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Material e Imaterial – A nomenclatura em regime de cálculo diferencial Sim. Seria estultícia pretender “rematar a
matéria”. Estou plenamente de acordo com Manuel de Castro Nunes. As variáveis em que decompus o Património
ajudam o trabalho prático. Resultaram da indução mais do que da dedução. Para
quem tem experiência no trabalho museal são muito mais do que meras reflexões.
Ajudam a gerir o Património com mais eficiência. E permitem organizar melhor a
cadeia de tarefas que compõem o ‘processo museológico ou de
patrimonização’ - desde a ‘Preservação’, passando
pela ‘Documentação’ até á ‘Comunicação’.
Mas também ajudam a orientar melhor a política museal ou patrimonial. Também estou de acordo quanto ao erro de desvalorizar
a parte dita “material”. A ‘materialidade’, a
‘gestualidade’, a ‘oralidade’ e a ‘iconicidade’
são as substâncias de que o Património é feito. Deveriam possuir um estatuto de
igualdade, na importância que merecem por quem tem a responsabilidade de gerir
o Património. Portanto será errado opor umas às outras, ou desvalorizar umas em
relação às outras. Mas basta fazer as contas aos recursos que são postos em
cada uma destas partes para verificarmos a que merece mais preponderância, e a
que é mais desprezada. Mas sobre a ‘materialidade’ a
questão também não é simples. Quase todos duvidam de que a ‘materialidade
da Gioconda’, daquela que nos é apresentada hoje no Louvre, seja a mesma
que a original. O mesmo aconteceu com os ‘objectos’ intervencionados
pelo POC 2000-2006 pelo ex-Instituto de Conservação e Restauro. Os
‘objectos’ foram desmanchados, a sua materialidade foi substituída
parcial ou totalmente, e depois foram reconstruídos, repintados, relacados e
recozidos. E, apesar dessa ‘materialidade substituta’ ser o que
temos da sua parte material, eles continuam a ter um valor patrimonial
que consideramos suficiente relativamente ao ‘original’. A
‘materialidade’ não é a mesma. Houve a perda “diferencial”
que Manuel de Castro Nunes refere. Mas isso não catastrofiza (no sentido de R.
Thom) o valor documental e patrimonial. A questão sobre a “duração e o registo”
é para nós a mais interessante. Manuel de Castro Nunes afirmou com muita
pertinência: “Porque o gesto perdeu a sua materialidade quando se
extinguiu, o que pode ser um instante. E se pode ficar registado num suporte
material, um registo fotográfico, ou mesmo a memória, uma coisa foi o gesto,
outra o material suporte do seu registo.” (Manuel de Castro Nunes, Museum
Lista, 29/03/2010). Até à descoberta da Estrutura do Valor Patrimonial
(Pedro Manuel Cardoso, ULHT, 2010) essa extinção parecia ser uma
inevitabilidade. Mas a partir do momento em que a investigação prova que
existem valores patrimoniais codificados na mnése, feitos de uma
informação a priori codificada em mapas mentais (ou “representações”),
cujo suporte são as células de lugar no hipocampo, a questão muda de figura.
Porque o estatuto do ‘suporte’, do ‘documento-dado’,
da ‘informação’ passam a ser também metadados (tal como
acontece no ADN). E os ‘museus’ deixam de ser o objecto da
Museologia, assim como os hospitais não são o objecto da Medicina, ou as
empresas não são o objecto da Economia. Foi isso que me permitiu oferecer uma
história alternativa do Património e do percurso museal, com os mesmos dados
que os autores construíram a ‘história tradicional’ que ainda vem
nos manuais. Este resultado traz consequências. Por exemplo, esta
polémica á volta da re-instalação dos museus deixa de ter sentido para uma
Museologia cujo objecto seja a «Gestão da Memória e do Património». Este
contributo ajuda a separar o essencial do acessório. Façamos a seguinte
pergunta: - Nos Jerónimos, e no espaço designado por Belém, está
o quê? Dos valores patrimoniais em competição nesse mesmo território
qual o que especifica mais a identidade de Portugal no confronto com os outros
países? O que é que lá está que é Património, mas que os outros povos e países
também têm? E o que é diferente e caracteriza de forma exclusiva Portugal? O
que é que está lá que não é preciso trazer para lá? E o que é que não está lá,
e era necessário trazer de outro lado para se fazer um melhor museu?
Arqueologia, Descobrimentos, Coches-Transportes, CCB-Arte, Presidência do
Regime Republicano…Turismo-Economia-Marca Portugal. Ou seja, a decomposição nas variáveis que propusemos
permite discernir melhor a escolha. E permite perceber de que valores
patrimoniais estamos a falar quando falamos genericamente de Património. A luta de Luís Raposo é o belo de uma luta. E isso também
é um valor. Mas não tem nada a ver com um valor patrimonial no sentido
da «Gestão da Memória e da Identidade». É uma disputa pessoal que a classe
profissional dos arqueólogos corporiza. É a competição por um dos territórios
mais ‘sagrados’ para a identidade patrimonial de Portugal. As respostas àquelas perguntas que formulei seriam o
caminho alternativo para uma solução em que essa «Gestão da Memória e da
Identidade» não ficaria diminuída, e se sobreporia às questões pessoais,
corporativas, políticas ou de ‘honra’. Pedro Manuel Cardoso |
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