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Acerca ainda
de uma pintura a óleo sobre tela, representando o Rei Filipe IV de Espanha ‘’a
caballo’’, importa dizer o seguinte. Em Portugal,
apesar de tudo, sabe-se tanto quanto em Espanha, reconhecendo todavia que a
sede de conhecimento mais aprofundado sobre Velázquez, especificamente, deve
ser o Prado. Os meios de
documentação são todavia neutros, não se comportam com Velazquez, por afecto,
de forma diferente da com que se comportam com qualquer outro pintor. Na
realidade, os meios de documentação, nomeadamente os laboratoriais, não
identificam autores, identificam materiais, procedimentos, cronologias. O único meio
laboratorial que conheço capaz de identificar imediatamente um autor, sem
necessidade de qualquer outro meio auxiliar, é o olhar ‘’clínico’’ da Directora
do Gabinete de Documentação do Museu do Prado. Por isso,
deixo aqui esta questão. Não para a técnica do Prado, porque já lha coloquei
vezes sem conto, mas ela faz de contas que não entende.
O retrato
equestre de Filipe IV pintado por Velázquez em 1635, hoje no Prado, é talvez
das pinturas de Velazquez que suscitou mais interrogações. O que está em causa
são os espectros visíveis de vários episódios que terão ocorrido por baixo da
película pictórica visível, na opinião canonicamente corrente resultado do
restauro da pintura em 1640, depois do incêndio que a vitimou. O cavalo que o
Rei monta tem mesmo quatro patas visíveis, para lá de muitas outras coisas. As
linhas de serzidura da tela quando lhe foram acrescentadas duas bandas laterais
também são claramente visíveis. No seu
primeiro estudo sobre Velazquez, em que recorre e apresenta a panóplia de meios
laboratoriais e documentais que o Prado pode mobilizar, Cármen Garrido publica
um radiografia do retrato equestre o Prado. Espantoso!!!!
Se uma radiografia daquelas tivesse sido recolhida de uma pintura portuguesa, o
quadro entraria de imediato na sala de autópsias e seria de imediato dissecado. Cármen
Garrido não consegue explicar a radiografia. Mas o certo é que nunca realizou
ou nunca publicou uma estratigrafia clara e elucidativa da pintura. Que
identifique a preparação do suporte (tela), a ordem de sobreposição das camadas
pictóricas e respectivos pigmentos. Seria uma operação corrente, fácil, barata
e ao alcance de qualquer museu provincial português. Pela mesma
razão, Cármen Garrido nunca se pronunciou sobre este esboço, agora revelado, a
não ser oralmente e numa pronúncia breve. É uma cópia do retrato do Prado. Recusou-se
sempre a observar a documentação, ou declarou-o sempre. É óbvio.
Porque a leitura e observação da documentação relativa a este esboço lhe
ditaria o imperativo incontornável de proceder a um estudo coerente do retrato
do Prado. Porque a
maior importância deste esboço não está em ser ou não da autoria de Velazquez.
Mas em esclarecer o que estava por compreender no que respeita ao paradeiro do
retrato de 1625 e às perturbações visíveis, a olho nu, no retrato de 1635. Pelo que
diria que, no estado actual da questão, o único argumento que poderia contestar
a autoria de Velazquez para o esboço agora revelado seria a apresentação de um
estudo coerente, incluindo estratigrafias, do retrato do Prado. Com
equivalência à profundidade dos estudos e exames com que este esboço foi
apresentado a Cármen Garrido e ao Prado em 2007. Mas Cármen
Garrido é Directora do Gabinete Técnico do Museu do Prado. Não é portuguesa. Tenham
paciência. As instituições espanholas que tutelam o património vivem também de
compromissos silenciosos. Perdoem. Mas
por mim esta pintura ia direitinha para uma venda de garagem em Paris ou
Londres. Já estou farto dela!!!!! Manuel. Em anexo, cópia da radiografia do retrato equestre de Filipe IV, 1635,
Velazquez, no Prado. Fonte: Garrido, Carmen, ''Velázquez, técnica y
evolución'', Madrid, Prado, 1985, pg 31.
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