Eu sou historiador, dizem os senhores arqueólogos.
Ora, ainda bem. Mal irá a arqueologia quando de todo perder as suas referências à história.
Se a arqueologia e a condição de arqueólogo impõem como requisito a prática da escavação, todos sabem que a rejeitei sempre por princípio. Os arqueólogos que conviveram comigo sabem que eu sempre alertei para o facto de esse requisito poder ditar complexos itinerários.
Todavia, acompanho exaustivamente, como historiador, a prática dos arqueólogos. Leio os seus trabalhos, os seus relatórios quando os há, penso muito sobre os itinerários de raciocínio que se trilham da escavação para as deduções, sobre a escolha dos lugares que se escavam e suas razões, interrogo exaustivamente os bonecos, tento compreender porque são assim e não de outra forma. Enfim, trespasso as noites solitárias em diálogo, ou monólogo, com os arqueólogos e sou seu confidente.
Recordo-me ainda de ter dois anos. Recordações sempre difusas. Mas nunca faltam as caminhadas pela torreira do sol, que começavam pela mão e acabavam sempre às cavalitas do meu pai, para a Lomba do Canho.
Recordo-me que, ao fim da tarde, o meu pai exalava o mesmo perfume acidulado a suor, matos e terra que exalava o Senhor Leonel, uma espécie de cantoneiro encarregue da Lomba do Canho, que me parecia que nascera com uma enxada nas mãos. Nenhum dos senhores arqueólogos consideraria o Senhor Leonel um arqueólogo. Pessoalmente, tive sempre a sensação de que era um historiador.
Bem, isto só para dizer que, não sendo arqueólogo, conheço a arqueologia de ginjeira.
Nunca deixei de ver em meu redor os arqueólogos a conspirarem uns contra os outros. Utilizando os mais baixos estratagemas.
A origem de tal etologia foi sempre a necessidade de escavar, fosse por que preço fosse. Não estou a falar ainda do vil metal. Mas da vã glória.
Sempre imaginei que a arqueologia chegaria a este estado. Acompanho as diatribes que se escrevem acerca do eufemismo ‘’arqueologia de contrato’’ e está tudo dito.
Os arqueólogos conseguiram o que queriam. Não respondem já por nada, nem pelos critérios da obra, nem pelo que foi necessário fazer ao próximo para a adjudicar. Quem responde agora é o dono da obra. ‘’Noblesse en impose’’.
Não sou arqueólogo, sou historiador. Do meu camarote observo os arqueólogos. Mas a localização do meu camarote concede-me um alcance até aos camarins.
Como sou um sujeito cordato, habituei-me a ouvir os arqueólogos em confissão. Isso concede-me também um alcance peculiar na leitura dos trabalhos. Por vezes leio o que não foi escrito.
Mas não era meu objectivo falar sobre mim. O meu objectivo era falar acerca dos arqueólogos.
Os melhores arqueólogos que conheci foram aqueles que, sem escrúpulos, conseguiram trucidar tudo e todos em seu redor. Com discrição, falinhas mansas e sussurros.
Nunca ouvi um arqueólogo dizer mal de outro arqueólogo. Ouvi sempre dizer que outro arqueólogo tinha dito e contado, etecetera e tal, está-se a ver.
Na arqueologia as coisas só parecem ir bem mediante um contrato, um pacto de não agressão que congrega todos os arqueólogos em torno de um compromisso. Não se pode falar sobre assuntos nevrálgicos, a não ser que a maioria esteja de acordo acerca do carneiro para levar ao matadouro.
Mesmo assim, todos devem concentrar as suas atenções na árvore e evitar um olhar de relance sobre a floresta.
Esta reflexão irá fluindo. Ela tem, devo admiti-lo e ressalvá-lo, um contexto preciso. Tenho por hábito encerrar segredos no meu cofre. Malogradamente. Se assim não fosse, esta reflexão sairia a público sem contexto, um dia, como exercício de mera disciplina.
Por isso, encerro esta introdução colocando esta questão.
Imaginai que, sem mais, um arqueólogo com noventa anos, todavia vivo e senhor das suas capacidades, sabia pelos jornais que a estação arqueológica onde investira décadas do seu empenho e dedicação, abandonada há mais de duas décadas, ia ser objecto de novas campanhas, para por a descoberto o que se encobria por desleixo. Que as novas campanhas decorriam de um protocolo entre a universidade onde iniciara a sua formação académica e se doutorara e a câmara municipal que descurou em absoluto o assunto. Que o anúncio desta conjura coincidia, na prática, com a abertura da campanha eleitoral para as eleições autárquicas. E que de tudo não houvera sequer o cuidado e consideração de o anunciar previamente.
Acrescente-se que a estação da Lomba do Canho foi o campo de tirocínio de muitos arqueólogos proeminentes.
Não seria de lamentar que arqueologia se tenha tornado assim velhaca e vil?
É que, entre a câmara municipal e a universidade, havia uma arqueóloga que aceitava o papel grosseiro de passar por cima de tudo.
Aos mais jovens apenas alerto: Ponderai bem sobre o modelo de prática arqueológica e relacional que vos inculcaram e transmitiram.
E vou alegar de seguida que a dita ‘’arqueologia de contrato’’ não é arqueologia alguma. Vou contar-vos a história dos arqueólogos formatados pela ‘’arqueologia de emergência’’.
Mal da arqueologia que não for vigiada pela história e pelo pensamento social e humano.
| Mensagem anterior por data: [Museum] CAIXA DE PANDORA | 25 de MAIO 17h00 | MMP-CVF | Próxima mensagem por data: [Museum] A Poesia anda por aí... Paço da Serra d'El-Rei - 25 maio, 21h30 |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] European Museum of the Year Award 2012 - Nominations. | Próxima mensagem por assunto: [Museum] expo NACIONAL e ULTRAMARINO - uma parceria MUDE e FRESS |