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Dada a
oportunidade do momento, a direcção da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM,
depois de consulta ampla aos restantes membros dos corpos gerentes, entendeu
emitir uma Declaração programática sobre ?Os museus portugueses no início da
segunda década do século XXI. Desafios para a XI
Legislatura?.
Esta Declaração foi já
entregue aos responsáveis políticos do País e damos dela conhecimento por esta
via a todos os que se interessam por museus, na esperança que possa contribuir
para a reflexão comum sobre os desígnios a prosseguir por uma política nacional
de museus, que deve assentar na mais ampla e participada discussão de
matérias que, por definição, integram o núcleo essencial da
cidadania.
A Direcção
do ICOM Portugal.
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Os
museus portugueses no início da segunda década do século
XXI Desafios para a XI
Legislatura Os museus
portugueses conheceram um notável desenvolvimento, quantitativo e qualitativo,
nas duas últimas décadas. Este facto é amplamente demonstrado pelos inquéritos
nacionais realizados em 1999 (?Inquérito aos Museus em Portugal?) e em 2003 (?O
Panorama Museológico em Portugal?), que revelam como no período em análise se
duplicou o número de instituições que cumpriam os ?requisitos mínimos? para se
considerarem verdadeiros museus e quase se triplicou o número dos que obedeciam
a um conjunto de critérios mais exigentes e verdadeiramente
europeus. O sucesso estrutural em
referência constitui uma dinâmica de longa duração e é devido, antes de tudo, ao
impulso da sociedade portuguesa no sentido da criação e qualificação dos seus
museus. Este impulso foi acompanhado pela formação universitária e a
investigação em museologia, actualmente estendidas a todo o País e com níveis de
qualidade tais que deram origem uma alteração profunda na qualificação,
especialização e diversificação do universo de recrutamento de meios humanos
para os museus. O Estado
central e local não esteve também alheio desta evolução societária e, pelo
contrário, adoptou medidas legais e organizativas, que muito a potenciaram.
Entre elas, cumpre referir: - A
criação do Instituto Português dos Museus (IPM), em 1991, no que constituiu uma
autonomização técnica com evidentes ganhos em matéria de reflexão estratégica
sobre os museus portugueses; - A
criação da estrutura de missão ?Rede Portuguesa de Museus?, em 2000, e todos os
seus subsequentes desenvolvimentos, no que se deu corpo a uma plataforma de
contacto com indiscutíveis mais-valias para o conjunto dos museus portugueses,
públicos e privados; - A
criação, em 2000, da Secção de Municípios com Museus da Associação Nacional dos
Municípios Portugueses, como consequência do dinamismo dos museus municipais,
bem espelhado nos Encontros de Museologia e
Autarquias; - A
adopção pela Assembleia da República, por unanimidade, em 2004, da Lei-Quadro
dos Museus Portugueses (Lei nº 47/2004, de 19 de Agosto), diploma legal de visão
política estratégica e reconhecida qualidade técnica, que passou a constituir um
paradigma social de exigência para os museus
portugueses. Dir-se-ia, pelos indicadores e realizações citados, que tudo vai bem no
mundo dos museus. Nada de mais erróneo, contudo. Sem
prejuízo de termos também presentes os percalços e insuficiências ocorridas
anteriormente, muitos dos quais aliás estruturais, pode bem dizer-se que a
última legislatura (2005 ? 2009) representou uma autêntica oportunidade perdida
para os museus portugueses. Ou até um recuo, tanto em matéria de reflexão e
adopção de medidas estratégicas, como em matéria de governação
corrente. As provas
deste recuo são por demais evidentes: - Não se
concretizaram alguns dos principais mecanismos de política museológica
estabelecidos na Lei-Quadro dos Museus Portugueses, entre os quais o da criação
- Como
consequência do ponto anterior, não se implantou o sistema de credenciação de
museus previsto na Lei-Quadro, com os resultantes prejuízos de falta de
incentivo geral à procura de novos padrões de qualidade e de falta de critério
ou de transparência na acção dos diferentes sectores do Estado, especialmente
daqueles que não possuindo competências e capacidades para avaliar projectos
museológicos, dispõem não obstante de verbas avultadas para os
promover; -
Identicamente, não se cuidou de reforçar a Rede Portuguesa de Museus, que pelo
contrário tem vindo a conhecer dificuldades operacionais crescentes e acentuada
diminuição de investimento nos seus programas de qualificação dos museus, os
quais foram em certos casos pura e simplesmente suspensos ou
anulados; - No
plano específico do aparelho do Estado central, e mais concretamente do
Ministério da Cultura, procedeu-se a uma reorganização de serviços, ditada pelo
chamado PRACE, que tendo embora na área dos museus sido globalmente positiva,
deixou ainda assim amplas margens de indefinição e suscitou efeitos perniciosos,
como sejam os do bloqueamento da renovação de quadros e a menor capacidade
operacional da área da conservação e restauro; - No
plano local, deixou na prática de funcionar a Secção de Municípios com Museus da
Associação Nacional dos Municípios Portugueses, deixaram de convocar-se com a
regularidade requerida os Encontros de Museologia e Autarquias e não se deram
quaisquer passos no sentido do melhor enquadramento orgânico dos museus
autárquicos; - Não se
contiveram, e antes se agravaram exponencialmente, os graves problemas de
suborçamentação e da carência de recursos humanos dos museus públicos em geral,
com especial relevo para os do Ministério da Cultura;
- As
universidades atravessaram dificuldades crescentes de financiamento e de
mobilização de meios técnicos e humanos, não tendo igualmente sido feitas
tentativas consistentes de articulação, das universidades entre si e de todas
com os potenciais empregadores, para racionalizar e rentabilizar ao máximo os
recursos formativos e de investigação instalados; -
Finalmente, promoveram-se iniciativas erráticas, servidas por verbas vultuosas,
para dar corpo a novos museus ou projectos museológicos, públicos ou privados,
mas suportados estes em grande medida por dinheiros públicos, sem cuidar de
garantir a existência digna dos mais importantes e perenes arquivos de memória
do País.
Vivem-se, pois, tempos muito difíceis no mundo dos museus, como se viu
confirmado pela última reconfiguração do Estado central, na qual os museus
nacionais deixaram de integrar as chamadas ?funções de soberania? e passaram a
estar disponíveis para que qualquer futuro Governo entenda privatizar a sua
gestão ou até os seus acervos, ou seja, a memória da
Nação. Importa
ultrapassar a situação actual e retomar o normal fio condutor do desenvolvimento
dos museus portugueses, ancorado em reflexão estratégica que resulte de ampla
participação democrática e dê lugar à adopção de medidas governativas que
desenvolvam o modelo adoptado unanimemente pelo Poder Legislativo, ao mais alto
nível, através do diploma de direito reforçado que constitui a Lei-Quadro dos
Museus Portugueses.
A Comissão Nacional Portuguesa do ICOM, na pluralidade das centenas de
profissionais de museus e museus que integra, guardiã de um Código Deontológico
universal dos museus e dos profissionais de museus, de que recentemente editou
em conjunto Nestes
termos e para estes efeitos, apresentamos desde já o seguinte programa concreto
de actuação governativa, composto por medidas que dividimos em dois grupos, a
saber:
(a) Medidas a tomar a curto prazo (2010) 1.
Implantar urgentemente a Secção de Museus e Conservação do Conselho Nacional de
Cultura, que se encontra em condições de imediata operacionalidade e apenas
depende da vontade do poder político em cumprir plenamente a
lei. 2.
Colocar à consideração da referida Secção as seguintes matérias, conferindo-lhes
prioridade absoluta: 2.1.
Apreciação dos projectos reorganização do parque museológico da zona de Belém,
em Lisboa, e especialmente da criação de um novo Museu Nacional dos
Coches. 2.2.
Decisão sobre as numerosas candidaturas de novas adesões de museus à Rede
Portuguesa de Museus, que apenas aguardam esse parecer
final. 2.3.
Instituição efectiva do sistema de credenciação dos museus previsto nos art.º
115º e seguintes da Lei-Quadro. 3.
Relançar a Rede Portuguesa de Museus, nomeadamente através
de: 3.1.
Reforço dos programas existentes de apoio aos museus e abertura de novas linhas,
como por exemplo na área da criação de uma rede nacional de depósitos de
colecções de arqueologia, anexos a museus, conforme o disposto no art.º 14º da
Lei-Quadro. 3.2.
Reforço das capacidades operacionais dos museus nacionais e criação de núcleos
de apoio a museus, conforme o disposto no art.º 106º e seguintes da
Lei-Quadro. 3.3.
Criação de redes de museus de base geográfica ou
temática. 4.
Reforçar o orçamento de despesas correntes dos museus do Ministério da
Cultura. 5.
Garantir a capacidade operacional dos serviços de conservação e restauro
integrados no IMC.IP, recuperando-os da situação de desinvestimento e quase
paralisia em que caíram na última legislatura. 6.
Recusar a execução de projectos casuísticos, fortemente polémicos e sem adequado
suporte social, em tudo o que tenha a ver com a criação ou extinção de museus,
sobretudo de museus nacionais, que devem obrigatoriamente ser precedidos de
parecer da Secção de Museus e Conservação do Conselho Nacional de Cultura (art.º
94º da Lei-Quadro); o caso da reorganização do parque museológico da zona de
Belém, em Lisboa, constitui um exemplo paradigmático desta situação e da
necessidade de explorar as vias que permitam alcançar os mais alargados
consensos, que uma política de museus forçosamente
requer.
(b) Medidas a tomar no decurso da legislatura
(2010-2013) 1.
Discussão e aprovação pela Secção de Museus e Conservação do Conselho Nacional
de Cultura de uma política museológica nacional que contemple aspectos tais
como: 1.1.
Definição da rede de museus nacionais, identificando eventuais faltas; até lá, o
Governo deve em absoluto abster-se de promover a criação de novos museus
nacionais. 1.2.
Reordenamento museológico (de tutelas de museus e de colecções), com especial
prioridade à reconfiguração da rede de museus do Ministério da Cultura, seja por
transferência da tutela de alguns para as autarquias, seja pela incorporação de
museus actualmente subordinados a outras tutelas, desde que os mesmos revistam
claramente âmbito nacional e correspondam a equilibrada representação geográfica
e temática. 1.3.
Estabelecimento de prioridades e perfis funcionais em matéria de formação
profissional para os museus. 2.
Promoção das medidas legislativas que permitam o planeamento plurianual nos
museus públicos (em ciclos mínimos de 3 anos). 3.
Instituição de um sistema de credenciação das empresas e profissionais liberais
actuantes na área da conservação e restauro de bens museológicos, com a audição
das organizações representativas dos profissionais dessa área e a obtenção de
parecer da Secção de Museus e Conservação do Conselho Nacional de
Cultura. 4.
Promoção de um programa sistemático de publicitação das actividades dos museus
nos media. 5.
Estabelecimento de contratos-programa com os museus públicos que para tal se
candidatem, garantindo-lhes apoios plurianuais expressivos (como hoje é feito em
casos especiais, como o Museu de Serralves ou o Museu-Colecção Berardo, numa
prática que constitui o fomento, por parte do próprio Estado, de condições de
concorrência desleal entre museus semi-públicos e museus públicos, com manifesto
prejuízo destes). 6.
Dotação dos museus do Ministério da Cultura do número mínimo de efectivos de
pessoal que permitam pelo menos a garantia da salvaguarda dos respectivos
acervos, tendo por objectivo a concretizar na legislatura a reposição dos
efectivos técnicos existentes no início da década. 7.
Negociação com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses dos normativos
legais que permitam uma mais rigorosa, exigente e harmónica definição do
enquadramento institucional e das margens de autonomia dos museus municipais,
assim como dos perfis dos seus respectivos quadros de
pessoal. 8.
Negociação interdepartamental (Cultura, Educação, Ensino Superior, Trabalho) de
um programa de estágios académicos e profissionais nos museus, com definição de
números de lugares (de nível superior e de nível secundário) susceptíveis de
serem subsequentemente preenchidos. 9.
Negociação com os organismos responsáveis pela investigação científica, e
nomeadamente a FCT, de uma linha de apoio a projectos de investigação em
museologia, entendida esta como área interdisciplinar e integradora de vários
saberes e disciplinas, dando preferência às propostas que intersectem a
realidade concreta dos museus portugueses. A
Direcção da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM, em 30 de
Novembro de 2009.
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