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[Museum] Língua, Linguagem, e Fala. E a Lusitânia, desde que não seja a do Auto de Gil Vicente

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Língua, Linguagem, e Fala. E a Lusitânia, desde que não seja a do Auto de Gil Vicente
From :   "PedroManuelCardoso" <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Sun, 11 Jun 2017 00:04:10 +0100

 

1. Separar Imaterial de Material (ou vice-versa) é desapossar o Património das Pessoas.

Referi o Património Algorítmico apenas porque é um caso concreto que urge uma atenção especial por parte dos Responsáveis pela Política Pública de Património. Uma preocupação que me levou a propor, em 2006, ao Museu Nacional de História Natural, uma Exposição a que dei o nome “Pôr em Código?” (Ver Cartaz e a resposta do MNHN nos dois ANEXOS).

2. A referência que fiz ao erro de cindir os objetos/coleções em Material vs Imaterial é evidente no caso do Património Algorítmico. Mas também o é no caso da «Língua Portuguesa».

Se alguém classificasse uma «Língua» (a língua, a linguagem, e a fala) como «património imaterial» estaria a retirar as Pessoas dele. Não valiam de nada as aulas-de-português. Porque sendo imaterial poderia prescindir da materialidade das Pessoas que a exercem.

O pretenso «Dia da Língua Portuguesa» também serve para tomar consciência desse erro.

3. Uma Língua Dominante (ou que pretende ser dominante) exerce-a sem expulsar as Pessoas dela. Sem separar Material de Imaterial.

O «Património Imaterial» é um conforto para quem se quer apossar da materialidade e do território linguístico do Outro (da Diversidade). Um óptimo caminho para a normalização e a colonização. A Língua Dominante deseja que as outras Línguas se contentem em ser Imateriais (em não haver Pessoas/Falantes para exercê-las). Uma Língua classificada como «património imaterial» pode ser fechada num museu, numa pen, ou numa nuvem/cloud. Dirão: «É Imaterial, não é? Então não necessitam da materialidade dos Falantes para exercê-la. Já não está preservada? Então, agora falem a que vos propomos». O famigerado «Património Imaterial» presta este serviço aos Colonizadores/Normalizadores na sua luta contra a Diversidade. Ajuda a afastar as Pessoas (a materialidade) das línguas que não lhes convêm.

Ou seja, para além da razão que o Professor Pedro Pereira Leite muito bem referiu, relativa à Convenção de 1972, há também esta dimensão Política. Por detrás desta separação entre Imaterial/Material há, de facto, quem beneficie com ela.

4. Para entender esse erro à luz dos atuais dados da biologia molecular da cognição é necessário ter em consideração aquilo que o sistema perceptivo e o cérebro humano fazem ao Real (aos objetos/coisas que entram e são configurados pela percepção e pela cognição). Ora o que se constacta, em termo concretos, é que existem três locais distintos no cérebro, um para os objetos/coisas em si mesmas, outro para os contextos onde surgiram esses objetos/coisas, e um terceiro para as relações entre os dois primeiros locais mediadas por ícones, signos, ou símbolos. Não é uma teoria ou uma tese literária-filosófica, são três sítios concretos, com três coisas/objetos diferentes lá dentro. O “Conceito Hepta-dimensional de Objeto e Realidade” (Pedro Manuel-Cardoso, 2011, 2015) descreve esse processo e distingue os Sete Tipos de Objetos que intervêm no processo humano de conceber/construir a Realidade (ou a Evidência, no sentido que lhe deu Heidegger, Fernando Gil, e outros).

5. O que este dado da ciência releva para o caso?

É importante porque mostra que a «Língua» (todas elas) é uma consequência dessa pré-formatação inscrita no sistema molecular e bioquímico da percepção/cognição. Isto é, que a Relação entre Objetos e Contextos exige ícones, signos, e símbolos (letras, números, sons, marcas, etc.). Não é uma invenção humana, é uma imposição da Natureza, daquilo a que se chama «Vida».

Os seres humanos (os corpos dos Homo sapiens) são obrigados pela «Vida» a terem uma Língua. São obrigados a construir o Real desse modo. Sem esse tripo processo não há percepção nem cognição. Evidentemente que cada «Cultura» adopta uma Língua diferente, porém todas elas estão pré-formatadas por esse sistema/funcionamento biológico. Nunca esquecendo que a Língua é o código, a Linguagem um dos modos de exercer esse código, e a Fala o exercício das linguagens.

De facto, a separação entre Material e Imaterial é um dislate. Seja de propósito ou por acaso, serve muito bem os interesses de quem pretende Normalizar e Dominar as Diversidades.

6. A Ideia de Património não nasceu no século XIX na Europa. Porquê? Porque a Ideia de Património não é a palavra (significante) «património».

Nem mesmo na Europa a noção de Património é redutível à democratização do acesso defendido na Revolução Francesa. Há muitos manuais e autores conhecidos a afirmarem isso. Mas estão errados.

Basta estudar a Etnografia dos povos-sem-escrita, as Culturas da Antiguidade, ou mesmo a Europa medieval e renascentista, para constactarmos que, muito antes do século XIX, existia a Ideia de Património. E que as Pessoas e as Comunidades/Sociedades despendiam muito esforço e recursos nesse trabalho de legarem aos vindouros. Evidentemente que há muitas palavras diferentes para explicitarem essa Ideia. Mas, citando G. Bateson, “o nome não é a coisa nomeada”.

7. Se deixássemos as palavras, e olhássemos para aquilo que o Património é, e se perguntássemos quando ocorreu na «Vida» o comportamento de «escolher e guardar o que é Relevante (objetos/coisas/eventos), protegido por uma membrana (ou casa), para ser transmitido às gerações seguintes», então, tínhamos que recuar 2 mil milhões de anos. Porque é lá que começou esse comportamento na «Vida», concretamente nos Eucariotes, de que os Humanos são herdeiros diretos.

Logo, como é possível afirmar que a Ideia de Património é uma invenção totalmente humana? Afirmar isso, para além de não ser fundamentado nos dados da ciência, é não considerar aquilo que o Património significa (faz) no processo de Adaptação e Sobrevivência («evolução») dos seres-humanos desde o início da hominização.

Pedro Manuel-Cardoso

 

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