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[Museum] Manifesto contra a Antropologia Silenciada: o Corpo em Mutação

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Manifesto contra a Antropologia Silenciada: o Corpo em Mutação
From :   PedroManuelCardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Sat, 19 Dec 2015 19:24:41 +0000

                Há cinco anos, em 28 de novembro de 2010, na Universidade Nova de Lisboa (FCSH), redigi e proclamei o Manifesto contra a Antropologia Silenciada.

Para comemorar a efeméride realizei hoje no Museu da Gestualidade a conferência cujo resumo partilho:

 

 

Conferência

 

TÍTULO: “Manifesto contra a Antropologia Silenciada1: o Corpo em Mutação”.

 

AUTOR: Pedro Manuel-Cardoso (antropólogo, museólogo, Pós-Doutorado pela Universidade de Lisboa, autor da descoberta da “Estrutura da Relevância”, fundador do Impronuncialismo – facebook/twitter).

 

EPÍGRAFE:

Certains de mes critiques ont dit: «Oh, c’est un bon observateur, mais il n’est capable de raisonner». J’en doute, dans la mesure où L’Origine des Espèces n’est qu’une longue argumentation du début à la fin, et qu’elle a pu convaincre plus d’un homme compétente” (Charles Darwin, 1887, Autobiographie)2

 

Primeiramente uma nova teoria é atacada porque é absurda; depois admite-se que ela é verdadeira, mas óbvia e insignificante; finalmente é considerada tão importante que os seus adversários reclamam que foram eles próprios que a descobriram.” (William James, 1907)3

 

"Para melhor ou pior, agora vivemos todos no mundo da CRISPR" (Science, 2015)4.

 

 

RESUMO: O Ser Humano está a afastar-se do Corpo4. E essa evidência desafia a pergunta kantiana5 fundadora da Antropologia: “o que é o Ser Humano?”; e portanto, o entendimento antropológico sobre «quem somos», «onde estamos», e «para onde havemos de ir». Com essa mutação do Corpo compreendemos que a Antropologia esteve durante muitos anos a procurar o seu «objeto» onde ele não estava. O conceito de «corpo» tradicionalmente aceite desaba dramaticamente perante os atuais dados da ciência. Pois com a definição de Vida6 atualmente usada pela biologia e pelas ciências da Vida, para a pesquisar dentro e fora da Terra, verifica-se, afinal, que o conceito de «corpo humano» não é senão uma associação pluricelular e molecular de milhões de seres vivos que convivem em simbiose e reciprocidade mútua dentro de um espaço gerido por esse tal Ser Humano que não é nenhum deles mas que está em todos eles7, tal como um software dentro de um hardware, ou uma reação (cognição/mente/espírito?) dentro de uma infraestrutura (coisa/objeto/partícula/materialidade). Só a partir de 20108 é que alguns, poucos, acordaram do sono darwinista e da ilusão quântica. Concretamente, após ter ocorrido a apócope genética em 12 de fevereiro de 2001, com a constatação de que a decifração do código genético (ADN) servia muito pouco para explicar e compreender o comportamento humano9; e a seguir, com a constatação de que a tentativa de redução desse comportamento à quântica e à intricação da física das partículas10 também era uma vã tentativa. Atualmente alguns dos náufragos do Beagle ainda tentam, desesperadamente, agarrarem-se às tábuas que sobram desse naufrágio, usando palavras e narrativas como: “epigenética”, “morfogénese”, “simbiose”, “etno-biologia”, “co-evolução gene-cultura (Ellen, 2006; Dickman, 2010)”. Todos acharam que Descartes (1637) cometera um “erro”, esquecendo o contributo de Hugh Saint-Victor (1140)11 quinhentos anos antes. A proclamação de Rita Lévi-Montalcini, prémio Nobel de medicina e fisiologia em 1986, foi o prenúncio dos quatro prémios Nobel, também de medicina e fisiologia, que ocorreram após 2000, concretamente de Eric Kandel, John O’Keef, May-Britt Moser, e Edvard Moser. Esta Conferência questionará essa ruptura contemporânea, e abordará a necessidade de a Antropologia re-formar e re-iniciar o programa de conhecimento sobre o Ser Humano. Propondo que vale a pena trabalhar em três áreas: i) no território do comportamento do Ser Humano (por exemplo, na investigação de uma Matriz e de uma Equação do Agir Humano12); ii) na explicitação de um modelo de Real (objeto/ coisa/ corpo) que descreva efetivamente como o Ser Humano aplica o seu Agir13; iii) num conceito de Compreender/Compreensão que permita aceder melhor à Relevância14.

 

NOTAS:

1 – MANUEL-CARDOSO, Pedro (2010), “Manifesto contra a Antropologia Silenciada” (28 novembro 2010). Universidade Nova de Lisboa, Curso de Doutoramento em Antropologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa: IGAC.

2 – DARWIN, Charles (1887), “Autobiographiein René Girard (2004), “Les Origines de la Culture“, Paris: Desclée de Brouwer, p.7.

3 – JAMES, William (1907/1964), “Pragmatism’s Conception of Truth”. In Alburey Castell (org.), 1964, p.159].

4 – TRAVIS, John (2015), “Making the cut”, Science, 18December2015, vol.350, nº6267, pp.1456-1457 (DOI: 10.1126/science.350.6267.1456). Science’s 2015 Breakthrough of the Year.

5 – “Em 1790, Emmanuel Kant formulou a primeira concepção moderna de Vida, ao propor que por «essência» se entendesse «uma forma especial de organização dotada de uma finalidade”. In ”Les Origines de la Vie”, Les Dossiers de La Recherche, 2013 mars, p.18. 

6 – “Un système chimique autonome capable de suivre une évolution darwinienne, un système capable d’évoluer à travers la sélection naturelle” (definição de Vida usada atualmente pela NASA para a investigar dentro e fora da Terra). In ”Les Origines de la Vie”, Les Dossiers de La Recherche, 2013 mars, pp.18-22. 

7 – COMBES, Claude (2010) “L’Art d’être Parasite: les associations du vivant”, coll. Champs, Paris : Flammarion.

8 – WYNN, Thomas & COOLIDGE, Frederick. (2010), “Beyond Symbolism and Language: An Introduction to Supplement 1, Working Memory”. In Current Anthropology, vol. 51, Sup. 1, June 2010, “Working Memory: Beyond Language and Symbolism”, pp.S5-16.

9 – DORTIER, Jean-François Dortier (2012), “Révolution dans le vivant”, Sciences Humaines, jan2012, n.º 233, pp.20-23 [“Le génome n’est pas le grimoire sur lequel est consigné le secret de la vie"] [“les organismes ne sont pas construits à partir d’une seul programme génétique contenu dans ses gènes”] [“la vie n’est pas enfermée dans les gènes”].

10 – “Le réalisme est la croyance qu’il existe quelque chose – le Réel – indépendant de nous, et que ce réel subsiste lorsque nous cessons de l’observer. Le réalisme en physique, ou le réalisme atomique, ou microréalisme repose sur un credo : l’étude assez fine du monde physique amènera la découverte  de particules ultimes qui constituent les objets de base de la Physique, particules dont la combinatoire permettra de rendre compte de ce qui existe“ : In ”Les Origines de la Vie”, Les Dossiers de La Recherche, 2013 mars, pp.18-22.

11 – Gestus est motus et figuratio membrorum corporis, ad omnem agendi et habendi modum” (Hugh de Saint-Victor, 1140, in Jean-Claude SCHMITT, 1990, “La Raison des Gestes dans l’Occident Médiéval”, Bibliothèque des Histoires, Paris: Gallimard, p.177).

12 – MANUEL-CARDOSO, Pedro (2015), “A Matriz e a Equação Antropológica do Agir Humano”. Lisboa: IGAC.

13 – MANUEL-CARDOSO, Pedro (2014), “Concepção Heptadimensional de Objeto/Coisa e de Realidade”, Lisboa: IGAC.

14 – MANUEL-CARDOSO, Pedro (2015), “Compreensão e Relevância: o caminho Impronunciável” (Início da Museologia Compreensiva, e repercussões de um novo conceito de Compreender/Compreensão aplicado ao Património no museu nacional do desporto, Palácio Foz), Lisboa: IGAC.

 

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





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