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Re: [Museum] Resposta de RHS a propósito do caso Crivelli

To :   "MUSEUM" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] Resposta de RHS a propósito do caso Crivelli
From :   "LRaposo" <3raposos@sapo.pt>
Date :   Fri, 7 Jun 2013 14:56:15 +0100

Faço totalmente minhas as considerações da Ana-Paula Amendoeira. A resposta da Profa. Raquel Henriques da Silva é exemplar e deveria passar a ter valor antológico. Ela só mostra como o que conta não é a extensão dos textos, mas sim a clarividência das ideias e, permita-se acrescentar, aqui mais subjectivamente, a elevação e generosidade dos propósitos.
Luís Raposo
obs - para que tudo fique mais claro aos membros da lista permito-me incluir em anexos os textos citados, nas versões publicadas em papel.
----- Original Message -----
To: Museum
Sent: Friday, June 07, 2013 1:36 PM
Subject: [Museum] Resposta de RHS a propósito do caso Crivelli

Caros Colegas da rede Museum

Já a carta do Dr. Luís Raposo publicada há dias no Público sobre o caso Crivelli, levantava as questões fundamentais, às quais, num país com uma administração pública digna desse nome, esta teria respondido antes mesmo de ser questionada. Aqui continuamos sem saber o que se passou.
Hoje, a resposta da Professora Raquel Henriques da Silva ao artigo de João Miguel Tavares publicado ontem no mesmo jornal, é fundamental para percebermos muito rapidamente a diferença insanável que existe entre uma visão civilizada e culta dos valores e do interesse público, e um entendimento tão fundamentalista da propriedade e da iniciativa privadas, que ignora até as leis em vigor para sustentar, de forma um pouco taliban, o direito absoluto de Pais do Amaral, que ele aliás exerceu porque para isso foi, talvez ilegalmente, autorizado pelo Estado.
Considero esta resposta de verdadeiro interesse público e por isso tomo a liberdade de a divulgar. Os pontos prévios são imperdíveis.

Obrigado pela atenção
Ana Paula Amendoeira

Respondo à resposta de João
Miguel Tavares ( J.M.T.) na sua crónica de 6 de Junho. Tendo que
ser sintética, há, ainda assim, dois brevíssimos pontos prévios.
1. O destaque dado pelo
PÚBLICO ao caso da exportação, talvez ilegal, da pintura de
Crivelli enche-me o coração e consolida o acto da compra
diária do jornal. Apesar da alarmante perda de qualidade,
é o único órgão de comunicação em Portugal que tem (ainda?)
jornalistas para a área da cultura e que são muito boas.
2. A crónica de J.M.T. provocou-me uma estranha impressão: num tempo em que
as diferenças entre esquerda e direita são tão ténues, confirmei
que sou de esquerda. Não trompe l’oeil como ele diz, em
desnecessária chicana, mas com a convicção que a coisa
pública existe, tem razão de ser e deve ser defendida. Sobretudo
quando se trata de heranças culturais.
Passo à resposta dele: ‘A verdade é que o país não tem
coisíssima nenhuma. O Crivelli é de Pais do Amaral.’
Para apoiar tão convicta “verdade”, J.M.T. cita o artigo 62º
da Constituição Portuguesa que garante o direito à propriedade
privada. Mas a verdade é que a Lei de Bases do Património
Cultural, de 2001, foi aprovada, por unanimidade, na Assembleia
da República e não está ferida de inconstitucionalidade.
Ora, ela enuncia e regula o direito do Estado para reduzir
drasticamente os direitos à propriedade, em defesa de
patrimónios que, mesmo sendo propriedade privada,
têm elevado valor cultural. É nesta civilizada lei (que, com
nuances diversas, existe em todos os países da Europa) que
me fundamentei para considerar que Portugal tinha e devia
continuar a ter um Crivelli. Ele é agora (ainda será?) de quem o
comprou para o vender logo a seguir, como antes fora, durante
quase dois séculos, de uma família açoriana e, antes dela, de
sei lá de quantos proprietários de que gostaríamos de saber o
nome, só para sabermos mais sobre Crivelli.
Como é possível amesquinhar com tanta leviandade a energia
do capital simbólico perante a efemeridade ferida de morte do
dinheiro? As famílias italianas que permitiram a Crivelli
criar são sombras, e se delas guardamos memória é por
terem sido mecenas dele. Só por isso um papa como Júlio II me
interessa. Não foi ele que criou Miguel Ângelo, antes este que lhe
garantiu a glória da encomenda. E Calouste Gulbenkian, pouco mais
de meio século após a sua morte, é definitivamente um museu.
A salvaguarda e valorização dos capitais simbólicos é um
traço constitutivo da cultura europeia. Precisa de ser
alimentado pelas políticas públicas e pela generosidade
cívica. Coisas essenciais de que somos muito carentes, como
prova a presente história. Nota final: o à-vontade com
que J.M.T. se me dirige, permite--me que lhe deixe um conselho,
um bocado professoral. Precisa de estudar a cultura das
vanguardas russas das duas primeiras décadas do século XX.
E, como deve calcular, não é por causa dos “cartazes de Estaline”.
Raquel Henriques da Silva professora de História da Arte





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