O FIM DOS PORTUGUESES: Reflexões sobre a Identidade e o Património No dia 7 de junho de 2015 a Lista Museum publicou o texto: “O FIM DOS PORTUGUESES: QUEM SOMOS NÓS?” (http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/msg13705.html). Pelas mensagens entretanto recebidas (que aproveito para agradecer), e não tanto pela polémica mais superficial, mas pela oportunidade que oferece para reflectir sobre a Identidade e o Património daquilo que designamos hoje por «Portugal», talvez valha a pena um novo esclarecimento. Porque, tal como estamos a assistir no presente, com uma crueldade que a todos atemoriza, as Soberanias (materiais e territoriais) estão a desvanecer-se em favor de Uniões de escalas diferentes. E, antes que haja guerra e conflitos insanáveis urge sermos capazes de, num esforço coletivo e público, pôr cobro, com a força do raciocínio, do altruísmo, e do bom-senso, a esse triste desenlace. É perante esta Realidade, que tolhe a contemporaneidade sem quaisquer condescendências, que talvez valha a pena perguntar à museologia e aos responsáveis pelo património: Será que o «Fim dos Portugueses» está para breve? Será que a Soberania (material e territorial) foi definitivamente perdida/oferecida? E agora? A União Política (Estado Português) vai ser obrigada a transformar-se apenas numa União Cultural (feita de afectos e de memórias partilhadas, quiçá composta por arquivos, museus e monumentos, enquanto o esquecimento geracional não apagar tudo)? Regressemos então à mensagem do dia 7 de junho 2015. Em 2014 o cientista Russel Bonduriasky (University of New South Wales, Sydney) exclamou de modo incontido e emocional: “Seja como for, espero que não aconteça com seres humanos!”. Aristóteles propôs há mais de dois mil anos a teoria da Telegonia. Entretanto, com a genética mendeliana, e a partir de 1920, a telegonia foi rejeitada pela ciência. Em 2012, no Segen’s Medical Dictionary, podia ler-se: “Telegony: an obsolete misconception that the characteristics of one male could be passed to the progeny of a second male, if the latter’s offspring was borne by the sexual partner of the former”. Porém, a partir de 2013, e simultaneamente em vários laboratórios do mundo, a Telegonia foi ressuscitada. Por exemplo, no “XIV Congress of the European Society for Evolutionay Biology” (2013), na “Australasian Evolution Society’s conference” (2013), ou na revista “Ecology Letters” (2014). A exclamação de Russel Bonduriasky mostra quanto a emoção ainda não está preparada para aceitar a razão, perante o impacto de um mundo material e cultural (simbólico) que está definitivamente a mudar. Afinal parece que algumas ideias do passado sobre genética e hereditariedade, entretanto desacreditadas, terão que ser reexaminadas. E são esses factos que justificam esta mensagem e o seu título. Na tal mensagem do dia 7 de junho escolhi René Thom, mas podia ter escolhido outro exemplo do que é uma «Singularidade». Fi-lo, não apenas para retirar a carga partidária à polémica, mas porque esse autor é central para a questão da “estabilidade estrutural de sistemas, e respetiva destruturação/reestruturação”. E a questão a debate é, num plano mais geral, o eventual «fim e ou destino de um Objeto ou Estrutura», neste caso, aquilo que designamos linguisticamente por «português/portuguesa». Em português, que eu conheça, foi editada a entrevista que ele deu em 1980, num livro publicado pela editora “Dom Quixote” com o título “Parábolas e Catástrofes...”. O desdobramento matemático de uma “Singularidade” está lá. Por que razão usei essa resposta na Mensagem “O Fim dos Portugueses...”? Porque, pondo em palavras correntes os corolários lógicos desse desdobramento matemático, obtemos os seguintes resultados: i) Nos termos de um mesmo Contexto, o desaparecimento dos «Portugueses/as» obrigava ao desaparecimento dos outros tipos lógicos equivalentes. ii) Se a estrutura designada por «Portugueses/as» inclui o mesmo conteúdo biológico do que as outras existentes nesse Contexto, então não pode desaparecer senão com o desaparecimento desse Contexto (i.e, só quando deixássemos de ser Humanos e de partilharmos a Terra). iii) Se «os Portugueses/as» estão presentes no ADN e nos Memes dos outros tipos, e se se continuam a miscigenar-se neles (por exemplo, em quantas partes do mundo, países, e culturas ocorrem/existem «portugueses/as»?), o seu fim só poderá acontecer com o fim dos Outros. iv) Se o Contexto onde ocorre os tipos lógicos/estruturas não depende de si próprio para subsistir (por exemplo, se a Terra e a espécie Homo sapiens sapiens estão metidos numa dependência extraplanetária, por exemplo, galáctica e intergaláctica; ou estão incluídas noutras escalas, por exemplo, moléculas, proteínas, átomos, neutrinos), então, não é nos termos desse Contexto particular que se pode determinar uma premissa que possa decidir qualquer fim ou início. v) As equivalências Mesmo-Outro (ver quadro de citações que pus na mensagem de 7 de junho), Exterior-Interior, ou Fora-Dentro (ver todas aquelas dicotomias que referi) não podem deixar de ser válidas dentro desse Contexto particular de referência. vi) Cada estrutura/tipo lógico que consiga incluir as outras torna-se uma Singularidade indecomponível, a partir da qual é possível, de modo autónomo e independente, partir para outra viagem de estruturação/restruturação («ruturas» essas que René Thom chama de “Catástrofes”). Isto é, nada falta aos «Portugueses/as» para autonomamente prosseguirem uma viagem independente de destruturação/restruturação daquilo que atualmente se designa por «Humano». vii) E assim por diante... Portanto, talvez sejam a ignorância e a geopolítica que fazem dizer aquelas coisas. Não esquecendo que são os que continuam a ter essa vã ilusão do desaparecimento dos Outros que se avençam mensalmente com muitas notas e com o melhor bem-estar material. Um exercício prático, para permitir uma melhor visualização, é adoptar a tal «concepção heptadimensional de objeto e de realidade» que propus. Se adoptarmos aquelas sete dimensões e aqueles seis tipos de objetos, e fizermos a seguinte pergunta: «Se os portugueses/as desaparecessem qual daqueles seis objetos desaparecia? Todos? Apenas alguns? Quais?», a questão torna-se mais simples. Por exemplo, se, agora, neste momento, decidíssemos dizer: «a partir de agora somos franceses», qual dos tais seis objetos efetivamente desaparecia? Qual das tais sete dimensões não desaparecia? O mesmo exercício também pode ser feito para todos os Objetos e Realidades que os museus/arquivos/monumentos/palácios e os outros sítios do património possuem, e para todos os que são colocados em vitrinas e expografias. Essa talvez seja a utilidade mais importante desta discussão. Tal como escrevi (em «O que é a Museologia e o Património?», ou em “A Cultura perante o Património», ou em «O Património perante o Desenvolvimento», ou em «Antropologia e Património») é necessário separar três variáveis: «objeto», «uso» e «valor/significado/sentido». Gregory Bateson vai mais longe, diz que é necessário separar “o nome da coisa nomeada”, “o mapa do território”, e assim por diante. Outro exercício prático, com o mesmo modelo hetpadimensional, é perguntarmos: i) «sem corpo, em que território estaríamos?»; ii) «com a modificação/manipulação genética e biotecnológica do nosso corpo, que é um dado inquestionável na atualidade, mantemos que dimensões daquelas sete, apesar do nosso corpo antigo já não ser o mesmo?»; iii) «se o nosso corpo já não é o mesmo, e nós ainda nos reconhecemos como sendo Nós, então, até quanto o podemos substituir sem nos catastrofizarmos?»; iv) «isso não é crucial para subsistirmos no processo de Adaptação à Natureza e ao Universo?». Na museologia e património além desse desafio, temos ainda que enfrentar no nosso quotidiano o dos novos objetos 3D, o da realidade virtual e dos avatares, o das «Segundas Vidas», e o da realidade invisível ao olho humano feita de grafeno. São estes novos inquilinos do Real que, em breve, se transformarão em património, e para os quais a museologia deve estar preparada. E preparação é, na prática, saber construir um modelo analítico mais eficaz e eficiente. Foi essa a razão que me levou a propor esse novo modelo que apelidei de «Concepção/Modelo Hepta-dimensional de Objeto e de Realidade». Se se confirmar a descoberta da “Estrutura da Relevância” como uma codificação presente no cérebro (incluindo no dos Hominídeos) então, como tenho dito, teremos que rever algumas coisas na museologia e no património. E também no modo como gerimos a responsabilidade pelo património nas políticas públicas. Por exemplo, as assimetrias de valor entre países e culturas, que usam o património para as afirmarem politicamente (por exemplo, nos concursos, prémios, e listas de património); mas também na educação patrimonial e nos processos de compreensão daquilo que é efetivamente o património, haveria algumas mudanças a fazer. Num outro domínio existêncial (o da Arte e da hermenêutica), o Impronuncialismo, ao escolher o Dasein para objeto e território, é a tentativa de trabalhar aquela dimensão das sete que não acaba com o fim das outras. Aquela que é possível codificar e transmitir às gerações futuras independentemente das outras, e independentemente da perda da atual soberania material e territorial. No momento em que conseguirmos dominar tecnicamente isso, até seria a própria teoria da evolução que teria que mudar numa pequena parte para poder continuar a ser válida. Aliás, os maiores investimentos em ciência e tecnologia feitos atualmente ocorrem em projetos com esta finalidade. Seja como for, as questões que envolvem o património e a museologia são cada vez mais, nos nossos dias, um local de ação política, científica, estética e filosófica. E isso é o que apraz, independentemente das diferenças de opinião. Pedro Manuel-Cardoso |
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