Uma descoberta com muitas consequências!
É uma descoberta, deveras, importante. Importante para a Antropologia. E importante para o Património.
A descoberta de fósseis de Homo sapiens em Jebel Irhoud (Marrocos) com 315 mil anos muda aquilo que está escrito sobre a evolução humana nos livros de antropologia e paleontologia.
"Costumávamos dizer que houve um berço da humanidade, há 200 mil anos, na África Oriental, mas os nossos dados revelam que o Homo sapiens se distribuiu por todo o continente africano há cerca de 300 mil anos". “Muito antes da sua migração "out of Africa", o Homo sapiens dispersou-se através de África". (Jean-Jacques Hublin, Nature, 7 june2017) |
A referência a esta descoberta serve, mais uma vez, para corroborar a tese que apresentámos em 2010, e a proposta que fizemos em 2015 que deu origem à Conferência de 3Dez2016 na Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE). Cujo resumo foi publicado na revista TAE-Trabalhos de Antropologia e Etnologia (Volume 57/2017, pp.44-49), e que referi na Mensagem n.º 17238.
Nessa Conferência e no Artigo publicado na TAE referi as repercussões desta “Mutação do Corpo”. A descoberta vem agora confirmar empiricamente o que tínhamos afirmado …
O estudo dos fósseis mostra uma alteração anatómica rápida [na morfologia facial e crânio do Homo sapiens] e uma combinação de padrões ao mesmo tempo modernos e arcaicos que fazem parte de um processo evolutivo dentro da própria espécie Homo sapiens. (Jean-Jacques Hublin, Nature, 7 june2017) |
Destaco com especial relevo as seguintes consequências:
“1. Doravante a ANTROPOLOGIA talvez deva «analisar todos esses Corpos que o Ser-Humano habitou e usou na Filogenia no seu Conjunto» (provavelmente desde os primeiros Eucariotes até erectus, habilis, Neandertal, sapiens, e assim sucessivamente), e comparar e classificar as suas características a partir «daquilo que os impele a todos de dentro», e não através da Adaptação como tem sido feito até agora. Não deve cair nesse erro, de tomar as «tácticas» conjunturais de sobrevivência pela «estratégia». Não deve escolher a Adaptação em detrimento da Transformação. Razão pela qual, às variáveis da teoria darwinista e epigenética da evolução (“Variação – Adaptação – Seleção”) proponho que se acrescente uma quarta, a Transformação. Porque é isso que os dados da observação empírica e do raciocínio analítico exigem. [….] 7. O Corpo do Homo sapiens que atualmente nos serve de Suporte, e que desde sempre constituiu o objeto da Biologia, já não nos serve de referência para conseguirmos responder à pergunta de Kant fundadora da Antropologia: “O que é o Ser-Humano?”. Renovada hoje pela pergunta de Kantor e de Wheeler: “Viemos da Coisa ou da Informação?”. [….] 14. Na ARQUEOLOGIA altera o modelo vigente sobre a explicação da passagem do Paleolítico Superior para o Neolítico, mostrando uma adequação muito melhor aos factos e aos vestígios materiais recolhidos (ver as discrepâncias entre o modelo vigente e os vestígios arqueológicos, apresentadas por Sérgio Monteiro Rodrigues em 3dez2016 na mesma Conferência da SPAE sobre "O processo de neolitização do Norte de Portugal: o contributo do sítio arqueológico do Prazo na Vila Nova de Foz Côa"). O Difusionismo e as explicações baseadas nos contactos e empréstimos/miscigenações culturais perdem algum folego face às capacidades transformativas autónomas das populações autóctones. O que resolve as imensas discrepâncias que se verificam atualmente entre os vestígios materiais e as camadas estratigráficas. Porque a Transformação realizada pelas populações e grupos humanos na Ecologia/Ambiente/Contexto (a tal 4.ª Variável) processa-se através de «Níveis e Graus de Complexidade» que são comuns ao fenómeno que se designa por «Ser-Humano», logo, independentemente da Adaptação, da descontinuidade geográfica, ou dos contactos/empréstimos/miscigenações.” [….] (http://revistataeonline.weebly.com/uploads/2/2/0/2/22023964/pedrocardoso.pdf) Pedro Manuel-Cardoso, 3dez2016, “O Corpo em Mutação”, Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE), Fundação Engenheiro António de Almeida. |
A descoberta destes fósseis de Homo sapiens em Jebel Irhoud remete, ainda, para as “Sete Exigências Metodológicas para Re-iniciar a Antropologia” que propusemos nessa Conferência.
Em conclusão, tal como referi, os avanços e mutações no Saber Antropológico conduzem-nos a um novo tempo e a um novo paradigma do Conhecimento. Em que a palavra Ser-Humano deixa de ser um substantivo para passar a ser um adjectivo… de algo - um fenómeno - que desconhecemos ainda mais do que julgávamos. E que começámos, num primeiro momento, por causa dos nossos limites humanos de discernimento (e de uma certa vaidade antropocêntrica), por lhe chamar «Ser-Humano».
Pedro Manuel-Cardoso