Voltar a definir Museu e Museologia?
A mensagem de António Nabais ainda sugere mais alguns comentários.
Mas serve também para avaliar da pertinência, ou não, do Debate.
Na imensa troca de e-mails (mensagens de correio electrónico) que recebi por causa desta mensagem destaco uma. Em que foi escrito o seguinte:
“Voltando ao seu valioso repto sobre a Museologia e os Museus, será que um Museu já não é um lugar onde se preservam memórias, sejam elas materiais ou imateriais, reais ou virtuais? E, não é verdade que há museus onde a totalidade do acervo, ou parte dele, não está devidamente preservado? Por culpa de quem? Quais são as pessoas que, um pouco por todo o país, convidados ou não pelas instituições, visitam como especialistas em museologia alguns museus e calam aquilo que vêem, ou não sabem, algumas porque não querem (o que é grave), que há muito mais para ver?
As patologias nos edifícios onde funcionam as instituições museológicas não serão muitas vezes uma desculpa para justificar o estado deplorável em que se encontra parte do seu acervo? E nesta história nunca se encontra incompetência? Veremos se este debate vai morrer numa festa como muitos outros, tudo de braço dado, ou se vai servir para colocar no sítio certo o que anda mal deslocado.”
Respondi: - Esclarecendo que tinha utilizado a citação de Almada apenas para dizer que não me julgo com a certeza toda. Que se não quiserem fazer o debate, não façam. Disse, que tinha sido o Luís Raposo a sugerir que o fizéssemos de uma forma mais institucional. Mas que temia que lhe tivessem logo dito que não valia a pena.
Acrescentei ainda o seguinte: - Lá fora estão a fazê-lo. E aprendo muito ao ter atenção ao que esse debate produz. São pessoas como nós. Trabalham em museus há dezenas de anos, em museus dos mais falados no mundo. Têm responsabilidades práticas e concretas sobre patrimónios valiosos. E trocam entre si, com humildade e na praça pública, esse debate. Publicam-no. Aliás, são os Governos e as instituições universitárias dos seus países que transformam esse debate em livros. Cá é diferente. Nós gostamos mais de ficar entretidos com as questões «políticas», mais do que com o conteúdo e a substância concreta dos problemas reais - esses problemas reais de que falava o meu amigo. Passamos ao lado de tudo isto. Julgamo-nos a ‘essência do tal e qual’. Não nos sabemos organizar colectivamente para produzir valor que nos consiga transformar em melhores pessoas e profissionais. Estamos sempre à espera do acaso, da sorte, de um golpe de génio. De uma inspiração instantânea que, sem esforço e sem trabalho, tudo resolva (os tais ‘planos’, as tais frases geniais, as tais coisas mediáticas para saírem em muitos jornais, etc.). Neste debate as questões que colocou, tal como referi, são suficientemente potentes para abrir a discussão. Dizem que não servem? Porquê? Porque quem as colocou foi o X, o Y ou o Z? Não servem porque essas letras não têm estatuto nem nomes suficientemente mediáticos? Ou não prestam por causa do conteúdo e da substância daquilo que atiraram para o debate?
E ainda acrescentei mais. Disse: - O que relata devia servir para os actuais responsáveis pelo património/museologia terem vergonha. É exactamente por saber que este seu exemplo se multiplica por muitos casos dentro dos museus/monumentos que levantei a questão. Esses ditos «responsáveis» estão sempre prontos para dar entrevistas e fazerem petições, na condição de saírem na fotografia ou no mediatismo fácil. Estão menos disponíveis para resolver as questões práticas e os problemas reais que se passam dentro dos museus/património/monumentos onde estão. E perante esta situação acham que tudo está bem assim, que não há motivo para o debate. Eu acho é que têm receio do debate, porque isso exporia a sua quota de responsabilidade no mau estado em que muitas coisas se encontram. Tentam desviar o assunto para a «política» e para os «políticos» para ver se ninguém os «vê». Não quis ser muito assertivo nas mensagens que enviei para a Lista para não ferir em demasia. Pus as mensagens porque houve dois casos que me irritaram profundamente, e são bem a imagem demonstrativa da situação a que Portugal chegou nesta área.
Continuei a chamar a atenção para os factos: - Repare o que aconteceu recentemente a dois importantes museus portugueses. Refiro-me a um Museu de uma prestigiada Universidade, e a um outro recentemente inaugurado com pompa e circunstância (o que acho bem, pela importância que um museu deve ter na Sociedade). Em ambos esses museus abriram concursos públicos para a prestação de serviços ao exterior. No Museu da Universidade, pasme-se, fizeram um concurso público para alguém vir estudar as colecções que o museu possuía há dezenas de anos (!). Quer dizer: o director e o professor que lá estão acham que não têm competência para estudar as colecções mais valiosas que têm à sua guarda. Nem são capazes de congregar os departamentos daquela prestigiada Universidade para os ajudarem a fazê-lo. Isso mostra claramente duas coisas: primeiro, que não têm perfil técnico e profissional para estarem à frente daquele tipo de museu (não têm a ‘formação’ adequada; e estão, até, a tirar o lugar a quem a tenha); segundo, mostra que não souberam transformar o museu num projecto acarinhado e ajudado pela Universidade onde ele insere (o tal Contexto, de que a museologia fala). No caso do outro Museu, abriram um concurso público para uma empresa estudar a viabilidade do museu. Quer dizer, depois do museu estar construído, e depois de 15 anos de tempo, ainda não tinham perguntado à Museologia qual o rumo do museu para ter sucesso. Então, isso mostra uma coisa: que no Caderno de Encargos dado ao arquitecto e ao construtor não tinha lá nenhuma orientação museológica relativa àquilo que agora pedem e pagam a uma empresa exterior para fazer. Advinha-se o que vai acontecer. A empresa vai exigir mais obras e mais infra-estruturas de apoio para que se alcance o acesso e o usufruto ao local. Ora se tivessem perguntado isso à Museologia antes de fazerem o Caderno de Encargos já teria vindo nos custos que pagaram ao arquitecto e ao construtor. Ou seja se se tivesse dado voz (e vencimento) à Museologia os contribuintes pagavam menos, ficavam mais bem servidos, e os museus em Portugal avançavam mais. Outros exemplos podiam ser dados. Por exemplo, perguntar em que estado estão os objectos/documentos dos acervos e das ‘reservas’ tendo por referência o estado em que foram encontrados os oito ‘objectos’ intervencionados pelo POC em 1999/2001.
E ainda acrescentei, para terminar: - Na minha opinião, a política de museologia/património tem que mudar em Portugal. Deve apostar nos recursos humanos que estão formados e disponíveis. E começar por repor um mínimo de competências dessas em todos os museus considerados viáveis e importantes. Deve começar por aqui. E não por ‘planos estratégicos’ e por ‘ideias megalómanas-abstractas’ (que só servem para encobrir a inércia de muitos dos actuais «responsáveis»). Uma mudança na política museológica e patrimonial, que deve ter em consideração as recentes ferramentas teóricas, metodológicas e técnicas que surgiram nos últimos dez anos no mundo da museologia/património, e que estão ausentes na gestão da maior parte dos museus/património/monumentos portugueses. O Luis Raposo ainda teve coragem, os outros ficaram cheios de medo. Esta é a minha opinião.
Ora o António Nabais ao escrever, “Penso que o problema não está em saber o que é a museologia e o que é um museu. Existem muitos "mestres" em museologia…”, o que fez foi ainda justificar mais a pertinência do debate.
Veio atalhar por as pessoas quererem ter formação em museologia. Isso deixa muitas pessoas inseguras. Até de certa maneira, lhes corta as expectativas.
Então, não é o próprio ICOM, no recente documento “Referencial Europeu das Profissões Museais” que apela para que os que trabalham em museus e em património tirem essa formação? É errado querer ter mais formação na área da museologia, dos museus e do património, quando é o próprio ICOM a incentivar a isso?
Então, afinal sempre há matéria para debater, e não está tudo dito e explicado como parecia.
Atente-se no que se passa lá fora, e na data em que isso é feito.
Refiro-me a essa questão que António Nabais colocou relativa à «formação e à profissionalização em Museologia e Museus».
No dito “Referencial Europeu das Profissões Museais” trabalharam, sob a direcção de Angelika Ruge, presidente do ICTOP 2008, Axel Emert, Institut für Museumforschung, Berlim; Felix Handschuh, FHTW, Berlin; Eva-Maria Kampmeyer, FHTW, Berlim; Elisabeth Caillet, ICOM França, Paris ; Geneviève Gallot, INP, Paris
Marie-Clarté O’Neill, INP, Paris ; David Vuillaume, ICOM, Suiça, Zurique ; Marie Claude Morand, ICOM, Suiça, Sion ; Filippo Rampazi, ICOM, Suiça, Lugano; Margrit Wick-Werder, ICOM, Suiça, Bienne; Luigi Di Corato, ICOM, Itália, Milão; Aberto Garlandini, ICOM, Itália, Milão; Silvia Mascheroni, ICOM, Itália, Milão; Salvatore Sutera, ICOM, Itália, Milão; Anna Maria Visser, ICOM, Itália, Ferrara.
Colaboraram e financiaram esse debate e esse documento as seguintes instituições: - ICOM Paris; Fachhochshule für Technik und Wirtschaft (FHTW), Berlim; ICOM França; ICOM Itália; ICOM Suiça; Institut National du Patrimoine (INP), Paris ; Institut für Museumforschung, Berlim; Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci, Milão; Musikinstrumentenmuseum, Basel.
Se não houvesse necessidade de debater e de reformular (em 2006) os museus e a museologia essas pessoas tinham-se dado a este trabalho?
Esses estrangeiros, nesse Documento, chegaram em 2006 às seguintes conclusões:
“A divisão dos diplomas em Licenciatura (Bacharelato), Mestrado e Doutoramento, que deverá estar concluída na Europa até 2009/2010, permitirá a organização individualizada de uma carreira profissional. Em princípio, em cada grau universitário adquire-se uma qualificação e novas perspectivas no mercado de trabalho. Nestas condições, a mobilidade profissional na Europa será facilitada. No quadro das grandes linhas de orientação estabelecidas pelo processo de Bolonha, cada Estado europeu tem autonomia para decidir qual a duração dos diferentes ciclos ou as respectivas denominações. Para facilitar a apresentação, utilizamos as referências «primeiro, segundo ou terceiros ciclos». Nas versões nacionais, pode-se indicar as qualificações específicas.
As pessoas que trabalham em museus devem respeitar as seguintes exigências:
- Conhecimentos em Museologia;
- Um diploma de estudos universitários para a maioria das profissões do museu;
- Experiência prática nas áreas em causa;
- Conhecimento de uma língua estrangeira no mínimo.
O Grupo-de-Trabalho gostaria de destacar em particular que prevê, para todas as actividades de direcção, uma formação científica sólida e uma formação em Museologia, teórica e prática, como condições prévias ao recrutamento.“ (Angelika Ruge, presidente do ICTOP, p. 14).
E ainda,
“A discussão sobre a profissionalização do trabalho nos museus é difícil e longa. O trabalho profissional equivale a uma prestação específica, autónoma e que se distingue de outras prestações sociais. Convém destacar, na sociedade, de forma inequívoca a preocupação com a profissionalização e exigir o seu reconhecimento. A discussão sobre a profissionalização no museu, que começou nos anos 80 do século passado nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e no Canadá está relacionada com as mudanças estruturais e de financiamento dos museus. Em simultâneo, o número de museus cresceu imenso. A democratização dos museus pede uma compreensão nova do papel da instituição na sociedade. Novos campos de acção exigem uma formação contínua geral e específica. Esta constatação tem uma aceitação cada vez maior. A profissionalização é o motor que permite evitar que o trabalho no museu estagne e se torne uma rotina. Mas haverá sempre caminhos diferentes para se conseguir o padrão de profissionalização nos museus.” (Angelika Ruge, presidente do ICTOP, p.11)
E nós por cá?
Em Portugal já houve desenvolvimentos que interferem directamente com a Museologia e com os Museus no âmbito do Processo de Bolonha. Houve a aprovação do Regime Jurídico dos Graus e Diplomas do Ensino Superior (Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março); houve a aprovação do Despacho nº 9288-AE/2007 que aprovou pela primeira vez em Portugal um Doutoramento em Museologia (Diário da República, 2ª série, nº 97, de 21 de Maio de 2007) e o respectivo Plano de Estudos (Despacho n.º 1826/2010 in Diário da República 2.ª série, n.º 17, de 26 de Janeiro de 2010).
O Decreto-Lei n.º 42/2005, de 22 de Fevereiro, aprovou os princípios reguladores de instrumentos para a criação do espaço europeu de Ensino Superior – “Processo de Bolonha”. Ou seja, transpôs para Portugal o Processo de Bolonha, com o seguinte objectivo: “(….) o estabelecimento, até 2010, do espaço europeu de ensino superior, coerente, compatível, competitivo e atractivo para estudantes europeus e de países terceiros, espaço que promova a coesão europeia através do conhecimento, da mobilidade e da empregabilidade dos seus diplomados”. “(…) No plano do ensino superior preconiza-se uma importante mudança nos paradigmas de formação, centrando-a na globalidade da actividade e nas competências que os jovens devem adquirir, e projectando-a para várias etapas da vida de adulto, em necessária ligação com a evolução do conhecimento e dos interesses individuais e colectivos.” (Diário da República, I.ª Série-A, n.º 37, de 22 de Fevereiro de 2005, pág. 1494).
E não há motivo para o debate que propus, juntamente com Luís Raposo?
O que faltará não será coragem, e o que haverá não será preguiça a mais?
Pedro Manuel Cardoso
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