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[Museum] A reforma da política patrimonial… em diálogo com a Cultura.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A reforma da política patrimonial… em diálogo com a Cultura.
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Mon, 11 Apr 2011 23:00:12 +0100

Caro Amigo, volto a repetir o argumento que motivou o nosso diálogo… e que nos separa na assumpção do que é o Património...

A conclusão principal daquele meu trabalho de investigação é a de que o Património - sejam quais forem os objectos e a materialidade que se considerem - é um ‘código’ e uma ‘codificação’ que permitem à consciência (cérebro) fazer a gestão da Relevância e colocá-la em Memória. Os objectos funcionam como fontes donde a cognição extrai essa relevância servindo para a detectar na realidade-existência pertencente a cada ambiente ou contexto, pois os ‘objectos’ são sempre pedaços da realidade-existência que os sujeitos segmentaram. Essa mutilação faz parte do processo das quatro operações que referimos no final do Capítulo a propósito da Teoria da Cultura. Deste modo, o Património é sobretudo a relevância que a cognição consegue extrair dos objectos. É ela que verdadeiramente é o Património - tal como vimos com Dryas Octopetala, com Messel, com Agnasta Gneiss, com Nuvvuagittug, com o Manto de Nossa Senhora de Guimarães, e em inúmeros outros casos durante este trabalho. Os objectos de Füsum que Kemal coleccionava compulsivamente no museu da inocência de Orhan Pamud não valem por si, são património pelo amor que sinalizam para a cognição de Kemal (Pamud, 2010). O Património não é a materialidade desses objectos, é a relevância que eles permitem à cognição detectar e gerir. Quando deixam de ser essa sinalização perdem a qualidade patrimonial. Muitos outros exemplos empíricos mostram que a parte material dos objectos deixa de ser ‘património’ logo que não sirva para fazer satisfatoriamente a gestão da relevância. O resultado deste trabalho indica que o Património é a ferramenta humana (Cultural) para gerir a Relevância.

A redução algorítmica da relevância a códigos permitiu desenvolver capacidades cognitivas cada vez mais apuradas e eficazes para fazer essa gestão. Ao ser possível pôr em código o valor patrimonial dos ‘objectos’ foi possível transmiti-lo às gerações seguintes sob a forma de codificação. Foi esse processo de codificação que fez aparecer a abdução, a analogia, a dedução, a homologia e as restantes capacidades inerentes aos nove valores patrimoniais que descobrimos existirem nesse mapa mental que designámos por Estrutura do Valor Patrimonial. São eles que servem de critérios-instruções para seleccionar os objectos que designamos por ‘património’ e dotá-los da qualidade patrimonial. São esses critérios-motivos que transformam a realidade e os objectos em Património. E que trabalham teleonomicamente para aperfeiçoarem a habilidade da mente nessa busca da relevância. A gestão da Relevância durante a filogenia, pela importância que se verifica ter para o êxito adaptativo, tem grande probabilidade de constituir uma parte da explicação para a origem da própria cognição e do estado actual da anatomia do cérebro humano. Os factos indicam que este é um caminho que vale a pena percorrer na investigação e na interpretação do Património.

Portanto não é verdade que não haja qualquer espectativa dos seres humanos gerirem a relevância de modo “equilibrado e satisfatório” (Sperber & Wilson, 2001, p.238). Essa esperança está nas heurísticas que os mesmos autores reconheceram existirem, “sendo algumas inatas, outras desenvolvidas através da experiência” (ibidem), e que neste trabalho verificámos estarem codificadas na mnése. As quais Arthur Kœstler já tinha chamado “regras de jogo”, pressupondo que regiam “a vida orgânica, em todas as suas manifestações, desde a morfogénese até ao pensamento simbólico” (Watzlawick & all. 1972, p. 21).

O modo como este trabalho redefine o Património e o decompõe analiticamente torna possível uma reformulação das políticas patrimoniais, e permite adoptar um índice de avaliação do trabalho museológico que lhe confere mais eficácia e eficiência. Coloca à disposição as ferramentas conceptuais e técnicas que permitem guiar essa reforma.

Uma reorientação cuja premissa é a de que o Património tem um papel importante no projecto ambicioso de sobrevivermos à Mudança. E de que só terá utilidade se puder ser ‘lido’ pelo cérebro dos presentes e dos vindouros… pertençam eles a que etnia, sociedade ou cultura pertencerem. Se puder servir sobretudo a um sentido neguentrópico da nossa Continuidade.

            É esta perspectiva que alarga o horizonte do Património, e a nossa responsabilidade por ele. Há, Caro Amigo, um forte etnocentrismo que não nos deixa «vê-lo» nem «geri-lo» como a contemporaneidade exige.

           

Pedro Manuel-Cardoso

 


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