O cavalo branco do imperador.
As duas pinturas que reproduzimos em baixo, ‘’O fabrico de pólvora’’ e ‘’O fabrico de balas’’, de Francisco Goya, integram o espólio móvel do Palácio de La Zrazuela, ou Palácio Real de Madrid, e o seu estatuto de propriedade condensa-se na formulação Património Nacional, como de resto o próprio palácio, adstrito todavia ao uso como residência do chefe de estado espanhol e sua família.
O estatuto de propriedade destas duas pinturas, como o de todas as obras que constituem as ‘’Colecciones Reales’’, ficou consignada na Lei 23 de 16 de Junho de 1982, reguladora do Património Nacional, aqui reproduzida, para todos ‘’que la vieren y entendieren’’.
http://www.patrimonionacional.es/sites/default/files/ley-23-82-consolidado.pdf
Estas duas pinturas, unanimemente atribuídas a Francisco Goya e jamais contestadas, vão servir-nos em breve para nos orientar numa reapreciação dos critérios a que recorreu Manuela Mena e a sua equipe do Gabinete Técnico do Museu do Prado para excluírem arbitrariamente da autoria de Goya o Colosso. Chamamos desde já a atenção do leitor para vários aspectos particulares na composição de ‘’O fabrico de balas’’, nomeadamente para a implantação das duas árvores de grande porte que definem um plano intermédio entre o tema narrativo específico e o plano de fundo da paisagem, a impressão colossal que transmitem, como se tivessem artificialmente sido transportadas do primeiro plano para um segundo, num ambíguo artifício, para dar lugar à implantação da narrativa.
Para mais, um detalhe que figura na base de implantação da árvore mais próxima, que sugere sem ambiguidade um casario ou povoação espraiada na planície, permite mesmo conjecturar que a intenção do pintor não foi contínua e que adicionou o fundo paisagístico alterando toda a estrutura da composição.
Voltaremos a esta questão.
O objectivo desta nota é congratularmo-nos com o que, em nosso entender, é o maior acontecimento cultural do Século XXI em Portugal, no que respeita à divulgação da arte antiga.
Cento e quarenta e uma obras provenientes do magnífico espólio de ‘’Las Colecciones Reales’’ de Espanha estão em Portugal e podem ser admiradas na Fundação Calouste Gulbenkian.
Consterna-nos, todavia, a retórica que um deprimente ‘’status’’ cultural vigente engendrou para as apresentar. E não podemos deixar de o notar sinteticamente.
Conta-se acerca do imperador romano Calígula que tinha um cavalo que, entre outras extravagâncias, foi investido na dignidade de senador e se preparava para ser investido no consulado e talvez suceder no império.
É pois um soberbo cavalo branco pintado por Diego Velázquez, de aspecto garboso, possante e quase soberano, quem abre a exposição e guiará os visitantes através de um áulico itinerário de triunfo da monarquia espanhola, assistida, ao que parece, pelo sereno e diligente cuidado de rainhas lusas, em que se sintetiza a história partilhada dos povos peninsulares, com destaque para Filipe II, sem dúvida a metáfora de uma partilha consentida.
A história volta a ser de reis e de rainhas, de príncipes, de princesas e de infantes, em cujas mãos os povos depositaram os seus destinos partilhados.
No dia 1 de Dezembro, a monarquia portuguesa celebrará a façanha de quarenta bandoleiros celerados que ao raiar do dia se introduziram no Palácio da Ribeira e defenestraram o secretário de estado de Sua Majestade o Rei Filipe IV. Um episódio omisso na ‘’história partilhada’’.
É possível que a nova geração de especialistas mais ou menos monárquicos da esfera do Prado tenha razão. Velázquez foi, mais do que tudo o resto, o pintor da câmara de sua majestade e um doméstico entre portas do palácio real.
O Velázquez que alucinou Manet e Picasso, o pintor, o mestre, passou à história das curiosidades ‘’ideológicas’’. O novo Velázquez do Prado é exclusivamente o retratista da câmara de sua majestade, que integrou na família real os anões e os cavalos, uma nova aristocracia que assegurou o puro sangue dos Habsburgo. No horizonte da nova historiografia espanhola desponta também um novo Goya, que em breve sacudirá das costas estas duas pinturas subversivas que alimentarão o ímpeto dos ‘’partisans’’ aragoneses.
Ventos da história. Um novo conceito de património, também.
Vou, sem dúvida, visitar a exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, demoradamente e com toda a atenção.
Vou olhar para as obras e tentar esquecer a história.
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