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Preservação
e Valorização do Património da Saúde na Colina
de Santana, Lisboa A Colina de
Santana constitui o maior e mais importante conjunto de património da medicina e
saúde do nosso país. Desde a leprosaria de São Lázaro no século XIV que ali se
encontram instalados hospitais e instituições de saúde e medicina. Ali foi
estabelecido o primeiro grande hospital português, o Hospital Real de Todos os
Santos (1492), bem como o Hospital Real de São José (1775), que ocupou as
instalações do antigo Colégio de Santo Antão-o-Novo. Também a Colina de Santana
foi a escolhida para o reordenamento dos hospitais no século XIX, muitos deles
instalados em antigos conventos, como o Hospital do Desterro (1857), Arroios
(1892), Santa Marta (1903) e Capuchos (1928), bem como outros construídos de
raiz, como o Hospital de D. Estefânia (1877) e o Hospital de Miguel Bombarda
(1848). Para além
disso, a Colina foi também o local onde nasceu o ensino da medicina em Lisboa,
com a criação da Escola Médico-Cirúrgica (1836) ? Faculdade de Medicina da
Universidade de Lisboa desde 1911 ? que utilizou os Hospitais de São José e
Santa Marta como hospitais escolares. Ainda hoje, a Faculdade de Ciências
Médicas da Universidade Nova de Lisboa continua esta tradição de formação no
Campo de Santana. Associados quer aos hospitais quer à Escola, foram também
criados na Colina de Santana, durante os séculos XIX e XX, importantes
institutos de investigação e ensino como o Instituto Bacteriológico de Câmara
Pestana (1892), o Instituto de Medicina Legal (1879), o Instituto Central de
Higiene (1899) e o Instituto Oftalmológico Gama Pinto
(1889). No conjunto
dos seus cerca de doze unidades patrimoniais, a Colina preserva a memória desta
longa história, seja nos magníficos edifícios, muitos deles raros no contexto
europeu, seja nas vastas colecções de instrumentos e equipamento científico,
ceras anatómicas, pintura e escultura, arquivos e bibliotecas históricas e um
património de azulejaria único no país. A maioria destes pólos são tutelados
pelo Ministério da Saúde. Alguns encontram-se já classificados, como o núcleo
histórico do Hospital de São José, o Hospital de Santo António dos Capuchos, o
Hospital de Santa Marta e, muito recentemente, o que saudamos, o Balneário de D.
Maria II e o Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel
Bombarda. Apesar da
sua importância e singularidade, este património é ainda, em larga medida,
desconhecido do público e da comunidade museológica portuguesa. Apesar do
considerável trabalho de inventário e estudo, o património da saúde da Colina de
Santana carece igualmente de enquadramento institucional no âmbito das
diferentes tutelas, bem como um plano integrado e multidisciplinar de
preservação, musealização e acessibilidade. A
Direcção da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM (ICOM Portugal) tem vindo a
acompanhar, com crescente preocupação, as notícias públicas acerca dos planos
existentes para a desactivação dos Hospitais Civis de Lisboa, formalmente já
extintos, com a simultânea alienação pública dos seus espaços, que incluem este
património de inestimável valor nacional e internacional. O
processo de desativação levanta muitas dúvidas que carecem de resposta por parte
do Ministério da Saúde, como absolutamente se impõe em vivência democrática. O
ICOM Portugal considera que, dada a magnitude do que está em causa e a suas
profundas implicações, importa abrir um debate sobre o fundo da questão, ou
seja, a entrega de bens do Estado de valor cultural relevante, classificado e
propriedade de todos, à gestão empresarial pública, para subsequente alienação a
privados. Todavia,
o debate indicado não deve fazer tardar a adopção de orientações e a tomada das
seguintes medidas concretas que entendemos revestirem carácter imperioso e
urgente: 1º
Reabertura ao público do Museu Miguel Bombarda, cujo imóvel foi recentemente
classificado de interesse público, com a continuação do importante trabalho que
tem vindo a ser feito de estudo, preservação e divulgação dos seus
acervos. 2º
Inventário sistemático de todas as colecções de bens culturais móveis dos
antigos Hospitais Civis de Lisboa; neste âmbito, saudamos as iniciativas já
tomadas do estabelecimento de protocolos para o efeito com equipas
universitárias e outras, nomeadamente através do recurso a projectos
patrocinados pela FCT; 3º
Inventário sistemático dos bens culturais imóveis, arquitectónicos e artísticos,
tomando como referência o trabalho que está a ser desenvolvido pelo Instituto de
História de Arte da Universidade de Lisboa no riquíssimo património azulejar dos
Hospitais de S. José, Santa Marta, Santo António dos Capuchos e que deverá ser
extensivo ao Hospital Miguel Bombarda; 4º
Estabelecimento, em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa e com as
faculdades de arquitectura de um plano urbanístico e de valorização patrimonial
integrado para a Colina de Santana com respeito pela sua memória histórica
enquanto ?colina da saúde? e potenciador da qualificação da paisagem urbana da
zona; 5º
Estabelecimento de termos de referência claros e específicos para as
condições futuras de uso e valorização a serem observadas em cada um dos
recintos dos antigos Hospitais Civis de Lisboa; 6º
Criação de unidades museológicas, respeitando os respectivos ?espíritos de
lugar?, materializados nos acervos que por vicissitudes várias acabaram por lhes
ser afectos; desejavelmente, a identidade museológica de cada recinto, deveria
ser concebida na perspectiva da constituição de um programa museológico
descentralizado e integrado, tendo como unidade nuclear o antigo Colégio de Sto.
Antão-o-Novo, no actual Hospital de S. José. Até
que estas condições sejam cumpridas consideramos inaceitável a adopção de
quaisquer medidas irreversíveis em termos de alteração ou destruição de
estruturas edificadas ou de ?abate à carga? de bens. Constituiria
um intolerável acto lesivo da nossa memória colectiva, pretender avançar no
processo de extinção dos Hospitais Civis de Lisboa sem atender à densidade e
riqueza do património cultural e histórico neles contido, parcialmente já
reconhecido de interesse público. Ao contrário de um problema, como parece estar
a ser considerado, este património possui condições para ?fazer cidade? no mais
amplo sentido da palavra, ou seja, para simultaneamente qualificar Lisboa e
promover a cidadania. A Direcção
do ICOM Portugal, em 5 de Janeiro de 2011 |
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