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Re: [Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis".

To :   "MUSEUM" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis".
From :   "LRaposo" <3raposos@sapo.pt>
Date :   Fri, 1 Feb 2013 14:58:00 -0000

Caro Pedro Manuel Cardoso,
 

Li com toda a atenção o seu contributo abaixo, que vem realmente esclarecer muito melhor a sua posição.

Sugiro-lhe vivamente que, para além da Conferência de Abril, participe também no painel de 16 de Março, onde este tipo de matéria tem todo o cabimento, neste caso na sua vertente prática, ou seja, das modalidades de organização do aparelho de Estado em relação aos museus e ao património cultural.

Por mim, continuo a considerar que museus e património cultural têm fortes ligações, mas constituem também realidades sociais e orgânicas diferentes, devendo ser tratadas como tal.

Pelo que vejo, concordamos ambos com esta avaliação, embora porventura não a radiquemos no mesmo tipo de considerandos.

Quero com isto dizer que eu não partilho da sua posição de que a musealização constitui uma espécie de "despatrimonialização". Entendo que, mais do que lugares de descontextualização (e nesse sentido de ?despatrimonialização?) os museus são lugares de recontextualização (e de ?repartrimonialzação?). E são-no não somente por parte de umas comunidades (mais letradas, urbanas ou coloniais, se quiser), "apropriando-se" dos bens gerados por outras, que assim se vêm deles desapossadas, mas são-no também por parte das comunidades "originais". De resto, o "nós" e o "outro" encontram-se dialéctica e inexoravelmente ligados entre si, já que é pela confrontação entre ambos que ambos se definem.

Por aqui passa, por exemplo, todo o drama da museologia etnológica. Frequentemente, esses museus reúnem objectos feitos expressamente para encerrar em museus e não para uso efectivo. E tal é feito não somente por agentes exteriores às comunidades que os produzem, verdadeiros respigadores (sejam eles movidos apenas por espírito estético-comercial e  coleccionista, seja por auto-justificantes racionalismos científicos, que a si mesmos os levem a chamar de ?antropólogos? e ?investigadores?), mas é igualmente feito pelas comunidades originárias, elas próprias, que no confronto com o outro melhor valorizam os seus objectos, a ponto de os produzirem ?apenas? para venda a turistas ou... para museu, inclusive o museu deles mesmos, que orgulhosamente exibem na sua aldeia.

Donde: o museu é decididamente uma forma de patrimonialização.

Mas bem diferente dos monumentos, sítios e lugares. Repito que assim o considero tanto do ponto de vista conceptual (conforme sugeri nas linhas anteriores), como do ponto de vista sociológico. Quanto a este basta olhar para as estatísticas de visitantes em Portugal, referentes ao ano de 2012 e ontem divulgadas. Para além de um decréscimo muito sensível de 1 milhão de euros ( !!!) nas receitas (situação que só se tenderá a agravar quanto mais o pseudo-liberalismo dos mercados, agressivamente agora vigente entre nós, aplicar o princípio de que tudo o que pode dar receita se destina a gestão privada e tudo o que só pode dar prejuízo, se destina a gestão pública), o que impressiona mais é a manutenção, e mesmo reforço dada a crise por que passamos, da diferente estrutura de públicos de monumentos e de museus. Arriscaria até dizer que, se não forem levantadas barreiras indecorosas à visita dos museus pelos cidadãos nacionais (como as do aumento de preços de entradas), a referida estrutura vai continuar a acentuar-se, porque apenas duas grandes instituições culturais se mantém hoje, como foram herdadas da Revolução Francesa: a escola e o museu, sendo nos momentos de crise que melhor se avalia a afeição das populações a ambas.

Luís Raposo

Presidente do ICOM Portugal

----- Original Message -----
Sent: Thursday, January 31, 2013 6:55 PM
Subject: [Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis".

Ao aproximar-se o importante momento que o ICOM Portugal nos irá proporcionar, no início de Abril, com a Conferência ?Public Policies Toward Museums in Times of Crisis?, permitam um texto longo, seguido de uma Segunda Mensagem.

Num comentário anterior (mensagem nº 8469, 30Nov2012) fui criticado pela afirmação de que, em certa medida, «os museus se tinham apropriado ilegitimamente do património». De facto, tomada à letra, essa afirmação parecia radical, e até, um acto contra os museus. Concordo que sem uma explicação adicional, assim pareceu. E a crítica foi justa.

Porém, o que pretendi sinalizar foi a necessidade de separar duas responsabilidades, que são de domínios diferentes: a gestão do património; e a gestão da infraestrutura-museu. E de que a permanência dessa confusão limitava as possibilidades/soluções das Políticas Públicas.

Ao fazer aquela afirmação referia-me a uma situação concreta. À constatação de que muito património existente nos acervos dos mais prestigiados museus do mundo foi obtido de modo coercivo, sem autorização das comunidades, retirado de uma situação em que era vivido e estava contextualizado. Razão pela qual hoje há tantos pedidos de devolução, e tantas relações dolorosas por causa disso. Nesse sentido o Museu foi um instrumento de uma Política (tacitamente aceite por todos) que ajudou a destruturar a possibilidade de um Roteiro Genuíno do Património (local, regional, mundial) e de uma Gestão Sustentável da Despesa que agora dá. E, nesta perspetiva, agora distanciados no tempo, podemos ter consciência de um caminho que todos fizemos sem talvez dele nos termos apercebido. A questão é apenas essa. De talvez ser necessário agora equilibrar esse excesso. Não de passar para o lado contrário, defendendo o fim dos museus. Apenas, no que respeita à futura Política Pública, ter em consideração as consequências que esse excesso de protagonismo do Museu em desfavor do Património nos coloca agora.

Para ajudar a corroborar este argumento, que é também o desenlace contemporâneo do destino dos museus, socorro-me de uma autora bastante conhecida. Em 1998, Barbara Kirshenblatt-Gimblett olhou para os edifícios que coexistiam numa qualquer cidade e fez a lista das funções/usos pelas quais a indústria/a economia/o mercado os desejavam. E confrontou os museus com essa concorrência, fazendo-lhes a provocação de terem que passar a competir com essas funções se quisessem sobreviver. Ouçamos, então, naquilo que os museus teriam que se transformar para conseguirem sobreviver:

?O que é o Museu hoje?

-Um mausoléu, na tradição do Schatzkammer;

-Uma Catedral da Cultura, onde os cidadãos encenam rituais cívicos em prol da arte e da civilização como nos santuários;

-Uma escola para a criação de uma cidadania informada, que serve a grupos escolares, ou a adultos para uma aprendizagem ao longo da vida;

-Um laboratório para a criação de novos conhecimentos;

-Um centro cultural para a manutenção e a transmissão do património;

-Um fórum para debate público, onde temas polémicos podem ser submetidos a informação e discussão;

-Um tribunal sobre o bombardeamento de Hiroshima, sobre as teorias de Freud, ou sobre a negação do Holocausto;

-Um teatro, um palácio da memória, um palco para a promulgação de outros tempos e lugares, um espaço de mediação, de fantasia, e dos sonhos;

-Uma festa, onde podem ser comemorados as  grandes conquistas e momentos históricos;

- Um lugar para a preservação e conservação, ou para a defesa do repatriamento, da soberania ou da tolerância;

-Um lugar para chorar;

-Um artefato que se exibe a si mesmo, conseguindo com isso contar a história do que lhe está associado num contexto mais vasto de que ele faz parte;

-Uma atração no contexto da economia turística, com cafés, lojas, filmes, performances, exposições ?" (Kirshenblatt-Gimblett, 1998:138)

 

Este Tudo-nos-Museus já tinha sido anunciado muito antes, em 1981, na célebre frase de Guy Bleus ?the man is the museum of all things?. Mas, voltando à questão inicial, este estado-das-coisas só confirma a constatação que fiz de que será necessário no futuro separar com mais clareza a responsabilidade pela gestão do património da gestão do edifício-museu. E devolver ao Território e às Comunidades algum do património que está nos museus. Devolvendo-o à possibilidade de uma contextualização e de uma interpretação mais adequadas à gestão da sua preservação e usufruto. Há património que necessita se ser outra vez habitado pelas Pessoas, para que tenha viabilidade económica. Trata-se de aceitar que talvez seja necessária uma Reforma e uma Reorganização, em que os museus e o património cooperem de um modo diferente. Simplesmente, para haver um futuro melhor para o Património dentro do dinheiro disponível.

Até porque, hoje mesmo, aqueles que diziam que havia museus a mais vieram anunciar um novo na Boa-Hora. O que mostra a pujança do Museu sobre quaisquer outras ideologias.

Pedro Manuel-Cardoso

 

 


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