Prezada Colega, Obrigado pela mensagem. Mudando um pouco o contexto permita a partilha do seguinte comentário. Julgo que ainda não se percebeu a mudança que está, aí, prestes a ocorrer. Trata-se de muito mais do que aquilo que parece. A materialidade a que estávamos habituadxs vai tornar-se menos necessária. Vai passar para um plano secundário em termos das prioridades de gestão patrimonial (e do trabalho museal). E isso devia refletir-se nos departamentos e serviços do Estado. As Escalas com que as Sociedades e os Humanxs vão passar a trabalhar vão ser diferentes. Já são diferentes. Hoje trabalha-se nas escalas das subpartículas atómicas em quase todos os domínios da atividade humana (ciência, tecnologia, medicina, engenharia, biologia, etc.). Quem governa e quem comanda fá-lo, já, desse sítio. A materialidade da «Muralha da China» ou do «Mosteiro dos Jerónimos» já não garantem a subsistência da Cultura Chinesa ou Portuguesa. Durarão menos do que a codificação (logo, do que será acedido pela consciência e pela compreensão dos vindouros), e não poderão viajar para fora do sítio onde estão. Uma Gestão do Património baseada nessa materialidade (baseada completamente na arquitetura e nas obras-de-conservação) é, hoje, já, completamente insuficiente para garantir a continuidade da Cultura Portuguesa, ou de qualquer outra. Um trabalho de Gestão do Património baseado nessa presunção é um erro. É hoje mais insuficiente do que há 30 anos, e será mais à medida que o tempo avançar. Esse trabalho vai continuar a ser necessário. Mas deve passar para outros ministérios (para os ministério das obras-públicas e infra-estruturas). Deve abandonar o da Cultura, e deixar de onerar o seu orçamento. É para essa Mudança que os Museus e a Política Pública de Património se deviam ir preparando. Doravante, toda a materialidade pode ser impressa com máquinas, IA, e robots através de uma codificação. «Codificação» que é um objeto físico (e não uma “imaterialidade” ou uma “intangibilidade”) com uma duração de milhões de anos. E pode ser realizada em qualquer sítio fora do planeta quando isso for possível. A materialidade que não possa ser reconstituída desse modo desaparecerá inevitavelmente. Compreendemos, tal como no passado, quando a transmissibilidade mudou os Suportes (pedra, papiro, papel, fitas magnéticas, CD-DVD, etc.), que aquilo que fica na Memória é aquilo que consegue fazer essa viagem no tempo. Hoje, os países (Culturas) mais desenvolvidos estão a fazer essa transmissibilidade para Suportes com uma durabilidade de dezenas de milhões de anos (por ex. através do ADN Sintético, e outros suportes quânticos). E estão a absorver e a reinterpretar as Culturas (e o respetivo património) que não estão a fazer esse trabalho. Este trabalho patrimonial está a ser feito hoje, discretamente, por alguns países. Foi por isso que propus aquele “Índice de Avaliação do Trabalho de Gestão Patrimonial” (com as cinco funções: preservar-documentar-comunicar-transmitir-reconstituir), e ataquei violentamente o dualismo material/imaterial (porque destrói a possibilidade técnica de gerir a física das escalas com que hoje se trabalha). Tentei, com a “Estrutura da Relevância”, chamar a atenção para a génese bioquímica daquilo a que chamamos «Património» e «Museus». Para não se perder a consciência de que a Natureza, há mais de dois mil milhões de anos, aqui na Terra, produziu um mecanismo bioquímico capaz de (passo a citar): “codificar o que é relevante, guardar isso no núcleo da célula, protegido com uma membrana, e transmiti-lo às gerações seguintes”. E em cada nova geração, em diferentes lugares geográficos, a materialidade dos corpos é impressa novamente a partir dessa codificação (ADN). Esta via Eucariote que a Vida produziu é a causa de sermos a espécie dita sapiens sapiens, assim como a maior parte das espécies aquáticas, e também as plantas, as árvores, e as florestas. Ora, este mecanismo bioquímico não será, afinal, o primeiro museu? De facto há uma mudança que exige uma Reforma. Portugal está a perder terreno enquanto País e Cultura independente. Isto é, enquanto uma Identidade com expressão própria cuja idiossincrasia traz benefício à Diversidade Humana. A Gestão do Património é a ferramenta da Continuidade. É um assunto mais sério do que a generalidade das Pessoas julga. A RPM é uma infraestrutura importante para que este novo caminho possa ser realizado. Foi por esse motivo que enviei a mensagem. Nas recentes discussões e tertúlias sobre o futuro dos museus (e do património) parece que andam perdidxs. Com tanta animação, festas, concertos, e banquetes parece que esqueceram o desígnio patrimonial que a Vida legou aos seres ditos «Humanos». Pedro Manuel-Cardoso |
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