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Re: [Museum] Voltar a definir Museu e Museologia?

To :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Subject :   Re: [Museum] Voltar a definir Museu e Museologia?
From :   ajcmn@sapo.pt
Date :   Sat, 07 Aug 2010 22:05:23 +0100


 Caros colegas
Penso que o problema não está em saber o que é a museologia e o que é um museu. Existem muitos "mestres" em museologia. Os problemas são outros... São públicos.
Um abraço
António Nabais




Citando Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>:

Voltar a definir Museu e Museologia?

Ainda a propósito da necessidade de «voltar a definir Museu e Museologia» é interessante voltar atrás, não trinta, mas sessenta e seis anos.

Ao ano em que Claude Lévi-Strauss escreveu "Place de l'anthropologie dans les sciences sociales dans l'enseignment supérieur ", publicado em 1954 pela UNESCO. Um artigo que haveria de fazer parte da famosa "Anthropologie Structurale" (1963, Paris: Plon).

            Ao compararmos, agora, distanciados no tempo, as traduções que foram feitas em 1975 em língua portuguesa e em 1989 em língua inglesa encontramos um valor dado ao 'Objecto' que elucida o quanto ele foi sujeito ideologicamente. E o quanto desse uso nos obriga hoje a colocar pertinência na necessidade de voltarmos a definir o rumo.

Em 1975, Chaim Samuel Katz & Eginardo Pires, sob revisão de Júlio Cezar Melatti, traduziam o texto de Lévi-Strauss do seguinte modo:

"No começo deste estudo, já aludimos ao papel do museu de antropologia como prolongamento do campo. É, com efeito, o contato com os objectos, a humildade inculcada no museógrafo pelas pequeninas tarefas que estão na base de sua profissão - desencaixotamento, limpeza, manutenção - o sentido agudo do concreto que desenvolve este trabalho de classificação, de identificação e de análise das peças de coleção; a comunicação com o meio indígena, que se estabelece indiretamente por intermédio de instrumentos que é preciso saber manejar para conhecer, que possuem além disso uma textura, uma forma, muitas vezes repetida, cria uma familiaridade inconsciente com géneros de vida e de atividade longínquos; o respeito, enfim, pela diversidade das manifestações do génio humano, que não poderia deixar de resultar de tantos e incessantes desafios para o gosto, a inteligência e o saber, a que os objetos aparentemente mais insignificantes submetem cada dia o museógrafo, tudo isto constitui uma experiência de uma riqueza e de uma densidade que não teríamos razão em subestimar." ("Capítulo XVII - Lugar da Antropologia nas Ciências Sociais e Problemas colocados por seu ensino", in Claude Lévi-Strauss, Antropologia Estrutural, 1975, Rio de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro, p. 417/418).

            Em 1989, Claire Jacobson and Brooke Grundfest Schoepf, traduziam do seguinte modo:

"The museographer enters into close contact with the objects: a spirit of humility is inculcated in him by all the small tasks (unpacking, cleaning, maintenance, etc.) he has to perform. He develops a keen sense of the concrete through the classification, identification, and analysis of the objects in the various collections. He establishes indirect contact with the native environment by means of tools and comes to know this environment and the ways in which to handle it correctly: Texture, form, and, in many cases, smell, repeatedly experienced, make him instinctively familiar with distant forms of life and activities. Finally, he acquires for the various externalizations of human genius that respect which cannot fail to be inspired in him by the constant appeals to his taste, intellect, and knowledge made by apparently insignificant objects." (in Charles Saumarez Smith, "Museums, Artefacts, and Meanings", in Peter Vergo (ed.), "The New Museology" (1989/2006), London. Reaktion Books, p. 21).

           

Esta importância dada ao "Objecto", que na mensagem anterior que enviámos para esta Lista Charles Saumarez Smith defendia, parece ser um poderoso elo de união para o debate. Um elo que une, e não afasta ou opõe, 'museu' e 'museologia'.

De facto, e na nossa modesta opinião, a redefinição do conceito de Objecto Patrimonial e de Objecto Museológico é crucial para nos ajudar a actualizar a missão e as tarefas profissionais práticas.

E não foi apenas em 2006. Em 1989, o mesmo Saumarez Smith já tinha utilizado aquele pedaço de texto de Lévi-Strauss para produzir o seguinte comentário:

"Yet there is a current tendency within the social sciences to look anew at the type of evidence which artefacts might provide about social relations. It is important that museums acknowledge and embrace these developments and permit themselves to be active centres of investigation into the nature of the relationship between the individual and the physical environment. As Lévi-Strauss has written: (segue-se a referida citação de Lévi-Strauss). If this text were retranslated so as to avoid the implication that all museum workers are male, then it provides an adequate agenda for the establishment of a new museology, one which is always conscious of, and always exploring, the nature of the relationship between social systems and the physical, three-dimensinal environment, and always aware of the ethnography of representation." (Saumarez Smith, 1989/2006, p. 21).

 

Se no debate excluíssemos a Museologia do Museu, ou vice-versa, em ambas as opções, era uma parte de tantos de nós que ficava excluída.

 

Pedro Manuel Cardoso


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