Bem
observado, sim senhor.
Como
disse antes, penso que tudo e nada
equivalem-se.
Mas,
se alguma coisa me ficou das angústias filosóficas da juventude foi ter passado
no estado adulto a orientar a minha elucidação das ?grandes questões? através de
um permanente confronto com a realidade empírica, ou seja a prática da vida. A
vida constitui o grande e dirimente guia: por isso me sinto filosoficamente
materialista, mas poderia também declarar-me simplesmente humanista, citando
Camões: ?A experiência é a mãe de todas as coisa?.
Dou
um exemplo, retirado de algo que escrevi em tempos. Qualquer
categorização, qualquer selecção de partes dentro de um todo indivisível no
limite, qualquer divisão do tempo é anistórica por natureza. Até o dia e a noite
constituem categorias arbitrárias do espírito. O que nem por isso quer dizer que
?dia? e ?noite? não existam e não sejam úteis à vida e à percepção que temos do
tempo, através do uso da razão e do chamado ?método científico? (cf. abaixo
texto exemplar de um dos pais fundadores da arqueologia pré-histórica no século
XIX). O mesmo se passa com o apartado de bens, ditos incorporados e
inventariados, em colecções de museus ou arquivos.
Revertendo
para o caso presente, diria que a angústia do arquivo total apenas pode ter sentido
prático, se produzir efeitos paralisantes. Dito de outra forma: apenas incomoda
quando o aceno do fantasma do tudo,
vise em ultima análise o nada,
ou seja, a negação da utilidade social futura do arquivo e do
museu.
Ora,
pelo contrário, eu penso que quanto mais o tudo for tecnicamente alcançável,
fazendo nele sucumbir alguns teóricos mais desligados do real (não outros
teóricos, entenda-se, para quem ?não existe nada demais prático do que uma boa
teoria?), mergulhando-os no nada,
mais o contrato social que justifica a existência de museus e arquivos há-de
reforçar-se e reinventar-se, sendo seus celebrantes os práticos, os cidadãos
ingénuos e curiosos, simples por natureza, que apenas gostam de recordar
memórias (mais ingenuidade e curiosidade são afinal sinónimas de humanidade e
dos simples parece ser o reino dos céus, segundo nos dizem) e os profissionais
que vivem os museus e os arquivos pelo lado humilde, maravilhoso e sempre
refrescante da experiência quotidiana.
Luís
Raposo
?Os
adversários da paletnologia [pré-história] contestam a sua possibilidade de
estabelecer uma classificação assente sobre uma base sólida. Segundo eles, não
existem divisões sérias. Não somente há passagens e transições entre todas as
divisões, mas ainda e sobretudo elas sobrepõem-se; elas não são sincrónicas nos
diversos países; elas são mais ou menos longas, segundo as regiões. Tudo isso é
verdade, mas estas objecções não adquirem por isso mais valor. Para o
demonstrar, bastaria um exemplo. O que existe de mais diferente, de mais
distinto, de mais fácil a caracterizar e a reconhecer do que o dia e a noite ?
Pois bem, a argumentação dos adversários da classificação prehistórica, se ela
tivesse algum valor, conduziria a estabelecer que dia e noite não existem !...
Com efeito, entre o dia e a noite existem transições, passagens mais ou menos
longas, o crepúsculo e a aurora. O dia e a noite, em vez de serem sincrónicos,
sobrepõem-se segundo as regiões e chegam mesmo a ser diametralmente opostos. A
sua duração é variável: enquanto é em média de 12 horas entre nós, ela é de
vários meses nas regiões polares. E no entanto a divisão do tempo em dias e
noites é muito nítida, muito precisa, muito prática. Passa-se exactamente o
mesmo com a divisão da paletnologia, em idades, períodos e épocas? (MORTILLET
1883: 20-22) (citado no meu ensaio ?Entre sossegos e angústias: a natureza das
periodizações arqueológicas?, Estudos Arqueológicos de Oeiras, nº nº 6,
pp. 431-444, Oeiras).
----- Original Message -----
Sent: Tuesday, November 20, 2012 3:09
PM
Subject: RE: [Museum] Repensar a
Museologia e o Património?
Quanto mais se distanciam do património , as pessoas e as
sociedades , mais necessidade têm de patrimonializar tudo . Uma espécie
de obsessão patrimonializante de uma realidade que escorre pelos dedos e
se esvai como areia seca em dia de vendaval. A marca que se perde _ o deserto
em que nos perdemos.
Nesta vertigem, nesta absoluta ( INFINITA ) falta de escala, onde cabe
tudo é um imenso NADA que armazenamos . E ... para quê ?
isabel Victor
Date: Tue, 20 Nov 2012 12:09:19 +0000 From: 3raposos@sapo.pt To:
museum@ci.uc.pt Subject: Re: [Museum] Repensar a Museologia e o
Património? Porque tudo e nada se
equivalem, em imagem de espelho, quando tudo puder ser
arquivado, quando tudo puder ser memorizado, quando
tudo for património, será como se tivéssemos regressado ao
tempo em que nada era arquivado, nada era
memorizado, nada era património. Ou seja, vencemos o equívoco
que nos fez perder demasiado tempo, senão mesmo nos paralisou, dobrados ao
peso de comportamentos correctos (politica e farisaicamente falando), e
regressamos ao mundo real em que vivemos e no qual tomamos partido todos os
dias, actuamos guiados pela praxis e somos chamados à
responsabilidade pessoal e socialmente contratada de seleccionar a memória,
conservando/renovando/reinventando uma parte ( renovatio memoriae) e
esquecendo/destruindo outra parte ( danatio memoriae). Em tal
circunstância mais se reforçará o papel das colecções finitas e dos seus
santuários, sejam eles arquivos, sejam eles museus ( arca
memoriae). Luís Raposo Quoting Pedro Manuel Cardoso
< mty@mail.tmn.pt>:
De
que modo afirmações do tipo das que Susanne Kuchler e Edward Felten fizeram
ajudam a repensar a museologia e o património?
?The list, which in previous [art]Installations served as
evidence of an ethnographic method which makes art of other people?s lives,
emerges in Birthday Ceremony as the technique of situating the ethnographic.
Etched into the glass of each cabinet, the list holds our attention and
draws us further into the small world contained within. And suddenly, as if
by chance, we see that what we thought was an artwork ? designed as
installation for and within the abstract context of the gallery environment
? is in fact «the living person personified». As it finds its subject in
objects turned art, ethnography may never be the same again.? (Susanne
KUCHLER, 2000, ?The Art of Ethnography: The case of Sophie Calle?,
p.108)
?Basta
encontrar um bom indexador e um bom sistema de busca para se obter um
Arquivo de tudo. Se a isso se acrescentar boas ferramentas de análise de
dados, então, a descrição do Real poderá ser manipulada. Está prestes o
momento em que em vez de decidirmos o que deve ser arquivado poderemos
arquivar tudo. O armazenamento infinito desafiará a noção de privacidade, e
a própria consciência de si. O nosso rasto jamais desaparecerá. Tudo o que
fizermos permanecerá visível para sempre. Será que precisaremos de um novo
contrato social para gerirmos a memória e o património?? (Edward FELTEN, 2010, ?The End? in Scientific American,
ed. Brasil, número especial)
Perante
evidências destas (umas do lado da reflexividade em ciências sociais, outras
do lado da mudança tecnológica) que amiúde se multiplicam nos textos
académicos, e na experiência de formação dos atuais museólogos/as, apetece
perguntar se na prática (no terreno do trabalho quotidiano nos museus
e no património) tudo ficará igual ao que era? Até que ponto esta nova
consciência mais distanciada e reflexiva sobre a realidade museológica e
patrimonial servirá também para repensar a própria Museologia e o
Património?
Por
exemplo: O que será «património» quando tudo estiver salvaguardado em bases
de dados, e em bases genéticas que permitirão codificar qualquer
materialidade proteica ou celular que se quiser? Terminará o «património»,
ou essa noção transformar-se-á noutra? Que responsabilidade desde já devem
passar a ter os atuais museus, e a política de património de cada Cultura,
de cada Comunidade, e de cada País? Que reforma é necessário fazer já hoje
para acautelar esta mudança? Como será possível transformar esta mudança
numa oportunidade de Desenvolvimento, entendido como o meio de
qualificar as Pessoas e os Territórios? Estaremos preparados para esta
reforma? Quando?
Pedro
Manuel-Cardoso _______________________________________________
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