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Interpretar
o Património No mês de Abril e Maio sucedem-se as iniciativas de
‘interpretação do Património’. Ainda bem. São muito Bem-vindas
por todos nós que trabalhamos quotidianamente em ‘museus’. É usual
que isso aconteça neste período. Aproxima-se o Dia Internacional dos Museus. E
nada pode ser mais benéfico do que divulgar e comunicar os Valores
Patrimoniais. Há uns anos eram ditas com maior unanimidade de
“Educativas”. Hoje são mais ditas de “mediação”.
Talvez erradamente, mas pelo menos estão em sintonia com as ‘teorias de
comunicação da moda’. Falemos pois de ‘Comunicação’ e dos
«modelos utilizados para comunicar e divulgar o Património». Não sem antes recordar alguns marcos desse atribulado
e fascinante percurso. Recordar talvez o primeiro programa de formação
museográfica no Pennsylvania Museum em Filadélfia (EUA) em 1908.
Recordar as controversas animações de Franz Boas no Museu de História Natural
também nos Estados Unidos no início do século XX. Recordar, já mais perto, um
dos primeiros sinais anunciador da mudança no «paradigma conservacionista»
ocorrido no Seminário Regional da UNESCO sobre a Função Educativa dos Museus,
realizado em 1958 no Rio de Janeiro: “O museu pode trazer muitos
benefícios à educação. Esta importância não deixa de crescer. Trata-se de dar à
função educativa toda a importância que merece, sem diminuir o nível da
instituição, nem colocar em perigo o cumprimento das outras finalidades não
menos essenciais: conservação física, investigação científica, deleite.”.
Recordar a “Declaração de Québec” saída do “I.º
Atelier Internacional da Nova Museologia”, realizado no Canadá em Outubro
de 1984. “A museologia deve procurar, num mundo contemporâneo que
tenta integrar todos os meios de desenvolvimento, estender suas atribuições e
funções tradicionais de identificação, de conservação e de educação, a práticas
mais vastas que estes objectivos, para melhor inserir a sua acção naquelas
ligadas ao meio humano e físico”. Em
Portugal, neste domínio, também soubemos fazer práticas de Excelência.
Fomos dos melhores e fomos dos primeiros. Refiro-me ao tão esquecido quanto
pioneiro trabalho realizado pelo Centro Artístico Infantil da Fundação Calouste
Gulbenkian na década entre 1984 e 1994. Um esquecimento que talvez se compreenda, no mesmo
sentido que José Gil acha que compreendeu uma pequena parte do ser-português.
Por ter sido o elemento formador que influenciou tantos e tantos dos actuais
projectos. Talvez merecesse até, sem querer melindrar ninguém, uma homenagem e
um prémio de museologia. Foi uma década de ‘projectos educativos’
realizados por uma instituição prestigiada, utilizando como recurso a Cultura e
o Património dos seus dois museus. Razão pela qual é um testemunho relevante
que hoje se torna útil relembrar. “Quem já passou pelo CAI sabe da sua animação
permanente. Já aí vi crianças a descobrirem a própria cidade onde vivem, o
bairro onde moram, e a idealizarem o que gostariam que fosse a cidade do
futuro. Já aí vi crianças mascaradas com tudo o que a imaginação lhes dita (com
trajes levados para ali dos baús do Ballet Gulbenkian), metidas na pele de reis
e rainhas, príncipes, dragões, polícias, bombeiros, já que, como diz a canção,
«é preciso de tudo para fazer o mundo… Em cada Verão há uma ludoteca aberta
a todas as crianças. Contactam-se crianças das mais diversas classes sociais,
pequenos ciganos, por exemplo, estão ali de nariz colado ao vidro, logo de
manhã, à espera que o Centro abra para brincarem. E temos também exposições
temáticas, em que as crianças aprendem brincando - ou seja, sem terem consciência de que estão a
aprender…. A Educação
Artística poderá contribuir para corrigir ou minorar as perturbações de ordem
individual e social existentes no mundo moderno.” (Madalena de
Azeredo Perdigão, Percursos do CAI, FCG, 1994:5). Ou de um modo mais
sistemático, “… demonstrar como podem articular-se conceitos
básicos de Educação, Arte e Cultura com modelos pedagógicos dinamizadores e com
processos de intervenção sócio-cultural integrada.” (Natália Pais,
Percursos do CAI, FCG, 1994:6). O Património que, no paradigma conservacionista, era
guardado nas vitrinas e nas reservas dos museus foi acedido de um modo muito
diferente da mera contemplação. As exposições temáticas, as oficinas de
animação, os projectos e as actividades de formação sucederam-se guiadas por
«um novo modo de usar o Património». A exposição
“Escrever-Comunicar” realizada em 1984 justificava-se por causa do
objectivo de “…proporcionar às crianças e aos educadores formas
de contacto com uma das manifestações de maior significado cultural na História
e na Vida da Humanidade: a Escrita” (idem, 1994:9). Dando lugar a
realização da “Oficina de Animação do Livro” realizada por
Conceição Lopes, Cristina Patrício e Fátima Cardoso de Menezes. A exposição
“Os Bichos” realizada entre Março e Junho de 1985 justificava-se
por favorecer “… processos de confrontação entre o real e o
imaginário, utilizando formas de intervenção de carácter pedagógico-lúdico e
criativo.” (idem, 1994:10). A exposição “Coisas que as crianças
guardam” realizada em Junho de 1985 com o objectivo de “revelar
a pessoa e o seu mundo secreto pelos objectos guardados” (idem,
1994:12). A exposição “Cidade real, Cidade imaginária” realizada
entre Outubro de 1985 e Fevereiro de 1986 justificava-se por “motivar
para formas de participação activa e criativa na vida da Cidade que permitam - em relação ao passado, ao presente e ao futuro - conservar, dinamizar e recriar” (idem, 1994:15). A partir do património de
pintura existente no museu, de Março a Junho de 1986, foi realizada a exposição
“As Flores” que propunha o acesso dos visitantes através da
seguinte proposta: “Vamos senti-las, conhecê-las, pensá-las para
podermos amar, imaginar e criar; vãos também observar coisas relacionadas com
flores, descobri-las, interpretá-las e transformá-las” (idem,
1994:17). A exposição “Brincar através da Pintura” realizada de
Abril a Novembro de 1989 propunha aos visitantes serem capazes “… de
dar novos significados às coisas e ser capaz de compreender a diversidade das
mensagens” (idem, 1994:23). Ainda no âmbito da Arte, a exposição
“Abraço a Picasso” propôs aos visitantes “…um
envolvimento afectivo das crianças com o personagem Pablo Picasso, uma
participação activa na descoberta, que pode ir do gesto lúdico à improvisação e
á criação artística” (idem, 1994:30). Prosseguindo com as Oficinas de
Expressão Plástica organizadas por Gracelinda Teixeira e Dalila d’Alte. O
património, agora dito imaterial ou intangível, proporcionou entre Março e
Junho de 1987 a realização da exposição “As Festas”, que propunha
aos visitantes “conhecer, perceber e aprender a viver as Festas”
(idem, 1994:20). No que se refere ao património oral a exposição “Imagens
e Personagens do Conto e da Aventura”, realizada entre Março e Junho de
1990, pedia aos visitantes para participarem “…tanto na
identificação como na criação de personagens...” (idem, 1994:26). O
património da música proporcionou a organização de uma ‘Oficina de
Expressão Musical” que pretendia intervir na “globalidade do
desenvolvimento intelectual da criança” (Pedro Saragoça, FCG,
1994:34). O património etnográfico proporcionou a exposição “O Índio, a
Natureza e a Vida”, realizada entre Abril e Julho de 1988, com o
objectivo de sensibilizar os visitantes “…para o significado histórico
da vida de determinados grupos étnicos, nomeadamente de algumas tribos de
índios” (FCG, 1994:22). Prosseguindo com as Oficinas de Expressão
Dramática organizadas por Luísa Monteiro e Ana Margarida Vieira Mendes. O
património científico foi acedido, na exposição intitulada “Os
Sentidos”, que se realizou entre Novembro de 1987 e Fevereiro de 1988,
através de uma proposta expográfica com os seguintes objectivos: “vem
descobrir o que são, como funcionam e para que servem; deixa-os acordar para
poderes aprender a sentir as coisas, a conhecê-las e a transformá-las; vem
experimentar novos modos de sentir e encontrar os segredos das coisas”
(idem, 1994:21). E também na exposição “Contar, Medir e Pesar”
realizada de Novembro de 1988 a Março de 1989 com o objectivo de “sensibilizar,
informar e motivar quanto à utilização, aquisição e evolução de noções
matemáticas, da sua relação com os fenómenos naturais, os conhecimentos
científicos e as manifestações artísticas” (idem, 1994:24).
Prosseguindo com o “Atelier de Brinquedos Ópticos e Imagens em
Movimento” organizado por Fernando Galrito. Maria Isabel Tristany
organiza em 1994 o Atelier “Arte e Performance”, em que propõe aos
visitantes a “globalização das expressões artísticas através do
conceito de Performance” fazendo que o Património seja acedido
através de cinco experiências. “do grafismo ao desenho; do som à
oralidade; da palavra ao texto; da expressão ao drama; do movimento à dança”
(Maria Isabel Tristany, FCG, 1994:45). Encontramos também o mesmo objectivo e o mesmo desejo
de ‘intervenção’ na seguinte definição de museologia: “A
museologia define-se como um meio de intervenção social e de comunicação, ao
serviço do desenvolvimento das comunidades que serve, não se limitando às
tarefas tradicionais em que tantas vezes é colocada, e reduzem o Museu à
simples condição de armazém de objectos” (Universidade Lusófona de
Humanidades e Tecnologias, Departamento de Museologia, 2008). De facto, este objectivo de
‘transformação’ do Indivíduo e da Sociedade alterou profundamente o
paradigma conservacionista de «guardar, estudar e contemplar» o Património. Quem
trabalha em museus e tem responsabilidades na gestão do Património não veria
certamente com agrado um retrocesso nesta evolução. Regredir, após o contributo
dado por aquelas instituições e Pessoas, mesmo que alguns não tenham muito em
conta ‘o que é português’, não parece ser um bom caminho. Hoje
surgem sinais que merecem atenção e análise crítica. Refiro-me
sobretudo á influência da «ideia de que os factos museais podem ser reduzidos a
meros reflexos das relações sociais», como fazem Kavanagh e a «Escola de
Leicester» a partir dos anos de 1990. Os
«projectos educativos e de interpretação do Património» que referimos atrás, ao
contrário das propostas de Eillean Hooper-Greenhill (1994) ou de Susan Pearce
(1991), mostram que os modelos baseados na linguística e na semiologia não são
adequados ao trabalho museal. Já que ao decompor o processo comunicacional em
partes isoláveis, ordenadas e possíveis de matematizar, na sequência dos
trabalhos primeiro de Wienner e depois de Shannon, obrigam o Património a ser
concebido com a mesma lógica linear. Concretamente, com a mesma lógica de um
alvo militar perante as trajectórias dos projécteis disparados pelas
anti-aéreas DCA utilizadas na Guerra 1914-18 (Y. Winkin, 1981:15). Que
foi o contexto original da investigação de Norbert Wiener, que Claude Shannon
haveria de transformar em 1949 na “Teoria Matemática da Comunicação”.
E que é muitas vezes como os ‘visitantes’, nos estudos sobre
‘públicos em museus’, são considerados. Ora a dimensão da
simultaneidade (isto é, do processamento em paralelo) que a
interpretação do Património exige muito dificilmente se deixará captar por um
tal modelo telegráfico de comunicação como lhe chamou Yves Winkin
(1981:13). No qual é necessário haver uma fronteira bem marcada entre emissor,
receptor, mensagem, código, referente e contexto.
Mas, pior ainda, em que não se consideram nem os efeitos nem as consequências
da interferência dos emissores e receptores na manipulação da mensagem, do
código e do contexto. Deixo
apenas mais uma nota para a discussão, no intuito de ajudar a
contextualizar esta mudança entre o «paradigma conservacionista» e o
«paradigma desenvolvimentista». Quando
o evolucionismo cedeu ao relativismo cultural, na passagem do
século XIX para o século XX, a consideração pelas «culturas não-ocidentais»
passou a exigir um tratamento mais igual e mais consentâneo com a Declaração
dos Direitos Humanos aprovada pela ONU em 1948. Uma das primeiras
consequências, no que se refere ao Património, foi permitir um maior acesso das
«Comunidades a quem os ‘ocidentais’ tinham retirado o património
para o pôr nos seus museus». Mas essa permissão provocou um choque, não
previsto, no modelo de comunicação e na própria concepção ocidental de
lidar com o Património (o que equivale a dizer, na perspectiva conservacionista
de gerir o Património até aí preponderante). O modelo de «ver, contemplar,
estudar e conservar» característico do paradigma conservacionista não se
adequava às reivindicações dessas Culturas. Essas Culturas consideravam que os
‘objectos do seu Património’ não eram uma instância que se pudesse
separar cartesianamente dos seus detentores. Que se pudesse usufruir pela
contemplação expositiva, apartando o ‘espírito’ da
‘matéria’ ou o ‘indivíduo’ da ‘coisa’. O
modelo de comunicação não era igual ao que tinha sido concebido matematicamente
por Norbert Wiener e Claude Shannon. O Património fazia parte deles próprios;
do seu ser como pessoas. No mesmo sentido em que Heidegger
estabeleceu a diferença conceptual de Tempo relativamente à concepção
linear gregoriana que Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) tinha proferido no
século IV. Portanto não podia haver um ‘entre’ entre eles e a coisa
a que chamavam Património. A expografia e o ‘uso’ não podiam ser,
portanto, um sistema que enviava e recebia mensagens, em que havia referente
e mediadores. Nem fazia sentido falar de destinatários e emissores
como no modelo “telegráfico e semiológico” defendido pelos
museólogos e curadores ocidentais. E que agora os da Escola de Leicester
pretendem recuperar. Essa nova exigência de acesso e de usufruto chocou os
defensores do paradigma conservacionista nos anos 1960 e 1970, sobretudo na
Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos da América onde essas experiências
primeiro se tentaram fazer. A exigência de uma participação mais efectiva por
parte dos descendentes dos “First Peoples” impôs aos
museólogos um novo desafio. “Requests
to museums from First Peoples can challenge the ethics and practice of
conservation... to create a new and mutually satisfactory program for object
preservation” (Miriam Clavir, 1998:5). Aceitar a participação e o ‘uso’ das «Comunidades a quem as
culturas dominantes tinham retirado o Património» obrigava a cedências não
previstas. Obrigava, no que se refere ao ‘objecto’ (e à conservação
da sua estrutura material) a mudanças no próprio modo de lidar e conceber o
Património que o paradigma conservacionista não estava preparado para fazer de
imediato. Ou seja, o Património, através do impacto da ideologia
do Desenvolvimento, sobretudo a partir de 1945, deixou de ser um
‘objecto uno e indecomponível’. O recurso a máquinas e a técnicas
de Conservação e Restauro alcançaram a mais profunda interioridade material do
‘objecto’. O Património foi sujeito a um sistemático processo de
«desconstrução-substituição-reconstrução». Esse impacto aumentou as
possibilidades de acesso e de uso. Provocou uma mudança no próprio modelo de
comunicar o Património durante o período de génese e consolidação do paradigma
desenvolvimentista. Pelo desejo de maior Uso - resultado da
soma: da pressão do lado de fora, feita pelos visitantes e pelas expectativas
da sociedade pós-1945; e do lado de dentro, feita por um acesso mais permitido
ideologicamente - foi possível entrar nessas suas profundezas
constituintes, já desmembradas e ao dispor por efeito daquele processo de
desconstrução da sua parte material. A comunicação com o ‘suporte’
e com o ‘documento-dado’, pelo impacto desta necessidade de Uso,
vai agora ultrapassar as próprias capacidades fisiológicas naturais.
Exactamente como vemos hoje nas ‘reencenações históricas’, ou nas
‘re-significações dos acervos dos museus’ mais prestigiados (por
exemplo, nas mais recentes exposições no CCB ou no CAM, e um pouco por todo o
mundo). Nas quais se propõe que o visitante entre dentro do
‘objecto’ e se transforme nele. Que, mais do que ver ou contemplar,
assuma o ponto-de-vista perceptual que o curador ou o museólogo ‘medeiam’.
Esta mudança irá provocar nos ‘serviços
educativos’ e nas propostas de Uso do Património a substituição gradual
do modelo de comunicação ‘telegráfico e semiológico’ pelo
‘modelo de partilha e troca recíproca’ discernido pela
“Pragmática da Comunicação” (D. Sperber, D. Wilson, 2001) e
pela “Escola de Palo Alto” (G. Bateson, R. Birdwhistell, E.
Goffman, D. Jackson, A. Scheflen, S. Sigman, P. Watzlawick, 1981). Razão pela qual, neste mês de Abril de 2010, não
deveremos esquecer o legado daquelas pessoas e instituições que referimos
anteriormente. Porque tanto elas, como muitos de nós no trabalho prático do
dia-a-dia, já tínhamos ultrapassado esse modo “telegráfico e
semiológico” de conceber a comunicação em Museologia. Repito. Esse retrocesso, que aqui e ali se ouve dizer
que se vai fazer, não nos parece ser o mais adequado perante os desafios que
actualmente o Património coloca à Museologia. Pedro Manuel Cardoso (Museu da Gestualidade) |
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