Património: Memória ou Relevância? Tenho vindo a chamar a atenção para a Relevância. Por exemplo, em “O que é a Museologia e o Património?” (2014), “Antropologia e Património: olhar a Realidade no Tempo perante os Agentes” (2012), “A Cultura perante o Património” (2011), ou em “O Património perante o Desenvolvimento” (2010). Quem se confronta com a história e com a bibliografia sobre património e museologia verifica o lugar central que a Memória ocupa. Sempre foi tida como o elemento essencial da museologia e do património. Inúmeras expografias, e quase todos os actos museológicos-arquivísticos-biblioteconómicos, não prescindem da palavra «memória». Todavia, no trabalho de construção do saber científico sobre o património sempre me pareceu excessiva essa importância dada à Memória. Porque os dados sobre o processamento da memória a nível da antropologia e da biologia molecular obrigavam a essa cautela. Em 2004, na Universidade, tive a oportunidade de alertar para esse facto numa palestra que intitulei: “Para onde ides Objetos?” (2004). A sucessão de avanços no conhecimento sobre a Memória a partir do início do século XX (sobretudo após os trabalhos dos prémios Nobel John O’Keef e Eric Kandel) a isso obrigava. Vem isto a propósito da notícia recente de que as “memórias de curto-prazo” se poderão transformar em “memórias de longo-prazo” através de um processo artificial usando um algoritmo matemático e uma codificação traduzível num chip que se poderá implantar nos hipocampos dos cérebros. Ou seja, que a Memória pode ser doravante manipulada e construída por uma interferência não-darwiniana. Em “A Antropologia em Busca do Objeto Perdido” (2010) e em “Manifesto contra a Antropologia Silenciada” (2011) escrevi sobre essa interferência, e sobre as consequências científicas que está a ter quer para a teoria darwiniana quer para o próprio «objeto» da antropologia. Porém não é isso que agora interessa, mas sim a reflexão sobre a relação de interdependência (a preponderância e a subalternidade) entre o factor «Memória» e o factor «Relevância» no estudo e investigação sobre o Património. Será que o trabalho e a responsabilidade pela gestão do Património (incluindo as políticas públicas) se deverão cingir a um trabalho que se esgota apenas na Memória? Permitam que formule a questão do seguinte modo: “No Património há um misterioso fenómeno que se relaciona muito mais com a Relevância do que com a Memória. E que passa quase sempre desapercebido por causa da banalização provocada por ser considerado «natural» ou «instintivo». Talvez por essa razão não tenha sido suficientemente investigado. Para lhe captarmos a evidência coloquemos o problema do seguinte modo: De onde vem a assimetria de valor que o Património é? De onde vem, e por que causa surge, esse misterioso fenómeno que obriga os seres humanos a decidir que umas coisas são mais importantes do que outras? De tal forma, que, desde o início da humanidade, independentemente das épocas e da história das sucessivas sociedades e culturas, se dão ao enorme trabalho de preservá-las com o objetivo de as transmitir às gerações presentes e vindouras? Porque se considera «natural» este fenómeno tão peculiar, tão custoso em termos energéticos, e que gasta tanto tempo e espaço na existência humana? Será um comportamento exclusivamente humano e cultural, ou antecederá a espécie humana, e até a vida biológica (tomando por definição de «vida» a que atualmente a NASA adopta para investigá-la)? Que resposta a Ciência e a Museologia tinham, e têm até ao momento, para este fenómeno que o Património é?” (Pedro Manuel-Cardoso, 2012). “O Património não será o mecanismo que atualiza permanentemente a Relevância com o objetivo de preparar – com os ganhos obtidos no passado – a Continuidade (Adaptação)?” (Pedro Manuel-Cardoso, 2012). “Porque a Museologia não pode ser a ciência que estuda e gere o Património – isto é, a Relevância – prolongando a estratégia Eucariote?” (Pedro Manuel-Cardoso, 2010). “Referimo-nos a um campo disciplinar de pesquisa (a Museologia) definida no sentido amplo, que engloba uma atitude/relação específica do ser humano com os objetos e os seus valores. Essa atitude/relação inclui procedimentos de conservação, pesquisa, comunicação (visualização). Esse tipo de relação/atitude encontra-se em todo o lado, desde sempre. A Museologia, analisada, institucionalizada e confinada habitualmente ao museu, foi dele que obteve o nome, porém, é muitas vezes confundida unicamente com a ciência do museu.” (M. Schärer, 1999). Pedro Manuel-Cardoso |
| Mensagem anterior por data: [Museum] Actividades do Museu da Luz | Escolas e Público Geral | Próxima mensagem por data: [Museum] Questiona-se o humano no Porto! |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] Património. Achar Preciosidades no Deambular por Re-Livrarias | Próxima mensagem por assunto: Re: [Museum] Património: Memória ou Relevância? |