Obrigado, caro Pedro. Não sei se seremos poucos a persistir em pensar o tempo como St. Agostinho o concebia, quer dizer, prenhe de presente (passado-presente, presente-presente e presente-futuro). E afinal só estando e intervindo no presente, passado e futuro valem verdadeiramente a pena. Não sei se seremos poucos ou se os muitos que pensam como nós caíram em crise profunda de vontade e simplesmente deixaram de intervir. Mas, como diz o povo, se não bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe. Atrás dos tempos, tempos virão e nós poderemos descansar em nossas consciências, sabendo que sempre fomos o que um dia os nossos maiores nos ensinaram a ser. Um abraço do, Luís Raposo De: museum-bounces@ci.uc.pt [mailto:museum-bounces@ci.uc.pt] Em nome de PedroManuelCardoso Uma corajosa partilha de Luís Raposo.
Qual «passado»? Que não sempre o mesmo «presente» ou «futuro» humano, sempre comandados por aquelas codificações que herdámos sem as desejarmos, e contra as quais nos rebelamos todos os dias? Não é desse Património que se trata? Alguns talvez voltem a teimar que são coisas que não são práticas, ou não servem para nada. Acham que não estamos a falar de património, de antropologia, de arqueologia, ou de ciência. Sim, já conhecemos todas as devastações e crimes contra a humanidade que esse pragmatismo provocou, pelo menos desde William James e Charles Saunders Peirce, em Harvard, no início do século XX. O Eduardo Lourenço e a revista «Ler» deste verão 2015 fizeram imprimir, em letras brancas no fundo esverdeado, o mesmo desesperado clamor: “A forma mais radical de Liberdade é de ordem do poético, do religioso. A verdadeira eternidade seria que os que desapareceram voltassem ao nosso convívio”. Nós no património sabemos isso desde que começamos. Nada que não tenha sido tentado desde sempre. Não foi isso que Luís Raposo nos quis mostrar com a exposição de “Antiguidades Egípcias” no Museu Nacional de Arqueologia?: “Todos acreditavam na vida eterna para a qual se preparavam nesta vida… A crença na Eternidade, que obrigava a preservação do corpo, é uma das bases da cultura faraónica.” Mas não apenas no Médio Oriente. Também no Oriente mais longínquo se acredita, ainda hoje, e pelo menos desde o Rig Veda (1700 – 1100 a.C.), que “o «eu» verdadeiro de cada pessoa (Ȃtman) é eterno”, e que toda a materialidade (realidade) não passa de avatares, que se sucedem num ciclo continuum de nascimento, morte, renascimento, onde opera a trindade Brāman (criação), Vishnu (construção), Shiva (destruição). Então, em que ficamos … em termos práticos? Perante esse desejo de Continuidade, não cabe à Museologia a tarefa de ser capaz de transformar aquilo que é considerado Património (os «objetos patrimoniais») num Segundo Objeto (os «objetos museológicos») – forçosamente uma Representação e uma Construção – de modo a ser possível preservá-lo, comunicá-lo, e reproduzi-lo pela Cognição e pela Memória individual e coletiva dos presentes e vindouros? Evidentemente que o Património é o trabalho dos humanos perante a Continuidade. Não é esse fenómeno humano que a Museologia estuda e gere? Porém, bem me esforço por alertar que, tanto ou mais de que uma Coisa (objeto, coleção, documento, evento, monumento, meta-dado, informação, ou infraestrutura) o Património é uma Decisão sobre a Relevância inserida nesse trabalho pela Continuidade, realizado através da Memória, ou de qualquer outro tipo de codificação com o objetivo de armazenamento-e-restituição. Que importa que esteja em museus, arquivos, bibliotecas, bases-de-dados e de meta-dados, filmes, documentários, dispositivos de armazenamento digital, monumentos, palácios, paisagens, sítios de interpretação, lugares de memória, circuitos e parques temáticos, in situ ou ex situ, ao ar livre, em reservas ou silos, em bancos de sementes ou de material genético, ou codificado no hipocampo dos cérebros humanos? Não é isso que serve para termos mais sucesso no processo de Adaptação do ser humano? O Património não é, afinal, o mecanismo que atualiza permanentemente a Relevância com o objetivo de preparar, com os ganhos obtidos no passado, a Continuidade? Obrigado Luís Raposo. Pedro Manuel-Cardoso |
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