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[Museum] Posse, felicidade e liberdade

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>, "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Posse, felicidade e liberdade
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Fri, 28 Aug 2015 18:44:22 +0100

De: 3raposos@sapo.pt [mailto:3raposos@sapo.pt]
Enviada em: sexta-feira, 28 de Agosto de 2015 16:03

Amigos,
Não é que importe por aí além, mas no texto que vos enviei antes falta a expressão final. Reenvio, por isso corrigido.
LRaposo

Amigos,

Inspirado pela reflexão de Fernando Belo sobre "Cristianismo e política: uma história por regra mal contada", dada à estampa no jornal Publico, em 12 de Agosto pretérito, cometi a ousadia de escrever prosa de Verão que teve para já acolhimento na página do Facebook do Grupo de Amigos do MNA, conforme se pode encontrar no seguinte endereço:
https://www.facebook.com/groups/388689477950776/permalink/515076361978753/
Permito-me reproduzi-la abaixo.
Abraço a todos.
Luís Raposo

 

Posse, felicidade e liberdade
Luís Raposo, arqueólogo

Existe em Sto. Agostinho um pensamento com raízes profundas no Mundo Antigo que, quando novo, confesso me encanitava. Dizia ele que a felicidade não está em ter muito, mas em contentar-se com pouco. Feito doutrina oficial da Igreja Romana, na sua condição constantiniana de guardiã da ordem estabelecida, serviu ao longo de séculos para justificar o conformismo dos povos em face da desigualdade do mundo, sobretudo quando pusessem em causa a iníqua distribuição da riqueza.

Com o tempo, porém, fui matizando o meu agastamento em face do citado aforisma. Primeiro, aprendi que pode existir, e de facto existe, felicidade mesmo na noite mais escura. Ser feliz é algo tão íntimo e poliédrico, e a condição humana algo de tão maravilhosamente inspirador, que mesmo os mais pobres dos pobres e os mais oprimidos dos oprimidos conseguem a espaços romper todas as correntes e viver momentos de verdadeira felicidade, seja no plano interior da descoberta mística do belo, expresso no (sobre)natural, seja no plano das vivências relacionais pessoa a pessoa e dos pequenos-grandes prazeres que delas derivam. A ideia de que em regime de ditadura as pessoas vivem permanentemente tristes constitui uma caricatura que só o tempo me ensinou descortinar, corrigindo em mim os excessos da “razão pura”, a qual conduz, como dizia quem inventou e criticou o conceito, a criar monstros e não pessoas humanas.

Vem tudo isto a propósito de excelente reflexão de Fernando Belo no jornal Público (“Cristianismo e política: uma história por regra mal contada”, Publico, 12.8.2015; http://www.publico.pt/…/cristianismo-e-politica-uma-histori…), a qual junto neste tempo de férias à descoberta de um magnífico livrinho do meu colega e amigo José Luís de Matos (“Igreja Católica. O choque de paradigmas”, Ed. Caminho, 2007) e à releitura dos “Tristes Trópicos”, de Levi-Strauss, filtrando tudo à luz da investigação que me leva ao estudo das sociedades de caçadores-recolectoras do Paleolítico, período que preenche mais de 99% da nossa história, no qual emergimos desde fases arcaicas até à plenitude que faz sermos o que somos, quando finalmente passámos o rubicão da arte – de todos, o mais humano atributo, exclusivo do ser sapiens, já que até o sentimento simultâneo de distância e pertença a que chamamos religiosidade, expresso no coleccionismo de coisas bizarras e em rituais funerários, precede o “Homem Moderno”, existindo já na fase “Neandertal”.

Para o caçador do Paleolítico, o valor supremo era o ócio. Tudo se lhe subordinava, mesmo o controlo da natalidade. A ideia do ócio como paraíso terreal humano atravessou todos os tempos e teve força tal que até os latinos lhe chamaram fecundo, atribuindo à sua negação, o negócio, o sentido pejorativo que de certo modo persistiu até hoje, pelo menos até a emergência da ideologia do yupismo. A substituição que as sociedades agro-pastoris fizeram do valor/prazer do ócio pelo do valor/dever do trabalho introduziu na equação da felicidade uma nova parcela, a da liberdade, entendida já não somente no plano da vivência pessoal, mas no da relação social, feita mais tarde luta de classes. 

Chegados aqui poderíamos talvez reescrever o aforisma agostiniano à luz da longa corrente da emancipação e da revolução social, juntando num mesmo conceito os valores da felicidade e os da liberdade, dizendo que a liberdade não está em querer muito, mas em contentar-se com pouco. Foi a esta luz que li e me comprazi com a afirmação final de Fernando Belo no texto citado: “Em vez de submissão ao poder de César, é a libertação dos feitiços do poder — do dinheiro e das burocracias (clerical ou outra, engravatada, mediática) — que permite ‘viver’ fecundamente, apaixonadamente.” Quando vivida com autenticidade no dia-dia, especialmente no plano da relação profissional, frequentemente gerador de dependências aviltantes, é esta a verdadeira chave da felicidade. E para alcançar este sadio equilíbrio entre liberdade e felicidade não é preciso ser “filósofo do barril”, ser como Diógenes, cínico ao ponto de não esperar do poder mais do que não nos tape o sol, não é tão-pouco preciso ser “ventre ao sol” ou “famélico da terra”, sedento de revolução social. Basta experimentar “viver fecundamente, apaixonadamente”, não esperando demasiado de nenhum poder e mantendo em relação a todos a postura combativa própria do livre pensamento.




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