A questão é interessante. Desde que a retiremos do contexto circunstancial e episódico do pequeno território português, aqui-e-agora. E a coloquemos no âmbito da área disciplinar da Museologia & Património. Isto é, a retiremos da consequência intuída por Picas do Vale, de ser uma consequência do acto administrativo que politicamente instituiu uma tutela administrativa unificadora designada por “Direção-Geral do Património” (ou ex-IPPC). E a coloquemos ao nível dos três processos que definem a área disciplinar e o conhecimento sobre o Património. A saber: o Processo de Patrimonização, o Processo de Musealização, e o Processo de Codificação em Memória. Que são os três processos (ou fases) que vão da «escolha da relevância patrimonial», passam pelo «trabalho humano de gestão do património» (qualquer que ele seja, e esteja onde estiver, in situ ou ex situ, material ou imaterial, móvel ou imóvel, etc.), até à «biologia molecular da cognição do património em memória». Num dos comentários que fiz há cerca de dois anos perguntava se não seria pertinente mudar o nome do “Conselho Internacional de Museus (ICOM)” para «Conselho Internacional do Património». Isto é, não ser um erro haver um «comité internacional» para cada tipo de património. Porque, apesar de poder ser útil em termos operatórios e administrativos, não contribuía nada para o avanço (teórico, cientifico, metodológico, e prático) sobre o estudo e o conhecimento do Património e da sua respetiva Gestão. Quem executa o “divide para reinar” apenas explora esta fraqueza interna dos Profissionais da Museologia e do Património (e respetivos representantes, desde a cúpula Global do ICOM e respetivas sub-organizações, até ao museu ou monumento Local). Em Portugal, neste momento, apenas se aproveitam dessa fraqueza. É ela que lhes permite construírem a hierarquia da importância de uns tipos de património sobre os outros (e portanto, de umas associações sobre as outras, de quem se convida e de quem não se convida, de quem se recebe ou de quem se não recebe, de que a cerimónias se vai e às que se falta, etc.). É de facto um jogo sorrateiro, cheio de esperteza à portuguesa, que tende a explorar a vaidade e as clivagens internas. Mas a culpa não será tanto do flagelador como do infligido? Sabemos que o executor se veste com o famoso traje da eminência parda, e que, em nome de uma transversal cumplicidade regional, publicamente reclama a pertença aos «profissionais pelo património» e não à «política». Se não fora essa artimanha, tudo poderia ser mais nítido, e portanto, discutido sem a emoção que a nudez deste truque provoca. Julgará o dito que aquele traje o consegue tapar? Mas no final a tal fraqueza continua a não estar resolvida. Será que há vontade do ICOM e do ICOMOS em quererem aproveitar esta aproximação, simbolicamente ocorrida no Padrão dos Descobrimentos, para essa coragem? Pedro Manuel-Cardoso |
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