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Voltar a definir Museu e Museologia? Ainda a propósito da necessidade de «voltar a
definir Museu e Museologia» é interessante voltar atrás, não trinta, mas
sessenta e seis anos. Ao ano em que Claude Lévi-Strauss escreveu
“Place de l’anthropologie dans les sciences sociales dans
l’enseignment supérieur “, publicado em 1954 pela UNESCO. Um artigo que haveria de
fazer parte da famosa “Anthropologie Structurale” (1963,
Paris: Plon). Ao
compararmos, agora, distanciados no tempo, as traduções que foram feitas em
1975 em língua portuguesa e em 1989 em língua inglesa encontramos um valor dado
ao ‘Objecto’ que elucida o quanto ele foi sujeito
ideologicamente. E o quanto desse uso nos obriga hoje a colocar pertinência na
necessidade de voltarmos a definir o rumo. Em 1975, Chaim Samuel Katz & Eginardo Pires,
sob revisão de Júlio Cezar Melatti, traduziam o texto de Lévi-Strauss do
seguinte modo: “No começo deste estudo, já aludimos ao
papel do museu de antropologia como prolongamento do campo. É, com efeito, o
contato com os objectos, a humildade inculcada no museógrafo pelas pequeninas
tarefas que estão na base de sua profissão - desencaixotamento,
limpeza, manutenção -
o sentido agudo do concreto que desenvolve este trabalho de classificação, de
identificação e de análise das peças de coleção; a comunicação com o meio
indígena, que se estabelece indiretamente por intermédio de instrumentos que é
preciso saber manejar para conhecer, que possuem além disso uma textura, uma
forma, muitas vezes repetida, cria uma familiaridade inconsciente com géneros
de vida e de atividade longínquos; o respeito, enfim, pela diversidade das
manifestações do génio humano, que não poderia deixar de resultar de tantos e
incessantes desafios para o gosto, a inteligência e o saber, a que os objetos
aparentemente mais insignificantes submetem cada dia o museógrafo, tudo isto
constitui uma experiência de uma riqueza e de uma densidade que não teríamos
razão em subestimar.”
(“Capítulo XVII – Lugar da Antropologia nas Ciências Sociais e
Problemas colocados por seu ensino”, in Claude Lévi-Strauss, Antropologia
Estrutural, 1975, Rio de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro, p. 417/418). Em
1989, Claire Jacobson and Brooke Grundfest Schoepf, traduziam do seguinte modo: “The museographer
enters into close contact with the objects: a spirit of humility is inculcated
in him by all the small tasks (unpacking, cleaning, maintenance, etc.) he has
to perform. He develops a keen sense of the concrete through the
classification, identification, and analysis of the objects in the various
collections. He establishes indirect contact with the native environment by
means of tools and comes to know this environment and the ways in which to
handle it correctly: Texture, form, and, in many cases, smell, repeatedly
experienced, make him instinctively familiar with distant forms of life and
activities. Finally, he acquires for the various externalizations of human
genius that respect which cannot fail to be inspired in him by the constant
appeals to his taste, intellect, and knowledge made by apparently insignificant
objects.” (in Charles Saumarez Smith, “Museums, Artefacts,
and Meanings”, in Peter Vergo (ed.), “The New Museology”
(1989/2006), London. Reaktion
Books, p. 21). Esta importância dada ao “Objecto”,
que na mensagem anterior que enviámos para esta Lista Charles Saumarez Smith
defendia, parece ser um poderoso elo de união para o debate. Um elo que une, e
não afasta ou opõe, ‘museu’ e ‘museologia’. De facto, e na nossa modesta opinião, a
redefinição do conceito de Objecto Patrimonial e de Objecto
Museológico é crucial para nos ajudar a actualizar a missão e as tarefas
profissionais práticas. E não foi apenas em 2006. Em 1989, o mesmo Saumarez
Smith já tinha utilizado aquele pedaço de texto de Lévi-Strauss para produzir o
seguinte comentário: “Yet there is a
current tendency within the social sciences to look anew at the type of
evidence which artefacts might provide about social relations. It is important
that museums acknowledge and embrace these developments and permit themselves
to be active centres of investigation into the nature of the relationship
between the individual and the physical environment. As Lévi-Strauss has
written: (segue-se a referida citação de Lévi-Strauss). If this text
were retranslated so as to avoid the implication that all museum workers are
male, then it provides an adequate agenda for the establishment of a new
museology, one which is always conscious of, and always exploring, the
nature of the relationship between social systems and the physical, three-dimensinal
environment, and always aware of the ethnography of representation.” (Saumarez Smith,
1989/2006, p. 21). Se no debate excluíssemos a Museologia do Museu,
ou vice-versa, em ambas as opções, era uma parte de tantos de nós que ficava
excluída. Pedro Manuel Cardoso |
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