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[Museum] Património Imaterial

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Património Imaterial
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Fri, 17 Feb 2017 22:14:48 -0000

 

                Tenho que agradecer ao Prof. Doutor Pedro Pereira Leite a referência.             

                Acho que ele a fez mais para me provocar... A essa provocação Amiga … como poderia resistir?

                A questão do dito «património imaterial» infelizmente não tolhe. Não a mim como Pessoa (que é o que menos importa), mas ao raciocínio analítico e ao exercício científico sobre a Questão Patrimonial.

                Contrapõem dizendo que permitiu classificar muitos patrimónios que de outro modo não seriam tidos em conta pela «museologia dos objetos ditos materiais». Em parte é verdade, em parte não é.

                Esses «patrimónios ditos imateriais» não foram tidos em conta pela «museologia dos objetos materiais» porque ela usou um conceito de Objeto errado (incompleto e insuficiente). Nada obstava a que não pudesse ter feito esse trabalho. Não era necessário separar aquilo que é inseparável.

                Ora ao inverter a questão, isto é, ao teorizarem e escreverem muitos livros sobre o «Imaterial» acabam por cair no mesmo erro. Agora de uma forma simétrica e invertida. Caem no mesmo erro de conceber o Objeto Patrimonial como uma coisa em que Material e Imaterial se excluem, ou que pretensamente podem viver separadamente.

                Esse erro é indesculpável. Na conjuntura desta época, neste curto-prazo, dá a ideia de um benefício. Mas a médio e longo prazo traz mais prejuízos do que vantagens. É um atraso que provocam no estudo e na Gestão do Património. Isso é visível no aparecimento de departamentos e de museus só para tratar da presumida «imaterialidade».

                É por essa razão que critico o atual entusiasmo sobre o «património dito imaterial». Numa das mensagens que enviei para a Lista Museum até cheguei a perguntar: «Como conseguiram separar o cante dos cantantes? Como foram capazes de separar o ferro-dos-chocalhos do som-da-comunicação? Como foram capazes de separar o Ser-Humano corpóreo e a materialidade das Coisas do Património, e de quaisquer pretensas «Imaterialidades»? Essas duas partes não existem. São uma ilusão perversa que prejudica o Valor Patrimonial. São um erro de concepção do Objeto Patrimonial.

                Enfim, um acto puro de Dualismo (material/imaterial).

                Ora o Dualismo nasceu de um Impasse. Que felizmente o teorema de Gödel demonstrou matematicamente [Ver Quadro adiante].

 

 

Refiro-me a Dualismo no sentido de: tudo o que necessite de uma relação lógica unida pela proposição «ou». Por exemplo: sim/não, menos/mais, on/off, it/bit, caim/abel, certo/errado, matéria/antimatéria, verso/anverso, contra/a favor, direita/esquerda, liberalismo/socialismo, nós/outros, masculino/feminino, etc.

 

A consciência do Dualismo foi discernida com rigor por K. Gödel. Concretamente a “indecidibilidade” que K. Gödel discerniu em Harvard em 1931 (de que só uma premissa exterior ao Observador e à Coisa permite decidir sobre a verdade ou a falsidade de qualquer enunciado/resultado do Conhecimento humano). Ver o “conceito de Coisa” em Kant e Heidegger; e também o “conceito de Prova” em matemática em Hilbert 1918, Whitehead & Russel, Gödel 1931.

 

Foi por isso que utilizámos o Jogo no Serviço Educativo do museu. Porque o Jogo é uma das poucas ferramentas cognitivas capazes de quebrarem o Dualismo (todos os dualismos). Porque permite introduzir uma relação lógica unida pela proposição «e» em vez de «ou». Razão pela qual o definimos como o comportamento que “permite a tudo e ao mesmo, simultaneamente ser e não-ser” (P. Manuel-Cardoso).

 

Foi também por isso também que propus o IMPRONUNCIALISMO como método de Criação e de Compreensão da Realidade.

 

Foi a desistência perante o Dualismo que fez proliferar o Pós-Modernismo e o Relativismo Cultural e provocou a decadência nas ciências sociais e humanas (Foucault, Derrida, Marcus-and-Clifford, e outros). O impasse do Dualismo criado pela indecidibilidade gödeliana também influenciou John Rawls, levando-o a menorizar a Diferença/Diversidade em relação à Igualdade e à Liberdade.

 

O Dualismo, de facto, tem sido um dos princípios organizadores do Social e das Sociedades (esquerda/direita, democratas/republicanos, liberalismo/socialismo, etc.). E um dos pilares da construção da Identidade humana (Nós/Outros, etc.).

 

O Dualismo é o resultado dos humanos não conseguirem decidir sobre a verdade ou a falsidade, senão através de um acto Político de imposição e subjugação (por exemplo, impondo juridicamente uma lista com aquilo que é ou não é património, dita «Classificação». E assim sucessivamente.

 

É pena que no Património esta ideologia do Dualismo se reproduza através da cisão Material/Imaterial. Porque isso prolonga um problema de que nos queremos livrar.

 

 

                Isso não seria um problema. Só passou a ser quando, em vez de o ultrapassarem, o usaram para manipular a Construção Social e as Mentalidades, transformando-o numa Ideologia. Uma ideologia que impede o avanço no Conhecimento e cria obstáculos às Relações Sociais. O Dualismo cria inimigxs e lutas fratricidas entre os congéneres. Cada qual puxa para o seu lado. Cinde o que poderia ser uma cooperação e uma interdependência no seio das Diversidades. Transforma a outra Parte inevitavelmente num adversário, num contrário, ou num inimigx.

                No Museu da Gestualidade (Escritura Notarial em 24/09/1993; Publicado no Diário da República, III.ª série, n.º 68, de 22/03/1994), portanto muito antes da moda «imaterial/intangível», usámos a seguinte definição de «gestualidade»:

 

“Over the past three decades there has been a growing recognition that the study of GESTURE --- visible bodily action that plays a role in explicit communication --- promises to throw much light on a range of issues that are central for any understanding of language (broadly conceived), and for an understanding of communication processes in human interaction” (Müller, C., Freie Universităt Berlin, 2004).

 

“The discovery of the importance of non-verbal communication has transformed the study of human social behaviour” (Argyle, M., Cambridge University, Mass., USA, 1979).

 

 

                O Dualismo é um dos atuais problemas da Ciência, da Epistemologia, e da Ética Social. Um problema que atualmente está a ser debatido com profundidade por causa do impacto da Inteligência Artificial, da manipulação genética, e da robótica.

                Qual a solução?

                A solução que sugiro é que se adopte na Gestão do Património (nos serviços do Estado que tutelam o Património, nos museus, e nas outras instituições responsáveis por Património) um Conceito Heptadimensional de Objeto no seio do qual se lide com esse facto consumado da separação entre Material/Imaterial.

                No Quadro adiante poder-se-á visualizar o resultado:

 

 

 

TIPOS DE OBJETOS

 

 

 

Þ

 

 

NOME DO OBJETO EM CADA TIPOLOGIA

 

 

Objeto-Imaginado

 

 

Þ

 

 

CONCEPÇÃO

(o Objeto que existe na ideia, intenção, imaginação, perpetração)

 

Objeto-Natureza

 

Þ

 

 

SUPORTE

(a matéria/energia utilizada na formação do Objeto)

 

Objeto-Construído

 

Þ

 

 

OBJETO

(a coisa construída/formada, com um Suporte, por decisão da Concepção)

 

Objeto-Representado

 

Þ

 

DOCUMENTO

(a representação/codificação do Objeto na percepção)

 

Objeto-Comunicado

 

Þ

 

 

INFORMAÇÃO

(o Objeto usado como Informação no processo de o comunicar)

 

Objeto-Memória

 

 

Þ

 

 

CONHECIMENTO

(o que fica na Memória - nos neurónios, nos percursos sinápticos, no hipocampo - e é acedível pela Cognição)

 

Objeto-Relevância

 

Þ

 

PATRIMÓNIO

(o Objeto que é escolhido para ser classificado como «Património»)

 

Pedro Manuel-Cardoso

 


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