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De:
3raposos@sapo.pt [mailto:3raposos@sapo.pt] Amigos, Amigos, Inspirado pela reflexão de Fernando Belo
sobre "Cristianismo e política:
uma história por regra mal contada", dada à estampa no jornal Publico, em 12
de Agosto pretérito, cometi a ousadia de escrever prosa de Verão que teve para
já acolhimento na página do Facebook
do Grupo de Amigos do MNA, conforme se pode encontrar no seguinte endereço: Posse, felicidade e
liberdade Existe em Sto. Agostinho um
pensamento com raízes profundas no Mundo Antigo que, quando novo, confesso me
encanitava. Dizia ele que a felicidade não está em ter muito, mas em
contentar-se com pouco. Feito doutrina oficial da Igreja Romana, na sua condição
constantiniana de guardiã da ordem estabelecida, serviu ao longo de séculos
para justificar o conformismo dos povos em face da desigualdade do mundo,
sobretudo quando pusessem em causa a iníqua distribuição da riqueza. Com o tempo, porém, fui matizando o meu
agastamento em face do citado aforisma. Primeiro, aprendi que pode existir, e
de facto existe, felicidade mesmo na noite mais escura. Ser feliz é algo tão
íntimo e poliédrico, e a condição humana algo de tão maravilhosamente
inspirador, que mesmo os mais pobres dos pobres e os mais oprimidos dos
oprimidos conseguem a espaços romper todas as correntes e viver momentos de
verdadeira felicidade, seja no plano interior da descoberta mística do belo,
expresso no (sobre)natural, seja no plano das vivências relacionais pessoa a
pessoa e dos pequenos-grandes prazeres que delas derivam. A ideia de que em
regime de ditadura as pessoas vivem permanentemente tristes constitui uma
caricatura que só o tempo me ensinou descortinar, corrigindo em mim os excessos
da “razão pura”, a qual conduz, como dizia quem inventou e criticou o conceito,
a criar monstros e não pessoas humanas. Vem tudo isto a propósito de
excelente reflexão de Fernando Belo no jornal Público (“Cristianismo e
política: uma história por regra mal contada”, Publico, 12.8.2015; http://www.publico.pt/…/cristianismo-e-politica-uma-histori…),
a qual junto neste tempo de férias à descoberta de um magnífico livrinho do meu
colega e amigo José Luís de Matos (“Igreja Católica. O choque de paradigmas”,
Ed. Caminho, 2007) e à releitura dos “Tristes Trópicos”, de Levi-Strauss,
filtrando tudo à luz da investigação que me leva ao estudo das sociedades de
caçadores-recolectoras do Paleolítico, período que preenche mais de 99% da
nossa história, no qual emergimos desde fases arcaicas até à plenitude que faz
sermos o que somos, quando finalmente passámos o rubicão da arte – de todos, o
mais humano atributo, exclusivo do ser sapiens, já que até o sentimento
simultâneo de distância e pertença a que chamamos religiosidade, expresso no
coleccionismo de coisas bizarras e em rituais funerários, precede o “Homem
Moderno”, existindo já na fase “Neandertal”. Para o caçador do Paleolítico, o
valor supremo era o ócio. Tudo se lhe subordinava, mesmo o controlo da
natalidade. A ideia do ócio como paraíso terreal humano atravessou todos os
tempos e teve força tal que até os latinos lhe chamaram fecundo, atribuindo à
sua negação, o negócio, o sentido pejorativo que de certo modo persistiu até
hoje, pelo menos até a emergência da ideologia do yupismo. A substituição que
as sociedades agro-pastoris fizeram do valor/prazer do ócio pelo do valor/dever
do trabalho introduziu na equação da felicidade uma nova parcela, a da
liberdade, entendida já não somente no plano da vivência pessoal, mas no da
relação social, feita mais tarde luta de classes. Chegados aqui poderíamos talvez
reescrever o aforisma agostiniano à luz da longa corrente da emancipação e da
revolução social, juntando num mesmo conceito os valores da felicidade e os da
liberdade, dizendo que a liberdade não está em querer muito, mas em
contentar-se com pouco. Foi a esta luz que li e me comprazi com a afirmação
final de Fernando Belo no texto citado: “Em vez de submissão ao poder de César,
é a libertação dos feitiços do poder — do dinheiro e das burocracias (clerical
ou outra, engravatada, mediática) — que permite ‘viver’ fecundamente, apaixonadamente.”
Quando vivida com autenticidade no dia-dia, especialmente no plano da relação
profissional, frequentemente gerador de dependências aviltantes, é esta a
verdadeira chave da felicidade. E para alcançar este sadio equilíbrio entre
liberdade e felicidade não é preciso ser “filósofo do barril”, ser como
Diógenes, cínico ao ponto de não esperar do poder mais do que não nos tape o
sol, não é tão-pouco preciso ser “ventre ao sol” ou “famélico da terra”,
sedento de revolução social. Basta experimentar “viver fecundamente,
apaixonadamente”, não esperando demasiado de nenhum poder e mantendo em relação
a todos a postura combativa própria do livre pensamento.
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