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Recebi ontem o mail que aqui transcrevo do meu bom amigo João Alpoim Botelho. Vem na sequência dum outro datado de 21 de junho, a propósito duma questão que eu aqui lancei sobre o tema do dia internacional dos Museus, dia 18 de maio. Não pretendo alimentar polémicas, nem com o João Alpoim, nem com a sua equipa, que tem estado a fazer um bom trabalho nesse "pequeno" museu no Campo Grande. De resto conheci o trabalho de João Alpoim no Museu do Trajo de Viana do Castelo, e estou convicto que é um dos bons diretores de museus que temos entre nós. E isso também é visível nestes últimos dois anos aqui em Lisboa. É certo que agora com mais recursos e mais equipa, o que não deixa de ser positivo para a museologia da cidade. Como sabemos esta lista museum, tem como princípio divulgar informações sobre as atividades dos museus e sobre questões da atualidade, que alguns de nós temos usado para defender opiniões e publicar alguns dados de pesquisa. São opiniões expressas na primeira pessoa. A lista é um plataforma, uma ferramenta que usamos nos nossos trabalho. Como sabemos, a ciência e a democracia vivem do dialogo e do confronto de ideias. Em relação á questão dos critérios da escolha do objeto, "o Muringue Gungunhanha" pelo Museu, a justificação dada pelo João Alpuim é esclarecedora e do meu ponto de vista confirma o que procurei relevar. O problema, sobre o qual escrevi, foi sobre a incapacidade dos museus têm em incluir a diversidade e o reconhecimento do outro nas suas narrativas. Apresentam-nos demasiadas vezes narrativas metonímicas e prolépticas, quando havia a possibilidade de incluir narrativas dialógicas. Uma situação que do meu ponto de vista advém do fato dos atores se centrarem na reificação do objeto e não procuraram entender sua relação processual. Uma das formas de ultrapassar essa reificação é de procuram criar diálogos com a pluralidade. A pluralidade do olhar cronológico e cairológico e a pluralidade des escalas de observação. Tudo isso está no Código de ética do ICOM para quem queria aprofundar a questão. http://icom-portugal.org/multimedia/File/Cdigo%20tica%20-%202007%20-%20verso%20final%20pt.pdf --
Pedro Pereira Leite
(Ph.D) MINOM Board Ex.mos Senhores: no dia 21 de Junho enviei o mail que anexo, com um texto sobre a peça que o Museu Bordalo Pinheiro expõe no âmbito dos “Testemunhos da Escravatura”. O texto foi escrito na sequência de outro que foi divulgado nesta plataforma em que se afirmava : “Suspeitamos que a razão da escolha foi sobretudo estética. Talvez porque o diretor do museu (o meu bom amigo Alpuim, me desculpe) se tenha deslumbrado pela ironia de Bordalo Pinheiro e não tenha tomado atenção ao contexto. “ É uma frase em que não revemos o trabalho realizado no Museu Bordalo Pinheiro, pelo que nos parece da mais elementar justiça a publicação do nosso ponto de vista. Assim sendo, volto a solicitar a publicação deste texto. Com os melhores cumprimentos De: João Alpuim Botelho [mailto:joaobotelho@egeac.pt] O “Moringue Gungunhana” do Museu Bordalo Pinheiro e o projecto “Testemunhos da Escravatura” * O Museu Bordalo Pinheiro recebeu o desafio de participar na iniciativa “Testemunhos da Escravatura, Memória Africana”, que o Gabinete de Estudos Olisiponenses promove, no âmbito da Lisboa Capital Ibero Americana da Cultura. O projecto pretende relançar a discussão sobre a escravatura em Portugal, a forma como foi representada e as suas repercussões históricas, económicas e ideológicas, como refere o testo de apresentação do projecto: “parte das representações e das novas narrativas agora construídas do que a escravatura foi no passado, pretende-se contribuir para uma consciencialização dos equipamentos culturais, bem como contribuir para a construção de uma discussão do que, ainda no presente, significa a escravatura”. No Museu Bordalo Pinheiro, ao lado do enorme talento do artista, admiramos também a forma como Bordalo sempre coloca os seus valores e ideais em primeiro lugar, o que confere à sua obra uma actualidade e duração no tempo fora do normal. Há algumas excepções, em que as mudanças nos tempos históricos conferiram novos significados aos seus ideais. Temos, portanto, de perceber que estamos no final do século XIX, quando o desenvolvimento industrial levou a uma procura de matérias primas, que virou as atenções das grandes nações para os territórios africanos. Não é preciso lembrar que é neste contexto que surge a Conferência de Berlim que determina a ocupação efectiva dos territórios africanos pelas potências coloniais, onde foi apresentado célebre Mapa Cor de Rosa, que, por sua vez, levou a Inglaterra a fazer um Ultimato para que Portugal abandonasse as pretensões de ocupação do território entre Angola e Moçambique. Este Ultimato teve o efeito de um verdadeiro terramoto na vida política e social portuguesa e aproximou definitivamente as noções de colonialismo e nacionalismo: ser colonialista era uma forma de defender a própria História de Portugal e a sua grande epopeia os Descobrimentos, tantas vezes enaltecida como uma das bases da nossa identidade enquanto nação. Noto que estamos a falar de colonialismo e não de escravatura, que Bordalo repudia, como fica evidente num desenho de numa página inteira do jornal Pontos nos iis de 14 de Outubro de 1886, em que representa o Zé Povinho (e também a si próprio) a festejar o fim da escravatura em Cuba. Dito isto, aceitar este desafio de integrar estes “Testemunhos de Escravatura” obrigou o Museu a problematizar uma faceta de Bordalo que hoje não se enquadra no tal comportamento exemplar que continuamos a subscrever nos nossos dias, de que falámos inicialmente. Não são muitas as peças que se podem relacionar com a escravatura, mas poderíamos ter escolhido a figura de um homem negro (que imaginamos ser inspirada nas figuras de convite barrocas); o busto de Pai Paulino (uma figura popular da época), o desenho sobre a polémica com Cadbury sobre a existência de escravos em São Tomé nas plantações de Cacau, ou a tal página em que celebra o fim da escravatura em Cuba são alguns dos raros casos. Seria fácil usar este último desenho para enaltecer as qualidades de Bordalo, mas pareceu-nos mais interessante problematizar a questão e assim dialogar com os visitantes e também com as peças dos outros museus que participam nesta iniciativa. Estando num Museu dedicado a um homem da caricatura e do cartoon, pareceu-nos que deveria ser pelo uso do humor que poderíamos levantar questões sobre a forma como o final do século XIX viu o colonialismo e sentiu o nacionalismo. Assim, escolhemos o “Moringue Gungunhana”, de 1897.Trata-se de um moringue, em que celebra a captura por Mouzinho de Albuquerque, no final de 1895, do régulo africano Gungunhana que combatia as tropas portuguesas em Moçambique. Gungunhana é representado numa posição humilhante, vergado, com uma pega em forma de corrente, lembrando o seu estado de prisioneiro. Não é a única peça com esta temática, uma vez que Bordalo repete o tema noutras peças, por exemplo num conjunto de duas garrafas, em que uma representa um Gungunhana altivo e livre, que se transforma numa figura humilhada e aprisionada na outra, aludindo assim à sua captura. (ver: http://testemunhosdaescravatura.pt/pt/pecas-e-documentos/museus/museu-bordalo-pinheiro). Bordalo usa nesta peça o humor de uma forma violenta e humilhante que não lhe é habitual. Pensamos que só há uma peça semelhante: aquela em que representa John Bull, figura que representa os gananciosos ingleses como um penico, feita na sequência do ultimato inglês. Há, no entanto, uma enorme diferença entre as duas peças: no John Bull, Bordalo ataca quem o humilhou e de uma posição de inferioridade; no Gungunhana é Bordalo quem, de uma posição de superioridade, humilha o mais fraco. É um uso brutal do humor que nos provoca hoje um sentimento de rejeição, mas não ficamos a saber mais sobre o que pensavam os lisboetas do final do XIX, que os levava acomprar estas peças para decorar as suas salas? Poderíamos ter escolhido o busto do Pai Paulino, mas não poderia essa escolha branquear a posição dos negros na sociedade lisboeta, fazendo parecer que estavam perfeitamente integrados? Este moringue Gungunhana foi, portanto, uma escolha consciente, fruto de uma reflexão sobre a figura de Bordalo integrado na sociedade lisboeta do final do XIX, e que pensamos contribuir para o questionar como foram vividos o colonialismo e o nacionalismo nesse tempo. A peça fala também do poder do humor como forma de expressão. Fica aqui o convite a uma visita ao Museu Bordalo Pinheiro e a todos os outras instituições que entraram no projecto “Testemunhos da Escravatura, Memória Africana”. João Alpuim Botelho Director do Museu Bordalo Pinheiro (* este texto é escrito na sequência de um comentário de Pedro Pereira Leite sobre a escolha desta peça para integrar o projecto, aqui publicado em 24 de Maio, com o título “O que ficou por dizer no Dia Internacional dos Museus III”. Fico contente que ele tenha visto a exposição com tanta atenção e que tenha feito o comentário – apesar de não concordar com ele – porque as “escolas de elogio mútuo” que nunca levaram a lado nenhum. Aliás, só tenho a agradecer-lhe pois é uma óptima forma de chamar a atenção para o projecto.) |
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