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[Museum] Património em Mudança

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Património em Mudança
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Mon, 5 Jun 2017 16:11:26 +0100

Agradeço à Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE), e ao Professor Vítor Oliveira Jorge, a coragem de terem publicado na revista TAE-Trabalhos de Antropologia e Etnologia (Volume 57/2017, pp.44-49), o polémico resumo da Conferência que fiz em 3dez2016 na Fundação Engenheiro António de Almeida.

De facto as reações foram violentas.

Porém, perante os resultados científicos que se vão anunciando a cada dia que passa, parece, afinal, que o absurdo se torna no óbvio. Um processo a que William James, já em 1907, chamou de “A Pragmática da Verdade”:

“No início, uma nova teoria é atacada porque é absurda; depois, admite-se que é verdadeira, mas óbvia e insignificante; finalmente, é considerada tão importante que os seus adversários reclamam que foram eles próprios que a descobriram.” (William James, 1907, “A Pragmática da Verdade”, Harvard: USA).

Posteriormente, vemos surgirem obras como as de Y.N. Harari (“Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” e “Homo-Deus: história breve do amanhã”), e outras, que revelam, afinal, a pertinência dos dados e da proposta que apresentei.

No artigo que agora saiu na revista TAE-Trabalhos de Antropologia e Etnologia (http://revistataeonline.weebly.com/uploads/2/2/0/2/22023964/pedrocardoso.pdf), e que aqui partilho, refiro as repercussões que esta Mutação tem na arqueologia, na paleontologia, a sociologia, na história, na etnografia, no património, e na arte.

 

PORQUE ESTAS DEZ FRONTEIRAS DA IDENTIDADE HUMANA ESTÃO A DESAPARECER?

 

1. Porque hoje o Inato já não tem por contraponto o Adquirido?

2. Porque hoje o Instinto já não tem por contraponto a Aprendizagem?

3. Porque hoje o Corpo já não tem por contraponto a Alma ou a Mente?

4. Porque hoje o Objeto já não tem por contraponto a sua Representação ou Imagem?

5. Porque hoje a Matéria/Energia já não tem por contraponto o Espírito?

6. Porque hoje o Determinismo e o Automatismo genético já não têm por contraponto a

Liberdade e o Arbítrio?

7. Porque hoje o Animal já não tem por contraponto o Humano?

8. Porque hoje muitos Humanos já não querem ter Género?

9. Porque hoje o Corpo do sapiens sapiens já não é o Corpo-Humano?

10. Porque hoje a Natureza já não tem por contraponto a Humanidade?

 

 

A teimosa resistência da Museologia em não querer transformar-se em Patrimologia (isto é, integrar num único corpus científico e epistemológico a arquivologia, biblioteconomia, documentação, conservação, e museologia) é apenas um caso desse conservadorismo. Uma realidade que pode facilmente ser verificada nos atuais curriculae da maioria dos cursos de formação académica, mas também nas instituições (por exemplo, DGPC, ICOM e congéneres).

Uma relutância que, infelizmente, atrasa e desvaloriza o legado técnico e científico que foi acumulado durante décadas por essas competências e saberes do Património.

A Formação (universidades e congéneres) e a Política de Gestão do Património (incluindo, portanto, a dificuldade de emprego dos formandos) sofrem esta inércia. Que urge alterar. Porque são os Visitantes (sobretudo os das novas gerações, que deixam de compreender o valor patrimonial dos Objetos e Coleções, das narrativas que se fazem delas, e quais os benefícios efetivos dos museus e instituições congéneres).

Hoje, o ACESSO ao Património é uma gestão e um trabalho muito mais complexos e exigentes do que no passado. Não se resolve com medidas legislativas ou teorias de organização burocrática. O recente caso do Convento de Cristo, em que um projeto patrimonial é confundido com um programa de eventos mediadores e convivais, é disso mais um exemplo. Como se o Património em si mesmo, no seu valor próprio, não tivesse a mesma capacidade de atratividade e de ludicidade. A disneylização, as guitarradas, as festas, e outras performances, trazem muita gente para dentro do Património, que são contabilizadas na estatística das Visitas. Porém são iniciativas postiças, para o consumo hedonista e efémero, que não permitem o acesso ao valor patrimonial dos Objetos e Coleções, nem o enraizamento dos museus/monumentos e congéneres nas Comunidades. Podiam ser feitas ali, ou noutro sítio qualquer. Paradoxalmente, a vivacidade e animação dessas iniciativas contribui para matar o Património, em vez de serem um projeto em prol de um Património Vivo.

Pedro Manuel-Cardoso

 


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