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[Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis"

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis"
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Fri, 1 Feb 2013 15:44:23 +0000

Caro Luís Raposo,

 

Agradeço o diálogo. É um acto que intencionalmente nos damos à partilha de todos, neste magnífico espaço público que o Prof. José d’Encarnação nos concede. E estou de acordo com muito do que referiu.

No entanto, esse excessivo peso do Estado herdado da Revolução Francesa foi um dos principais responsáveis por um centralismo que sufocou em demasia a dinâmica das Pessoas e das Comunidades. Foi responsável pela construção de um determinado tipo de relação entre a patrimonização e a musealização. Os «museus, monumentos, e sítios nacionais», e a despesa que dão, são o fruto dessa ideologia vertical e normalizadora. Enquanto havia dinheiro para sustentar essa utopia do Estado-Central tudo corria bem, e até parecia «natural» (isto é, que não era uma ideologia). Os museus recolhiam o património, e tornavam-se «emissores da mensagem». Razão pela qual ainda hoje chamam às Pessoas «visitantes», e até lhes fazem estatísticas para medir essa concepção de sucesso.

A história daquilo que as comunidades humanas patrimonizaram para legarem aos vindouros não começa na Revolução Francesa, como os nossos amigos da Europa Central gostariam que fosse. Neles há sempre esse desejo de poder e de apropriação, que os faz desejar essa data-de-começo para ser fácil a construção de uma “Identidade Comum”. Começa muito antes, com o próprio processo de hominização. Porque a relação entre a Memória e a Cognição sempre foi um trabalho museológico imprescindível à possibilidade de nos termos tornado «humanos». O museu seja grandioso, como nas capitais imperiais do colonialismo, ou pequeno, como uma casa de vime na Amazónia, ambos podem proporcionar um património tão ou mais valioso. O edifício-museu, muitas vezes, não é senão um sinal de vaidade e de ostentação.

A Reforma e a Reorganização que é necessário fazer, em termos práticos, deverá começar exatamente por pôr fim a esse gigantismo e a esse enorme “aparelho de Estado”, sufocante para sustentabilidade das Pessoas e das Comunidades. Os museus filhos da Revolução Francesa possuem essa marca. São de um determinado Tipo. Concebem-se a si próprios como emissores ou guardadores do património que os outros têm que «visitar». Chamam às Pessoas e às Comunidades «visitantes». Armam-se em donos daquilo que não lhes pertence, nem de que foram autores. É nesse sentido que se dá a tal apropriação ilegítima de que falei.

Mas coloquemos esta nova maneira de fazer museologia, e esta nova orientação reformadora, na prática. Olhemos para um exemplo concreto.

Hoje mesmo, dia 1 de Fevereiro, no n.º 96 da Rua Augusta em Lisboa, na Galeria Millennium BCP, abre um espaço sobre o Património de Lisboa desde o século XVIII à atualidade (designa-se “Baixa em Tempo Real”, e é da responsabilidade do Departamento de Museologia da Universidade Lusófona, coordenado pela Professora Judite Primo). Nesse edifício o Património entra de um modo diferente, e está disponível de uma forma muito diferente dessa concepção Francesa. O espaço-museu não ambiciona possuir ou trazer para dentro de si a materialidade do património que é vivido pelas pessoas e pela comunidade. Lá estará o “verso e reverso do Património da Baixa” (pelo olhar fotográfico de Sérgio Jacques); “os modos de namorar na Baixa (pela designer Luísa Costa e pelo escritor Rui Zink); “os caminhos de desejos no centro da Cidade” (num Laboratório de Museologia e Urbanismo coordenado pela Historiadora da Arte e Museóloga, Gabriela Cavaco); as “evidências arqueológicas do terramoto de 1755 no centro de Lisboa” (pelo Arqueólogo e Museólogo, Mário Antas); as “Músicas da Baixa” (apresentadas por Claire Hognhisbaum e Rita Machado); “A cartografia das memórias e poética do espaço” & “Subjectivamente falando com gente da Baixa” (pelo Historiador e Museólogo, Pedro Pereira Leite, e pela Socióloga e Museóloga, Isabel Victor); a “Baixa Esquecida” (pela Historiadora, Isabel Castro Henriques, e pelo Professor Henrique Pinto); e ainda “o património da Baixa descoberto pela lente da câmara de João Antero Ferreira” (Professor do Departamento de Cinema e Multimédia da ULHT).

Como referi, o museu continua a ser imprescindível, mas agora actua como dinamizador de um Roteiro Genuíno do Património.

E quanto ao custo financeiro consegue, por causa dessa concepção diferente, pagar-se a si próprio, criando a tal possibilidade que referi de uma Gestão Sustentável da Despesa que agora dá. Exatamente porque as pessoas e as comunidades não foram despojadas do património. Continuam a habitá-lo. E o Museu, em relação ao Património, é quem pede: «por favor».

Se fosse o Estado a fazer o mesmo não chegavam milhões, e ainda estaríamos à espera. Não porque as pessoas fossem piores, ou soubessem menos, mas porque é necessário em termos práticos fazer duas coisas: primeiro, apostar nos excelentes profissionais que trabalham no Estado em vez de os amesquinharem e desprestigiarem; e em segundo lugar, no que se refere ao património, reformar e reorganizar o funcionamento do Estado através de uma nova perspetiva de patrimonização e de musealização que volte a dar oportunidades à iniciativa privada dos que não são funcionários públicos.

Pegando na sugestão de Luís Raposo, sobre o Painel de 16 de Março, talvez este exemplo prático fosse interessante para servir de estudo-de-caso para a tal reflexão sobre as “modalidades de organização do aparelho de Estado em relação aos museus e ao património cultural”.

As «crises» talvez sejam o melhor momento para termos coragem de fazermos as reformas.

Um agradecimento muito especial a Luís Raposo.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 


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