade dele; assim como percebo os argumentos sensatos
que mais tarde invocou (podem / devem reorganizar-se museus, valorizar-se
monumentos, etc. sem o incitamento à participação activa das comunidades locais
e sem ter em conta as suas expectativas, por cândidas que sejam
?). Não me posso pronunciar
sobre as opções concretas tomadas na Idanha, porque desconheço o percurso
seguido e os objectivos visados. De resto, sendo um dos intervenientes o José
d?Encarnação, isso constitui à partida garantia de reflexão séria e
ponderada. A minha posição, por
defeito talvez, tem sido sempre, e continua a ser a de desconfiar de posturas
que tenham por base a tentativa de fazer regressar as peças aos seus estados
originais. Uma peça arqueológica, ou
um sítio arqueológico, são, como dizia Lewis Binford, uma realidade do presente.
Tal como uma pessoa é aquilo que é em cada fase da sua vida. E o princípio mais
geral deverá ser, quanto a mim, o de preservar as coisas tal como elas chegaram
até nós. Mas não entendo este
princípio de forma absoluta. Os vestígios arqueológicos podem e devem servir
muitas apropriações contemporâneas, algumas das quais, as mais patrimonialistas,
poderão conduzir a reconstituições pesadas, guiadas pela procura do Graal, quer
dizer, pelo regresso ao ?estado original?. Trata-se de uma demanda
algo ingénua; mas não o é menos do que a pretender que a ruína ou o resto
arqueológico são ?autênticos?. Enfim, a problemática em
referência é extremamente complexa e pode haver, diria mesmo que há, lugar para
todas as abordagens. Desde que reflectidas, conscientemente assumidas e
socialmente suportadas. Dá-se o caso de estar
actualmente a finalizar uma comunicação sobre a
matéria. Da ampla documentação
disponível retiro abaixo apenas uma imagem que nos mostra o actual e o original
(cientificamente inferido, com todo o rigor) de uma mesma peça grega. Estaremos
nós dispostos nos nossos museus a fazer regressar os nossos objectos às suas
respectivas purezas originais ? Incluo também as conclusões
gerais da minha comunicação em referência no desejo de que possam melhor
explicitar o meu pensamento sobre estas tão complexas
matérias. A
autenticidade em arqueologia: um
terreno de compromissos
Conclusões: A percepção social de
qualquer ruína, maxime de
qualquer vestígio arqueológico, constitui sempre um compromisso entre
?autenticidade? (original) e ?restauro? (moderno), sendo que ambos contêm um
componente de recriação contemporânea. Existem tendencialmente
duas vias de aproximação à ruína: -a da mínima intervenção
(no limite, o ruinismo de John Ruskin) -a da máxima intervenção
(no limite, a reconstrução total e ideal de
Viollet-le-Duc) O favorecimento de uma ou
outra opção resulta do ambiente social em cada
época. A conservação /
patrimonialização não constitui a única via de utilização social dos bens
arqueológicos. Entendidos como fontes de conhecimento, estão sujeitos à
metodologia arqueológica, que muitas vezes é
destrutiva. Em termos patrimonialistas,
mantêm-se por enquanto válidos os principais gerais e as diferentes modalidades
de intervenção recomendadas pelas sucessivas cartas sobre
restauro. O recurso às diferentes
modalidades de intervenção recomendadas depende muito de cada situação concreta
tanto no plano técnico como sobretudo no plano político em sentido lato (o uso
que a polis entende fazer da
ruína). O princípios da ?mínima
intervenção? é um dos mais sedimentados na teoria patrimonialistas da 2ª metade
do século XX. Mas assiste-se hoje a um retorno a concepções de intervenção muito
pesadas, já não por opção política de afirmação do Estado napoleónico central
(como no tempo de Viollet-le-Duc), mas por rendição às ?forças do mercado?,
especialmente ao turismo de massas e à sociedade do espectáculo (a chamada
?cultura dos eventos?). De:
museum-bounces@ci.uc.pt [mailto:museum-bounces@ci.uc.pt] Este é apenas um
comentário, sem toda a profundidade analítica que o tema mereceria, mas,
mesmo assim, aqui vai: Gostaria de salientar
aqui o modo como uma "eterna", digamos assim, questiúncula entre museólogos e
conservadores/restauradores foi resolvida e
ultrapassada. De facto, tende-se
a esquecer, por vezes, que o papel fundamental de um museu passa pela
sua relação com diversos e variados públicos e
interesses. Sem peças o museu não
poderá existir, mas sem comunicação também não é museu. É armazém de
possível e provável património cultural envolvido em teias de
aranha. Ora, se é facto
que, alterando peças, pode-se estar a alterar os suportes de memória e de
investigação, uma intervenção cuidada como esta é fundamental, em benefício
dessa mesma memória e investigação. Aliás, noutro contexto
e por outro lado, a ideia da "magnífica brancura clássica" é um conceito
romântico do XIX mas não era assim na antiguidade mediterrânica
clássica... Mas essa magnífica
brancura acabou também por se tornar um conceito que igualmente merecerá suporte
de memória... Enfim, gostei de ler e
saber que ainda há museólogos neste País. Obrigado Francisco R.
Maduro-Dias De:
museum-bounces@ci.uc.pt [mailto:museum-bounces@ci.uc.pt]
A propósito desta questão, refiro o
exemplo do Sabia-se
que muitas inscrições romanas eram pintadas, para uma boa visualização do seu
texto, e conheciam-se os valores de autenticidade postulados pelos critérios de
conservação patrimonial internacionalmente reconhecidos, com que esta prática
poderia colidir. No entanto, algumas das peças torrienses eram de tal modo
ilegíveis, que inviabilizavam o desempenho do seu papel museológico fundamental,
na comunicação com os visitantes. A eventual
pintura de inscrições deve ser analisada casuisticamente, devendo apenas ser
assumida quando as peças não são legíveis de outra forma e quando se encontram
em determinados contextos museológicos ou pedagógicos, como é o caso de Idanha a
Velha. Mas mesmo nestes casos, é necessário garantir, de acordo com a análise
individualizada das peças, que toda a intervenção é passível de total
reversibilidade. O que implica, para além de técnicas de intervenção
apropriadas (utilizando produtos isoladores) que as epígrafes possuam
adequadas condições intrínsecas (não pintámos peças em arenito) e se
encontrem em ambientes perfeitamente
controlados. Em
Torres Vedras contámos com o apoio técnico do Museu de Conímbriga, ponderando
sempre as vantagens e desvantagens do procedimento. Apesar de uma ou duas vozes
discordantes, o processo foi praticamente pacífico. Isabel
Luna To
: "archport" <archport@ci.uc.pt>
Subject
: Re: [Archport]
Inscrições romanas pintadas. Será sério? From
: Date
: Mon, 9 Nov 2009
15:14:05 -0000
|
| Mensagem anterior por data: Re: [Museum] FW: [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério? | Próxima mensagem por data: Re: [Museum] FW: [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério? |
| Mensagem anterior por assunto: Re: [Museum] FW: [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério? | Próxima mensagem por assunto: Re: [Museum] FW: [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério? |