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[Museum] Compreensão do Património: "reiniciar o Programa"?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Compreensão do Património: "reiniciar o Programa"?
From :   PedroManuelCardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Tue, 1 Dec 2015 17:46:44 +0000

A Gestão do Património (museologia) exige uma atualização e uma reforma que consigam equilibrar o trabalho e os recursos gastos com «a responsabilidade pela Memória» (estudo, preservação, reservas, coleções) tanto como com «a responsabilidade pela Relevância» (compreensão, interpretação, comunicação, serviço educativo) tal como referi na «mensagem n.º 14277 de 01out2015 (22h20)».

            A sobredeterminação da arquitectura no espaço museal subverteu e prejudicou os Programas Museológicos (além de os ter onerado de modo não-sustentável face aos recursos que o Estado efetivamente possui no presente e no futuro próximo); retirando à Museologia as decisões sobre o «espaço» e sobre o «tempo», que são o «contexto essencial» para que a compreensão e a interpretação do património se possa fazer de modo correto. Essa intervenção fica muito bem nos portfólios das carreiras dessa especialidade (sem menosprezo), e serve muito bem para uma imagem mediática e superficial do Património tão desejada pelos políticos, mas infelizmente inflige danos à conservação, à comunicação, e à compreensão do Património a que urge pôr cobro. De facto, essa sobredeterminação da arquitectura tem prejudicado e subvertido o processo de compreensão, interpretação, e comunicação do património a musealizar.

            Esse erro deriva da assimetria entre Memória e Relevância (entre infraestrutura e cognição). É um erro que tem dominado a gestão do património durante as últimas décadas. E é também uma das causas estruturais da reduzida eficiência dos recursos investidos pelo Estado. Uma aposta séria e consistente nesse equilíbrio (cuja pertinência é acrescida por estarmos num contexto de escassez e de redução das despesas) seria o rumo certo para a governação nos próximos anos.

            Trata-se agora de implementar um trabalho prático (investimento, orçamento, recursos humanos e técnicos) que se repercuta no concreto da acção quotidiana, e que seja transversal a todo o património sob a jurisdição do Estado.

            Essa reforma (a que chamo aqui, de modo metafórico: «reiniciar o Programa Museológico») justifica-se, no mínimo, e para além do aspecto económico/financeiro/orçamental, por quatro razões específicas inerentes à mudança ocorrida na nossa contemporaneidade: i) pelos atuais avanços científicos no estudo da biologia molecular da Memória; ii) pela mudança de paradigma na interpretação e explicação dos factos sociais e culturais pelas ciências sociais e humanas; iii) pelas mudanças ocorridas na teoria da comunicação (simbolistas/computacionistas vs. conexionistas); e iv) pela renovação da Hermenêutica e da Epistemologia.

            Isto é, a «evidência» e o «significado» do Património que é exposto e comunicado exigem um novo rigor e uma nova abordagem para que possam ser competitivos a atrair Visitantes e a prestigiar o Património.

            É necessário dizer de modo claro e em voz alta que esse impasse que reinou teimosamente até aos nossos dias, entre «conteúdo vs. contentor», entre um «espaço/tempo a priori vs. os objectos/coleções a lá colocar depois», entre «exterior vs. interior», entre «forma/substância vs, conteúdo/essência», desabou. Desabou por efeito daqueles quatro avanços científicos que referi atrás. Hoje, percebe-se que o acto de compreender necessita de um espaço/tempo que lhe é próprio, e que jamais pode ser desenhado de fora. O processo de compreensão («educativo») funciona nas sinapses e no cérebro como um evento bioquímico que, a uma escala diferente, exige uma espacialização, uma geometria, e uma rede de itinerários de conexão. Logo, o espaço/tempo exigido num «Museu» para cada acto de compreensão e interpretação do património deixa de poder ser dominado pela essa sobredeterminação da arquitectura, e por essa imposição ideológica expressa naqueles quatro usuais impasses que referi atrás.

            Este é o desafio que se exige à responsabilidade pública pelo Património no nosso País.

            Haverá disponibilidade para esta reforma, ou tudo se manterá igual ao que tem sido?

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





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