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Faço totalmente minhas as considerações da
Ana-Paula Amendoeira. A resposta da Profa. Raquel Henriques da Silva é exemplar
e deveria passar a ter valor antológico. Ela só mostra como o que conta não
é a extensão dos textos, mas sim a clarividência das ideias e, permita-se
acrescentar, aqui mais subjectivamente, a elevação e generosidade dos
propósitos.
Luís Raposo
obs - para que tudo fique mais claro aos membros da
lista permito-me incluir em anexos os textos citados, nas versões
publicadas em papel.
----- Original Message -----
Sent: Friday, June 07, 2013 1:36 PM
Subject: [Museum] Resposta de RHS a
propósito do caso Crivelli
Caros Colegas da rede Museum
Já a carta do Dr. Luís Raposo
publicada há dias no Público sobre o caso Crivelli, levantava as questões
fundamentais, às quais, num país com uma administração pública digna desse
nome, esta teria respondido antes mesmo de ser questionada. Aqui continuamos
sem saber o que se passou. Hoje, a resposta da Professora Raquel Henriques
da Silva ao artigo de João Miguel Tavares publicado ontem no mesmo jornal, é
fundamental para percebermos muito rapidamente a diferença insanável que
existe entre uma visão civilizada e culta dos valores e do interesse público,
e um entendimento tão fundamentalista da propriedade e da iniciativa privadas,
que ignora até as leis em vigor para sustentar, de forma um pouco taliban, o
direito absoluto de Pais do Amaral, que ele aliás exerceu porque para isso
foi, talvez ilegalmente, autorizado pelo Estado. Considero esta resposta de
verdadeiro interesse público e por isso tomo a liberdade de a divulgar. Os
pontos prévios são imperdíveis.
Obrigado pela atenção Ana Paula
Amendoeira
Respondo à resposta de João Miguel Tavares (
J.M.T.) na sua crónica de 6 de Junho. Tendo que ser sintética, há, ainda
assim, dois brevíssimos pontos prévios. 1. O destaque dado pelo PÚBLICO
ao caso da exportação, talvez ilegal, da pintura de Crivelli enche-me o
coração e consolida o acto da compra diária do jornal. Apesar da alarmante
perda de qualidade, é o único órgão de comunicação em Portugal que tem
(ainda?) jornalistas para a área da cultura e que são muito boas. 2. A
crónica de J.M.T. provocou-me uma estranha impressão: num tempo em que as
diferenças entre esquerda e direita são tão ténues, confirmei que sou de
esquerda. Não trompe l’oeil como ele diz, em desnecessária chicana, mas com
a convicção que a coisa pública existe, tem razão de ser e deve ser
defendida. Sobretudo quando se trata de heranças culturais. Passo à
resposta dele: ‘A verdade é que o país não tem coisíssima nenhuma. O
Crivelli é de Pais do Amaral.’ Para apoiar tão convicta “verdade”, J.M.T.
cita o artigo 62º da Constituição Portuguesa que garante o direito à
propriedade privada. Mas a verdade é que a Lei de Bases do
Património Cultural, de 2001, foi aprovada, por unanimidade, na
Assembleia da República e não está ferida de inconstitucionalidade. Ora,
ela enuncia e regula o direito do Estado para reduzir drasticamente os
direitos à propriedade, em defesa de patrimónios que, mesmo sendo
propriedade privada, têm elevado valor cultural. É nesta civilizada lei
(que, com nuances diversas, existe em todos os países da Europa) que me
fundamentei para considerar que Portugal tinha e devia continuar a ter um
Crivelli. Ele é agora (ainda será?) de quem o comprou para o vender logo a
seguir, como antes fora, durante quase dois séculos, de uma família
açoriana e, antes dela, de sei lá de quantos proprietários de que
gostaríamos de saber o nome, só para sabermos mais sobre Crivelli. Como
é possível amesquinhar com tanta leviandade a energia do capital simbólico
perante a efemeridade ferida de morte do dinheiro? As famílias italianas
que permitiram a Crivelli criar são sombras, e se delas guardamos memória é
por terem sido mecenas dele. Só por isso um papa como Júlio II
me interessa. Não foi ele que criou Miguel Ângelo, antes este que
lhe garantiu a glória da encomenda. E Calouste Gulbenkian, pouco mais de
meio século após a sua morte, é definitivamente um museu. A salvaguarda e
valorização dos capitais simbólicos é um traço constitutivo da cultura
europeia. Precisa de ser alimentado pelas políticas públicas e pela
generosidade cívica. Coisas essenciais de que somos muito carentes,
como prova a presente história. Nota final: o à-vontade com que J.M.T.
se me dirige, permite--me que lhe deixe um conselho, um bocado professoral.
Precisa de estudar a cultura das vanguardas russas das duas primeiras
décadas do século XX. E, como deve calcular, não é por causa dos “cartazes
de Estaline”. Raquel Henriques da Silva professora de História da
Arte
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