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Entre os eventos com que a Câmara de Lisboa vai brindando os munícipes e visitantes, neste ano de 2017, comemora-se a “Capital Ibero-americana de Cultura: passado e presente” comissariada por António Pinto Ribeiro. Duas exposições ganham relevo nesta efeméride: A Exposição sobre “Racismos e Cidadania” no Padrão dos Descobrimentos, e os “Testemunhos da Escravatura: Memória Africana”. Este último evento, preparado pelo Gabinete de Estudos Olissiponenses, apresenta um vasto programa de atividades, em diferentes museus da cidade. Com a curadoria de Anabela Valente e Ana Crsitina Leite, mobiliza 37 equipamentos da cidade, onde uma das suas peças integra esta memória. A ideia de criar uma rede de memória entre estes museus é valiosa e constitui uma salutar inovação na museologia da capital. Também é sem dúvida de louvar esta intenção de dar visibilidade às Heranças Africanas nos museus de Lisboa. Uma herança que tem sido invisível e silenciada e por isso tema controverso . Já vai sendo tempo de integrar as narrativas sobre a diversidade nos museus portugueses. Mas há algo de incómodo que transparece nesta intenção de integrar um tema controverso numa efeméride da cultura Ibero-americana, num registo de passado e presente. Há dois elementos de desconformidade: Espacial e Temporal. Espacial, porque obviamente a intenção de trabalhar a memória africana, alarga e desloca o espaço ibero-americano para outro continente. não se trata dum espaço Ibero-americano, mas um espaço triangular com centro no Atlântico, com três vértices. Teria sido, talvez mais perspicaz desenvolver esta exposição no âmbito da UCCLA ou da CPLP. Mas se consideramos que a diáspora africana há muito que se alargou pelo espaço ibero-americano, talvez se aceite a proposta. Temporal, e esta questão é bastante mais incómoda, porque nesta exposição é feito um exercício gratuito de deslumbramento sobre a tragédia que foi o fenómeno do tráfico negreiro e nada é dito sobre o Presente. Teria sido sem dúvida fácil de integrar as comunidades africanas de Lisboa a colaborar nesta exposição. Não foi essa opção, e os museus de Lisboa continuam encerrados nos seus passados controversos. Mas ao olharmos de forma crítica exposição, o que mais impressiona é o branqueamento da memória africana e a ausência do seu contributo para a formação duma consciência sobre o fenómeno histórico e para a sua trágica dimensão. E tanto mais grave é, porque é feita a partir dos herdeiros desse tráfico. Daqueles que aprenderam nas escolas do Conde Ferreira e oraram nas capelas barrocas das Misericórdias. O que nos quiseram dizer é que neste presente, nada há a refletir sobre essa “nossa” portuguesa e lisboeta história. Teremos sem dúvida muitos exemplos, mas tomemos o exemplo da peça integrante da exposição do Museu Bordalo Pinheiro, agora renovado. Uma caneca cerâmica, figurativa e burlesca como era atributo deste ceramista. Até aqui tudo certo. Mas porquê destacar a figura do Gungunhana em vez do Pai Paulino, ambas no mesmo espaço. Sabemos que o Imperador Ronga (Vátua ou Landim como lhe chamaram os colonizadores), aprisionado nos finais do século XIX (1896), nos campos de Chaimite por Mouzinho da Albuquerque, foi um evento marcante para o domínio de Gaza e a segurança da então Baía de Lourenço Marques (nas chamadas campanhas de pacificação). Sabemos que o Imperador, com as suas várias mulheres foram desterrados para Lisboa, aprisionados em Monsanto, e posteriormente exilado nos Açores, onde Gungunhana acaba por morrer. As suas várias mulheres (a poligamia era tradição nas terras vátuas) foram juntamente com o prisioneiro alvo da chacota pública. Já nos anos 70, o então presidente Ramalho Eanes, entrega às autoridades Moçambicanas a urna, daquele que é hoje um herói moçambicano, e que se encontra na Fortaleza de Maputo. É essa personagem e esse momento que Bordalo Pinheiro molda na peça cerâmica. Um retrato dum tempo controverso, que hoje procuramos ultrapassar. Sobre o Pai Claudino, também sabemos que era uma figura popular de Lisboa, combatente liberal, membro de várias confrarias. A questão é: porque escolher a representação do passado de forma acrítica, que hoje é um discurso controverso, em vez de uma outra representação, mais próxima do que pretendemos fundamentar na nossa cidadania. Suspeitamos que a razão da escolha foi sobretudo estética. Talvez porque o diretor do museu (o meu bom amigo Alpuim, me desculpe) se tenha deslumbrado pela ironia de Bordalo Pinheiro e não tenha tomado atenção ao contexto. ´ Simplesmente o que acontece é que esta peça reproduz o estigma do outro como selvagem. O contrário do que se pretende com a aproximação cultural. Tudo isto está escrito nos livros de História. Aprende-se nas universidades e devia-se aprender nas escolas, não falar da continuidade da ausência da memória africana no presente. Mas isso suspeito que tem a ver com a incapacidade que os museus de Lisboa têm em reconhecer a comunidade em que se inserem. “Um museu que não serve para a vida não serve para nada”, escreveu Diana Bogado num capítulo da sua tese , que por estes dias defende a sua tese em Sevilha. Onde está a responsabilidade social destes nossos museus? Para quando uma museologia com base na dignidade Humana? https://globalherit.hypotheses.org/5910 --
Pedro Pereira Leite
(Ph.D) MINOM Board |
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