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Re: [Museum] Autêntico ou falso?

To :   museum@ci.uc.pt
Subject :   Re: [Museum] Autêntico ou falso?
From :   António João Cruz <ajccruz@gmail.com>
Date :   Sat, 25 Mar 2017 00:55:26 +0000

Acabei de fazer uma grande descoberta: fiquei a saber que acho
irrelevante o estudo laboratorial das obras de arte (algo em que ando
envolvido há mais de 20 anos) e que já tenho um veredicto sobre o
caso!

António João Cruz



------- Mensagem Original -------
De:      Manuel de Castro Nunes [arteminvenite@gmail.com]
Para:    museum [museum@ci.uc.pt]
Data:    22-03-2017, 19:29
Assunto: [Museum] Autêntico ou falso? 


> Autêntico ou falso?
> Por sugestão do próprio, que teve a amabilidade de o sugerir nesta
> ''mailinglist'' MUSEUM, li com atenção exaustiva o artigo de António
> João Cruz, publicado no jornal PÚBLICO no passado dia 17 de Março.
> Li também o original sugerido, que difere tangencialmente no título,
> ao tornar mais explícito o propósito. ''Como podem os métodos
> laboratoriais ajudar a esclarecer o caso das pinturas da “Cidade Global”''.
> Não fora de resto a enunciação do propósito, o artigo parece-me um
> paradigmático exemplar escolar de introdução à matéria, de uma dada
> perspectiva. O seu interesse reside tão só no propósito de intervir
> num debate desvirtuado à partida, mas que, todavia, este artigo
> desvirtua, em minha opinião, até ao extremo.
> Tem sido uma ambiguidade residente e resistente que se encrustou no
> estudo e documentação da obra de arte, sempre que nele intervêm as
> instâncias que lideram a área do estudo laboratorial dos suportes ou
> componentes materiais. Ficamos sempre sem saber o que pensam os seus
> autores da validade documental das suas intervenções, que ora são
> decisivas e imperativas para refrear as liberdades das abordagens
> estéticas, estilísticas e históricas, ora não estão habilitadas a
> suportar qualquer conclusão. Tudo depende. Tudo depende de quê? Por
> vezes parece que tudo depende da conclusão a que se quer e deseja aderir.
> É desde já também imperativo que se estabeleça um pressuposto. É
> verdade que aquilo que hoje constitui a vastidão dos domínios em que
> a intervenção do estudo laboratorial do suporte e dos componentes
> materiais da obra de arte, incluindo o reconhecimento e a
> consciência dos seus limites, não foi resultado da procura do
> veredicto verdadeiro ou falso. A área dos estudos laboratoriais da
> obra da arte e da sua manipulação laboratorial é, no fundamental, o
> resultado de uma constante pesquisa na procura dos melhores
> procedimentos e das melhores condições para a sua conservação e
> restauro. E esse impulso foi determinante para que o itinerário
> dessa pesquisa tivesse sido como foi, para circunscrever o seu
> itinerário, através de procedimentos e meios.
> A transgressão dos meios e procedimentos da pesquisa laboratorial
> para o veredicto, entre o verdadeiro e o falso, só se verificou,
> historicamente, quando a questão do verdadeiro ou falso se colocou
> em sede de intervenção, quando, no âmbito da manipulação e
> documentação da obra de arte em sede de restauro deu lugar a
> suspeitas de que as evidências aparentes podiam não corresponder ao
> que se tornava evidente em sede de conservação ou restauro.
> Nessa sede, que é a sede da documentação predominantemente
> museológica, as primeiras suspeitas não incidiam sobre verdadeiro ou
> falso, mas sobre atribuições, cronológicas, de autor, de procedência.
> É um longo e acidentado itinerário o da transgressão dos meios e
> procedimentos da documentação laboratorial para o domínio do
> veredicto falso ou verdadeiro. E o protagonista desse itinerário foi
> o mercado, o mercado da obra de arte. Como o mercado da obra de arte
> está por princípio sob suspeita, encontrou no recurso aos meios e
> procedimentos de documentação laboratorial um meio de reforço e de
> consolidação da autenticidade da mercadoria. Foi então que, para
> reforçar o domínio potencial de recursos financeiros para dar
> sustentabilidade ao laboratório, com custos por vezes elevados, em
> nome do ''progresso da ciência'', o próprio laboratório se transformou em mercadoria.
> Uma ambígua mercadoria, sempre pronta a negar-se, a negar o seu valor, quando lhe é oportuno.
> Continua a desenvolver-se nos mais avançados meios científicos um
> profundo e idóneo debate acerca da validade e dos limites da
> documentação e da manipulação laboratorial da obra de arte que não é
> sintetizável no âmbito de um trabalho escolar.
> Pessoalmente, eu sugeriria uma visita introdutória a ''The
> Rembrandt Data Base'', uma exaustiva compilação de dados e
> resultados do ''Rembrandt Research Project'', talvez o
> empreendimento mais consistente e exaustiva de documentação da obra de arte alguma vez concebido.
> Mas é sem dúvida inesperado que, no âmbito da polémica que se
> desenvolveu em torno das obras que deram mote à intervenção de
> António João Cruz, se alegue a irrelevância dos estudos,
> procedimentos e meios laboratoriais como meio decisivo para um
> coerente e sólido veredicto verdadeiro ou falso.
> No âmbito da fragilidade dos meios e procedimentos a que parece
> ter-se até agora recorrido para fundamentar e alegar o verdadeiro, é
> inesperado que seja um técnico de documentação laboratorial que
> venha alegar a fragilidade dos meios e procedimentos laboratoriais.
> Que precipitação, que pressa, que propósito? Que precipitação impõe
> que, sem o concurso dos meios e procedimentos laboratoriais mais
> exaustivos, se imponha o veredicto já formulado?
> Insisto, todavia, em que o veredicto sobre a autenticidade dos
> quadros em referência se torna muito pouco relevante a par da questão para nós nuclear.
> Por que razão três pinturas com um itinerário de documentação tão
> inconsistente deram origem a uma exposição com uma temática tão ruidosa?
> Qual a origem e o sentido do alarde?


> Manuel de Castro Nunes


> http://culturanacidadeglobal.blogs.sapo.pt/autentico-ou-falso-806






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