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A ideia de património, como o conjunto de bens que nos são legados, é uma herança que carregamos desde o século XIX. Trata-se duma invenção do pensamento europeu moderno, uma ideia que tem a sua origem num tempo e num espaço. Hoje, a partir da Lusitânia, qual é afinal da ideia que podemos propor como alternativa. Uma ideias, que como ainda não existe, não a podemos enunciar. A nosso bom amigo Pedro Cardoso Pereira, tem vindo a defender nesta lista Museum, a necessidade de reeinventar este conceito de património. Argumenta que deixou de ter correspondência com a nossa realidade, se mostra desadequado às práticas, propondo uma nova e estimulante abordagem a partir da essência biológica do ser (humano que não é, mas está). Enuncia a necessidade duma nova palavra que represente essa nova ideia. Uma palavra impronunciavel, porque agora apenas a podemos intuir. No seu último postal, insurge-se com razão, contra a divisão material/imaterial do património. Segundo a sua análise essa ideia é responsável pela incapacidade que as ciências do património têm hoje, para salvaguardar as relevâncias dos objetos patrimoniais. Como consequência a divisão entre material e imaterial no campo do património torna-se numa falsa ideia. Estou de acordo e tenho inclusive, desde à alguns anos a esta parte, recusado dar o meu tempo aos seminários académicos e à escrita sobre a imaterialidade, por ter então concluído pela sua inutilidade. Mas a questão poderá ainda ser mais grave. Se atentarmos que a divisão entre material e imaterial tem origem nas Convenções da UNESCO de 1972 e 2003, podemos verificar, que em 1972 é também feita, uma outra categorização (cultural/natural). (http://portal.unesco.org/en/ev.php-URL_ID=12025&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=-471.html) Felizmente, há já muita gente que defende que esta separação entre história natural e história geral, que advém do século XVIII, é também ela uma falsa ideia. E, mais important, age em conformidade. Ora sabendo nós que a convenção sobre o património imaterial foi feita para preencher o vazio que a convenção de 1972 tinha produzido, assim como as demais duas convenções da UNESCO no campo do património (património subaquático, diversidade cultural), podemos concluir que aquilo, em que cada tempo e momento, a comunidade científica hegemónica considera que merece ser salvaguardado, se vai afinal transformando. As certezas de hoje, tornam-se dúvidas amanhã. O problema é que cada Convenção, por si só, transforma-se em legislação interna em cada país, dando origem a distintos serviços de proteção patrimonial, que como é tradição, se constituem em estruturas de legitimação, produzindo normativos simbólicos. Ou seja, já não basta simplesmente reconhecer novas ideias, é necessário também transformar as estruturas que albergam as falsas ideias. Um contributo que podia ser feito a partir da Lusitânia. --
Pedro Pereira Leite
(Ph.D) MINOM Board |
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