A mensagem anterior foi violentamente atacada. O que é positivo para o Debate. Por isso, se me for permitido, pela minha parte, o diálogo não será escondido. E explicitarei um pouco mais. De facto na mensagem anterior até considero que fui suave demais. Porque o projeto merece uma crítica ainda mais assertiva. O Tejo é um «objeto patrimonial» que sofreu mudanças ao longo de milhares de anos de povoamento. E a «Paisagem» é um objeto patrimonial consagrado e defendido pelo ICOM e por inúmeras Convenções sobre Património atualmente em vigor. Portanto, ao se fazer uma intervenção arquitectónica e urbanística no Tejo está a alterar-se uma «Paisagem» substituindo-a por «Outra». Logo, em abstracto, não é a mudança que está em causa. A questão que merece debate é compreender qual a qualidade e a finalidade dessa substituição/transformação. Acrescentará algo de novo em termos patrimoniais e culturais? O que se perde e se ganha em termos do presente e do futuro? Ora ao olhar para o design e arquitectura deste dito «novo museu» verificamos que copia o estilo e a forma de dezenas de edifícios que proliferam hoje em quase todo o mundo. Logo, o que vai acontecer daqui a uma década é dizerem que a «paisagem do Tejo» é igual a dezenas de outras iguais espalhadas pelo mundo. Do que resulta uma perda de Identidade e de Diferenciação relativamente ao poder de atração que atualmente Lisboa e o Tejo possuem. Porque para ver igual não vale a pena cá vir (o contrário do que acontece hoje). Esta normalização que ocorre atualmente nas Cidades constitui a marca de uma época, tal como aconteceu no antropocentrismo Renascentista, no evolucionismo Moderno, ou no relativismo Pós-Moderno. As indústrias do Turismo e do Comércio colocam nos vários lugares em que fazem escala (seja avião ou de barco) as mesmas lojas, as mesmas marcas, os mesmos restaurantes, os mesmos hotéis, etc.. Num curto espaço de tempo, por efeito dessa pressão contemporânea, as cidades perdem a sua identidade patrimonial enquanto paisagens e lugares. Tornam-se iguais umas às outras. O consumo, a arquitetura e o design são sempre no mesmo lugar (loja, restaurante ou hotel da mesma marca) embora em cidades e países diferentes. Qual o objetivo dos museus deste tipo? É exatamente aquele que os responsáveis por este MAAT disseram numa entrevista há dois dias (passo a citar): “Comer, apanhar sol, passear, e visitar um museu”. Razão pela qual perguntei na mensagem se esta finalidade de consumo hedonista era “(…) o fim em que se esgota a Gestão do Património e o conteúdo museológico deste projeto arquitetónico. Será esta ausência de projeto Patrimonial do MAAT, também, o fado da sua programação?” Quanto à programação já anunciada o que temos? Temos um conjunto de propostas iguais às que se fazem em todo o mundo atualmente. Não há diferenciação nem especificidade. Há apenas o desejo de copiar e apresentar a mesma coisa que os outros (os mesmos autores, as mesmas obras, as mesmas narrativas). Só que para isso há melhor nos outros lugares que têm mais orçamento e mais dimensão. Portanto há uma perda patrimonial. Claro que vão fazer filas para “consumir, comer, apanhar sol, e passear”. E com isso vão entrar e sair do museu muitas vezes. Uma multidão, em fila, a olhar para um produto de consumo (dito «cultural») idêntico ao que existe em dezenas de cidades atualmente no mundo. Dirão que o museu é um êxito, porque cumpre o objetivo para que foi construído. Perante este êxito-do-momento ninguém quer saber da «paisagem» que foi substituída. É este contentamento hedonista e consumista que permitirá aquela transformação urbanística que referi. É este o véu que tapa o objetivo principal: «construir nas margens do Tejo». Ora os responsáveis pelo Património deviam avaliar criticamente este tipo de transformação, não apenas porque faz parte da sua responsabilidade pela Gestão do Património, mas também porque há uma alternativa patrimonial e urbanística que está disponível. E que salvaguarda melhor o futuro da atratividade do estuário do Tejo, mesmo em termos económicos e turísticos. De facto, há uma história única a nível mundial, relativa às trocas comerciais e à navegação de povos que aqui aportaram desde o Paleolítico Superior, sedimentada em vestígios já descobertos no Tejo, que o tornaria um lugar candidato a Património da Humanidade. Um lugar único no Mundo. Ora é em cima disso que se constroem os ditos «novos museus», e a dita «paisagem pós-moderna». Que afinal não trazem nada de novo em relação ao que existe melhor noutros lugares. É o lucro fácil, a pressa pelo negócio efémero, as mais-valias para um pequeno grupo, e a irresponsabilidade pela destruição imediata sem aquilatar as consequências para o interesse público e para a continuidade da Identidade do local. É desta troca, desta substituição, desta transformação, desta relação entre vantagens/desvantagens que se trata na Gestão do Património. Este museu e a sua programação (a que foi anunciada) não acrescentam nada à compreensão de Portugal, à sua Identidade, à construção de um futuro específico e próprio. É uma cópia do que se faz nos países em que isso é a marca deles no presente e no futuro. Tal como disse na mensagem – nas entrelinhas – é um triste alegre museu. Um sítio para “comer, apanhar sol, e passear”, como dizem os seus responsáveis. Com uma programação baseada no Relativismo Cultural e no Interpretativismo anglo-saxónico e estadudinense dos anos 1980/2000. Coisas que estavam muito na moda nos curriculae das ciências sociais e na crítica de arte dessas Culturas no início deste séc. XXI, mas que hoje estão a ser substituídas por outra hermenêutica, por outro tipo de interpretação da Arte (ver por exemplo, até aqui em Portugal, os projetos financiados pela FCT para a década 2010-2020), e por uma «museologia da compreensão» que substitui a preponderância da arquitetura e do design nos projetos museológicos e patrimoniais. É este debate patrimonial que aqui interessa. Pedro Manuel-Cardoso |
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