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Interpretar
o Património (parte 2) Na mensagem intitulada “Interpretar o
Património” tinha referido a questão que, agora, após o que foi aprovado
na Assembleia Nacional de França, ganha ainda maior pertinência. Tinha escrito nessa mensagem que: … quando o evolucionismo
cedeu ao relativismo cultural, na passagem do século XIX para o século
XX, a consideração pelas «culturas não-ocidentais» passou a exigir um
tratamento mais igual e mais consentâneo com a Declaração dos Direitos Humanos
aprovada pela ONU em 1948. E que uma das primeiras consequências, no que se
refere ao Património, foi permitir um maior acesso das «Comunidades a quem os
‘ocidentais’ tinham retirado o património para o pôr nos seus museus».
Mas essa permissão provocou um choque, não previsto, no modelo de comunicação e
na própria concepção ocidental de lidar com o Património. O modelo de «ver,
contemplar, estudar e conservar» característico do paradigma conservacionista
não se adequava às reivindicações dessas Culturas. Essas Culturas consideravam
que os ‘objectos do seu Património’ não eram uma instância que se
pudesse separar cartesianamente dos seus detentores. Que se pudesse usufruir
pela contemplação expositiva, apartando o ‘espírito’ da
‘matéria’ ou o ‘indivíduo’ da ‘coisa’. A notícia de hoje diz o seguinte: - “Quinze cabeças Maori, mumificadas e tatuadas,
que se encontram em museus franceses, vão ser devolvidas à Nova-Zelândia,
decidiu hoje o Parlamento francês num voto quase unânime. A proposta de lei nesse sentido, defendida pelo
partido centrista Novo Centro, aliado ao partido maioritário de direita do
presidente Nicolas Sarkozy, foi aprovada por todos os grupos políticos. Na Assembleia Nacional francesa, câmara baixa que
aprovou esta lei, 457 deputados votaram a favor e oito contra. O Senado já a
tinha aprovado em Junho de 2009. Existem cerca de 500 cabeças Maori nos museus de todo
o mundo e cerca de 300 foram restituídas até agora. A França possui 15 a 20,
sete das quais no Museu do Quai Branly de Paris, consagrado às artes primeiras
(designação actualizada para as anteriormente chamadas artes primitivas), cuja
criação foi decidida pelo antigo Presidente Jacques Chirac. "Trata-se de mais do que simples peças de museu.
São restos humanos, e algumas das pessoas foram executadas deliberadamente para
satisfazer um tráfico execrável", declarou a deputada Michèle Tabarot, do
partido presidencial UMP, aquando do debate parlamentar no final de Abril. Existem cerca de 500 cabeças Maori nos museus de todo
o mundo e cerca de 300 foram restituídas até agora.” Tinha
chamado a atenção para não se esquecer o legado de várias pessoas e
instituições que no trabalho prático do dia-a-dia, já tinham ultrapassado o
modo “telegráfico e semiológico” proposto por Leicester (S.
Pearce e Hooper-Greenhill) de conceber a comunicação em Museologia. Ao que, com
muita pertinência e justiça, António Nabais acrescentou um outro valioso
contributo. A
pergunta, a acrescentar, é agora outra. E,
sobre este assunto, o que se passa nos museus portugueses? Pedro
Manuel Cardoso (Museu
da Gestualidade) |
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