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Re: [Museum] Repensar a Museologia e o Património?

To :   "MUSEUM" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] Repensar a Museologia e o Património?
From :   "LRaposo" <3raposos@sapo.pt>
Date :   Tue, 20 Nov 2012 17:35:21 -0000

Bem observado, sim senhor.

Como disse antes, penso que tudo e nada equivalem-se.

Mas, se alguma coisa me ficou das angústias filosóficas da juventude foi ter passado no estado adulto a orientar a minha elucidação das ?grandes questões? através de um permanente confronto com a realidade empírica, ou seja a prática da vida. A vida constitui o grande e dirimente guia: por isso me sinto filosoficamente materialista, mas poderia também declarar-me simplesmente humanista, citando Camões: ?A experiência é a mãe de todas as coisa?.

Dou um exemplo, retirado de algo que escrevi em tempos. Qualquer categorização, qualquer selecção de partes dentro de um todo indivisível no limite, qualquer divisão do tempo é anistórica por natureza. Até o dia e a noite constituem categorias arbitrárias do espírito. O que nem por isso quer dizer que ?dia? e ?noite? não existam e não sejam úteis à vida e à percepção que temos do tempo, através do uso da razão e do chamado ?método científico? (cf. abaixo texto exemplar de um dos pais fundadores da arqueologia pré-histórica no século XIX). O mesmo se passa com o apartado de bens, ditos incorporados e inventariados, em colecções de museus ou arquivos.

Revertendo para o caso presente, diria que a angústia do arquivo total apenas pode ter sentido prático, se produzir efeitos paralisantes. Dito de outra forma: apenas incomoda quando o aceno do fantasma do tudo, vise em ultima análise o nada, ou seja, a negação da utilidade social futura do arquivo e do museu.

Ora, pelo contrário, eu penso que quanto mais o tudo for tecnicamente alcançável, fazendo nele sucumbir alguns teóricos mais desligados do real (não outros teóricos, entenda-se, para quem ?não existe nada demais prático do que uma boa teoria?), mergulhando-os no nada, mais o contrato social que justifica a existência de museus e arquivos há-de reforçar-se e reinventar-se, sendo seus celebrantes os práticos, os cidadãos ingénuos e curiosos, simples por natureza, que apenas gostam de recordar memórias (mais ingenuidade e curiosidade são afinal sinónimas de humanidade e dos simples parece ser o reino dos céus, segundo nos dizem) e os profissionais que vivem os museus e os arquivos pelo lado humilde, maravilhoso e sempre refrescante da experiência quotidiana.

Luís Raposo

 

?Os adversários da paletnologia [pré-história] contestam a sua possibilidade de estabelecer uma classificação assente sobre uma base sólida. Segundo eles, não existem divisões sérias. Não somente há passagens e transições entre todas as divisões, mas ainda e sobretudo elas sobrepõem-se; elas não são sincrónicas nos diversos países; elas são mais ou menos longas, segundo as regiões. Tudo isso é verdade, mas estas objecções não adquirem por isso mais valor. Para o demonstrar, bastaria um exemplo. O que existe de mais diferente, de mais distinto, de mais fácil a caracterizar e a reconhecer do que o dia e a noite ? Pois bem, a argumentação dos adversários da classificação prehistórica, se ela tivesse algum valor, conduziria a estabelecer que dia e noite não existem !... Com efeito, entre o dia e a noite existem transições, passagens mais ou menos longas, o crepúsculo e a aurora. O dia e a noite, em vez de serem sincrónicos, sobrepõem-se segundo as regiões e chegam mesmo a ser diametralmente opostos. A sua duração é variável: enquanto é em média de 12 horas entre nós, ela é de vários meses nas regiões polares. E no entanto a divisão do tempo em dias e noites é muito nítida, muito precisa, muito prática. Passa-se exactamente o mesmo com a divisão da paletnologia, em idades, períodos e épocas? (MORTILLET 1883: 20-22) (citado no meu ensaio ?Entre sossegos e angústias: a natureza das periodizações arqueológicas?, Estudos Arqueológicos de Oeiras, nº nº 6, pp. 431-444, Oeiras).

 

 

 

 

----- Original Message -----
Sent: Tuesday, November 20, 2012 3:09 PM
Subject: RE: [Museum] Repensar a Museologia e o Património?


Quanto mais se distanciam do património , as pessoas e as sociedades , mais necessidade têm de patrimonializar tudo . Uma espécie de obsessão patrimonializante de uma realidade que escorre pelos dedos e se esvai como areia seca em dia de vendaval. A marca que se perde _ o deserto em que nos perdemos. 
Nesta vertigem, nesta absoluta ( INFINITA ) falta de escala, onde cabe tudo é um imenso NADA que armazenamos . E ... para quê ? 

isabel Victor 

Date: Tue, 20 Nov 2012 12:09:19 +0000
From: 3raposos@sapo.pt
To: museum@ci.uc.pt
Subject: Re: [Museum] Repensar a Museologia e o Património?


Porque tudo e nada se equivalem, em imagem de espelho, quando tudo puder ser arquivado, quando tudo puder ser memorizado, quando tudo for património, será como se tivéssemos regressado ao tempo em que nada era arquivado, nada era memorizado, nada era património. Ou seja, vencemos o equívoco que nos fez perder demasiado tempo, senão mesmo nos paralisou, dobrados ao peso de comportamentos correctos (politica e farisaicamente falando), e regressamos ao mundo real em que vivemos e no qual tomamos partido todos os dias, actuamos guiados pela praxis e somos chamados à responsabilidade pessoal e socialmente contratada de seleccionar a memória, conservando/renovando/reinventando uma parte (renovatio memoriae) e esquecendo/destruindo outra parte (danatio memoriae). Em tal circunstância mais se reforçará o papel das colecções finitas e dos seus santuários, sejam eles arquivos, sejam eles museus (arca memoriae).
Luís Raposo
 
Quoting Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>:

 

De que modo afirmações do tipo das que Susanne Kuchler e Edward Felten fizeram ajudam a repensar a museologia e o património?

 

?The list, which in previous [art]Installations served as evidence of an ethnographic method which makes art of other people?s lives, emerges in Birthday Ceremony as the technique of situating the ethnographic. Etched into the glass of each cabinet, the list holds our attention and draws us further into the small world contained within. And suddenly, as if by chance, we see that what we thought was an artwork ? designed as installation for and within the abstract context of the gallery environment ? is in fact «the living person personified». As it finds its subject in objects turned art, ethnography may never be the same again.? (Susanne KUCHLER, 2000, ?The Art of Ethnography: The case of Sophie Calle?, p.108)

 

?Basta encontrar um bom indexador e um bom sistema de busca para se obter um Arquivo de tudo. Se a isso se acrescentar boas ferramentas de análise de dados, então, a descrição do Real poderá ser manipulada. Está prestes o momento em que em vez de decidirmos o que deve ser arquivado poderemos arquivar tudo. O armazenamento infinito desafiará a noção de privacidade, e a própria consciência de si. O nosso rasto jamais desaparecerá. Tudo o que fizermos permanecerá visível para sempre. Será que precisaremos de um novo contrato social para gerirmos a memória e o património?? (Edward FELTEN, 2010, ?The End? in Scientific American, ed. Brasil, número especial)

 

Perante evidências destas (umas do lado da reflexividade em ciências sociais, outras do lado da mudança tecnológica) que amiúde se multiplicam nos textos académicos, e na experiência de formação dos atuais museólogos/as, apetece perguntar se na prática (no terreno do trabalho quotidiano nos museus e no património) tudo ficará igual ao que era? Até que ponto esta nova consciência mais distanciada e reflexiva sobre a realidade museológica e patrimonial servirá também para repensar a própria Museologia e o Património?

 

Por exemplo: O que será «património» quando tudo estiver salvaguardado em bases de dados, e em bases genéticas que permitirão codificar qualquer materialidade proteica ou celular que se quiser? Terminará o «património», ou essa noção transformar-se-á noutra? Que responsabilidade desde já devem passar a ter os atuais museus, e a política de património de cada Cultura, de cada Comunidade, e de cada País? Que reforma é necessário fazer já hoje para acautelar esta mudança? Como será possível transformar esta mudança numa oportunidade de Desenvolvimento, entendido como o meio de qualificar as Pessoas e os Territórios? Estaremos preparados para esta reforma? Quando?

 

Pedro Manuel-Cardoso





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