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[Museum] Coches e Automóveis.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Coches e Automóveis.
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 25 May 2017 17:48:53 +0100

Muitas críticas se têm ouvido acerca da decisão do Museu Nacional dos Coches.

Permitam a seguinte opinião:

 

Quando um Objeto muda é porque houve sempre, inevitavelmente, um Ser que também mudou.

Quando o Objeto se transforma é o Sujeito que também se transformou. Se transformou noutro Ser. Porque senão seria incapaz de criar um novo Objeto (Real/Realidade).

Quando uma Cultura produz novos Objetos, é porque há novos Sujeitos com uma nova Mente capaz de os perpetrar. Uma nova Mente não apenas em termos metafóricos ou literários, porque o que a biologia molecular da cognição nos mostra é que numa nova aprendizagem crescem novas dendrites, novos percursos sinápticos, e novos limiares bioquímicos.

Nesse processo de perda e de transformação, as Pessoas perdem-se tanto quanto os Objetos. Razão pela qual se queixam de terem perdido a sua Cidade, os seus Objetos, as suas Paisagens, os seus Ambientes (naturais e culturais), a sua terra, enfim o-seu-Mundo e aquilo que eram ou se recusam a ser. Aquele tipo de nostalgia que W. Benjamin soube tão bem retratar.

Quando ocorre uma mudança na Cultura Material é sempre um forte indício (arqueológico) da transformação das Pessoas. Uma prova de que deixaram de ser o que eram, e se transformaram noutras Pessoas. Foi por isso que propus o IMPRONUNCIALISMO como método de acção e de investigação. Foi por isso que propus que se acrescentasse essa quarta Variável à atual Teoria da Evolução. Foi por isso que apresentei uma nova tese de antropologia na Conferência da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) em 3dez2016. Porque esse processo mútuo e recíproco de Transformação é uma evidência empírica, sem a qual jamais se poderá entender a condição humana.

A Compreensão exige a transformação de quem deseja compreender. Esta é a condição primordial da Compreensão. Está dita em todos os textos sagrados de todas as grandes religiões. E na Ciência, foi demonstrada pelos teoremas de Kurt Gödel em 1931, com antecedentes que datam desde os pré-socráticos até à Fenomenologia.

Razão pela qual a referi com enfase no Léxico de Patrimologia, na universidade, e noutros locais.

Ora, sem o acesso à Compreensão não há acesso ao Património (isto é: o acesso ao «valor patrimonial» daquilo que vulgarmente se designa por «objetos, documentos, monumentos, coleções, etc.».

Entre nós, a «ACESSO CULTURA» tem vindo a fazer um excepcional trabalho sobre esse Acesso.

Quando refiro que é necessário um novo rumo para a Política Pública de Património não se trata de uma questão partidária, de arranjar um emprego, ou de embirração. Trata-se de conduzir essa Política (e reformar os Serviços e os «Museus e equiparados» deles dependentes) através de uma Patrimologia/Museologia da Compreensão em vez da atual Patrimologia/Museologia da Memória.

Os automóveis e os coches mostram bem como «objetos de um determinado tipo» e «um tipo particular de uso que lhes foi dado pelas Pessoas» evoluíram mútua e reciprocamente. Não considero um erro a decisão tomada. Pelo contrário.

O que eventualmente poderá estar mal são os conflitos e exageros comerciais. Por eventualmente diminuírem e degradarem a importância do Património junto da Comunidade. Mas isso talvez se possa resolver na Expografia.

Pedro Manuel-Cardoso

 

 

 


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